Blog da Lúcia Helena http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. Tue, 18 Jun 2019 12:43:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 No cérebro, ser feliz é mesmo uma decisão: a de focar no momento presente http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/no-cerebro-ser-feliz-e-mesmo-uma-decisao-a-de-focar-no-momento-presente/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/no-cerebro-ser-feliz-e-mesmo-uma-decisao-a-de-focar-no-momento-presente/#respond Tue, 18 Jun 2019 07:00:00 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4422

Crédito: iStock

O russo Liev Tolstói escreveu que todas as famílias felizes se parecem entre si e que as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. Discordo! Experimente uma desgraça e dirá “desgraça”. Ninguém normal tem a menor dificuldade para reconhecer coisa ruim quando chega, de tão semelhantes que são nossas tristezas. Mas normalmente suspiramos que éramos felizes e nem sabíamos. 

Um dos motivos, penso, é que felicidade lembra drops de infância, sortidos. A cada hora nos surpreende com um sabor e nunca é igual para cada um de nós. Mas, se Tolstói começou tão bem a história de sua Anna Karenina, estou aqui enrolando. Confesso. Fica a dica: jornalista, quando inicia um texto citando um autor de livro ou um filósofo qualquer, quer pegar emprestado o que o outro tem de sabichão para esconder sua limitação. A minha, neste instante, é definir felicidade, já que ela entra nas recomendações da Organização Mundial de Saúde, a OMS, tanto quanto afastar a praga, a ferida purulenta, o câncer e o infarto — esses eventos notoriamente tristes de doer.  

Caminho seguro seria recorrer à neurociência, que tudo vê em exames pomposos de imagem do cérebro. E assim, para enxergar o que acende estrelas em nossos neurônios, fui assistir à aula da psiquiatria Hedy Kober no II Simpósio Internacional de Bem-Estar, promovido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Hedy dirige o Clinical & Afecctive Neuroscience Lab da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Ela logo jogou a batata quente nas mãos da audiência: “Os brasileiros são felizes?” Lembrou que, em 2012, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas garantia que éramos o país mais feliz da América Latina e o décimo-sexto mais contente do planeta em um levantamento realizado em 147 nações. Mas, como esse mundão gira porque é redondo, sim, em 2017 a felicidade pegou o seu banquinho… Os índices de estresse, depressão e ansiedade, desde então, aumentam 15% ao ano, de acordo, de novo, com a OMS. E hoje amargamos: somos o país mais ansioso ao redor da Terra e o quinto mais deprimido. O que deu em nossas cabeças? 

Hedy Kober assegura que uns 50% da nossa felicidade, porém, não estão nela, mas nos genes. Sim, existem genes que nos deixam mais propensos a encarar tudo com um sorriso, assim como há uma tendência escrita no DNA de uns e de outros à depressão. Fiquei matutando se isso explicaria a nossa vocação risonha. Mas não há genes, parece, que segurem a barra destes tempos… Que barra?

Política, economia, violência, ladroagem, dia dos Namorados sem namorado, ponteiros da balança, chefe chato, férias canceladas — nada disso teria forças para espantar nossa alegria, antes que pense que darei essa desculpa, que para a tal da neurociência é ligeiramente esfarrapada. Suas pesquisas mostram que só 10% da felicidade são determinados pelas circunstâncias. Restam 40%. Não sei se alivia, mas esses 40% são aquilo que fazemos intencionalmente. Ou seja, questão de escolher certo.

Algumas atitudes acertadas já são bem reconhecidas por estudos. Então vou dar aqui a fórmula — ousadia maior do que a de contrariar Tolstói, talvez.  Mas, enfim, uma delas é a atividade física. Fácil entender pela enxurrada de substâncias relacionadas ao bem-estar que o corpo em movimento derrama na massa cinzenta. Então, se a vida anda sem graça, ande mais rápido do que ela. Ao pé da letra. Os pés nos tênis.

Outro caminho fácil de seguir,  se a gente afasta o argumento melancólico da falta de tempo: ficar mais ao lado de quem a gente de gosta pra valer. Feito remédio. Todos os dias. De caso pensado, com aquela consciência morna de que a pessoa querida está bem ali ao seu lado — na mesa do jantar, no carro, no cotidiano simples de que a vida é feita.

A terceira atitude que mais traz felicidade é ficar próximo da natureza. E é bem importante isso que estou contando: cada vez mais pesquisas apontam que olhar para um pouco de verde, uma ave rasgando o céu ou um inseto ziguezagueando no ar, quem sabe ouvindo barulho da água furando a pedra dura, mexe demais com as áreas acionadas do cérebro. A ansiedade se apaga nas imagens dos exames, enquanto regiões ligadas ao foco e à serenidade se tornam pontilhadas de luz.

As pesquisas dizem mais. Dizem que gastar dinheiro faz muita gente feliz de verdade — bem, confesso, aí eu lembrei do meu saldo e aqueles 10% das circunstâncias da vida se agigantaram… Mas atenção que não é para abrir a carteira para qualquer coisa: no caso, as pessoas são felizes quando gastam dinheiro com os outros ou em atividades. Mais vale pagar o cinema do que a roupa nova. Ou investir no curso, na viagem, na festa do que na compra de um objeto qualquer. Dizem..

Finalmente vem algo de peso: a gratidão. Sei, soa zen demais para os ouvidos de alguns. Para Hedi Korber, no entanto, há uma lógica psicológica: quem é grato pelas coisas que lhe acontecem costuma ser uma pessoa atenta a tudo o que se passa. E essa conexão com o presente é o que existe de mais fundamental. Viver o agora mesmo com a aceitação — é o que temos para hoje e bola pra frente.

Por isso mesmo, no laboratório de Hedy, ao investigar a felicidade, ela se aprofunda nos efeitos da meditação na linha mindfulness, às vezes com práticas simples como prestar atenção por dez minutos na própria respiração e nas sensações por todo o corpo. Não faltam trabalhos atestando que esses exercícios meditativos reduzem o estresse, a sensação de sofrimento e a confusão mental. Aliás, vale citar um estudo clássico de Harvard, de 2012, apontando que a mente que muito devaneia é tremendamente frágil a quadros depressivos. Felicidade exigiria atenção e foco.

Mas o interessantíssimo é o conceito de que a meditação teria o que os cientistas chamam de efeito dose-dependente. Hedy Korber e seus colegas realizaram uma pesquisa com gente que nunca tinha feito mindfulness. Todos passaram por um treinamento de três dias.

Na experiência, o cérebro era vasculhado por exames de imagem durante a prática e, em determinado instante, os participantes recebiam um estímulo de calor .Sinceridade?  Era um toque quente no braço, ardente, quase queimando. Mas orientação era apenas aceitar a sensação, sem julgar se era boa ou ruim. 

O que as imagens cerebrais mostraram então: bastavam três dias para a sensação dolorosa ser menos percebida pela massa cinzenta, como se ela não desse mais tanta bola para o que não seria assim tão agradável. O que poderia corresponder ao efeito sobre situações cotidianas igualmente chatas, me disse Hedy.  

E note: quanto mais dias os voluntários continuavam na prática ou por mais tempo, mais efeitos eram visíveis no cérebro. Eis a dose-dependência. Primeiro, as áreas ligadas à atenção se iluminaram. E, com o passar dos dias, o padrão cerebral típico de pessoas desanimadas e entristecidas foi mudando. Surgiu um padrão de funcionamento associado ao estado de felicidade. 

Perguntei à Hedy se o mesmo poderia se esperar daquelas outras ações  que nos deixariam felizes. Embora aposte mais suas fichas no mindfulness — para ela, o fato de mente estar presente em cada instante seria a chave  para mudar o padrão cerebral — sim, é  possível. Portanto, a gente deve escolher agir pela felicidade e ser persistente nessa opção.  Então, o russo que me perdoe, mas eu o troco pelo mineiro Guimarães Rosa — sabe aquele papo sertanejo de que a vida quer de nós coragem?

]]>
0
Ao olhar o cardápio, você escolhe que bactérias vai alimentar no intestino http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/ao-olhar-o-cardapio-voce-escolhe-que-bacterias-vai-alimentar-no-intestino/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/ao-olhar-o-cardapio-voce-escolhe-que-bacterias-vai-alimentar-no-intestino/#respond Thu, 13 Jun 2019 07:00:24 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4395

Crédito: iStock

Enquanto você decide se vai de hambúrguer com fritas ou peixe com legumes e, talvez, já antecipe o que vai comer na sobremesa, saiba: trilhões de bactérias esperam ansiosas por essa refeição. Não quaisquer bactérias, mas aquelas que colonizam a porção mais baixa do seu intestino e que hoje estão cada vez mais associadas à saúde e à doença — bem, a escolha é sua! No fundo, tudo é uma questão de cardápio. Ou melhor, das opções que você servirá para suas hóspedes. 

Elas se alimentam de tudo que chega onde vivem— no cólon — sem ainda ter sido completamente digerido. Mas o que lhes agrada mais ao paladar? Essa deveria ser a nossa pergunta ao examinar o menu — em vez de ficar olhando apenas o próprio umbigo guloso,  quem sabe mirar um pouco abaixo dele. 

Afinal, sua pedida pode nutrir bactérias que protegem suas células do câncer, mantém o bom humor, dão força para o sistema imune… Ou ser um banquete para aquelas que estão por trás de tumores, doenças neurodenegerativas, problemas cardiovasculares, alergias, males digestivos, depressão e obesidade, para citar alguns exemplos.  

A julgar pelo Congresso Brasileiro de Pre, Pro e Simbióticos, o PreProSim, que acontece dentro do Ganepão 2019 e vai até amanhã em São Paulo, a microbiota intestinal está envolvida com o que nos acontece da cabeça aos pés. E muito do que a gente sempre ouve na linha de alimentos que fazem bem ou que não fazem tão bem na prática significa: alimentos que conquistam bactérias boas e que conquistam bactérias não tão boas pelo estômago. Isto é, se bactéria tivesse estômago. A que bactérias você gostaria de servir um almoço de bandeja?

Foi nesse evento, ontem mesmo, que procurei a nutricionista americana Laura Matarese com uma legítima dúvida de cardápio: o que as bactérias, digamos, mais desejáveis gostam de comer? Atualmente professora da East Carolina University, nos Estados Unidos, ela já foi diretora de nutrição da Cleveland Clinic Foundation e contribui para o governo americano na criação de políticas públicas no campo da nutrição. De quebra, é uma das melhores pessoas para responder essa pergunta, porque faz um bom tempo que investiga  o que acontece com os alimentos quando alcançam o intestino.

A professora começa com uma explicação bem simples, dessas para a gente nunca mais esquecer: “Comidas que têm grande biodisponibilidade, isto é, que seu organismo absorve e usa com tremenda facilidade costumam engordar o anfitrião ao mesmo tempo em que matam de fome as bactérias boas. Tudo o que tem bastante açúcar se enquadraria aí”, diz ela. “Já comidas que dão mais trabalho à digestão e que, mesmo com esse esforço, não são completamente digeridas costumam manter quem hospeda magro e os hóspedes intestinais ligados à saúde mais bem alimentados.”  Nessa linha de raciocínio, temos outro argumento para evitar os ultra-processados.

Quando a turma bacteriana que nos protege está bem nutrida, ela prospera. Brigando por espaço, mantém sob controle bactérias capazes de nos causar encrencas. As doenças sempre seriam resultado de um desequilíbrio entre essas duas populações, ou disbiose, nas palavras dos profissionais de saúde. 

Mais do que manter o equilíbrio, o tipo de alimento que colocamos no prato afeta a quantidade e a qualidade das moléculas que as bactérias intestinais produzem. E elas produzem um montão delas, que agem ali mesmo no intestino ou caem na circulação para viajar pelo corpo — literalmente para o bem ou para o mal.

Vamos então dar aquela olhada no cardápio: fibras, por exemplo, são de longe o que mais as bactérias ditas do bem gostam de devorar. Faz sentido: 100% das fibras não são digeridas por nós. No cólon, nossas hóspedes tratam de fermentá-las e, desse processo, surgem ácidos graxos de cadeia curta e palavrões difíceis de memorizar, como butirato, acetato, propionato. Acredite: são, entre outras coisas, antiinflamatórios de primeira linha e, de cara, protegem o próprio intestino de doenças.

“Também vale consumir chá, café, chocolate amargo, cereais, frutas e tudo o que tenha polifenois”, recomenda Laura Matarese. Pois é, descobri que só digerimos uns 5% dos benditos polifenois que a gente vive dizendo que fazem maravilhas. Fazem mesmo, mas boa parte deles age indiretamente. Ora, os tais 95% não digeridos alimentam a parcela boazinha da microbiota gerando mais moléculas — mais palavrões, dos quais vou poupá-lo — que são antioxidantes potentes e dão força ao sistema imune. De quebra, inibem tumores.

Merece destaque, ainda, a soja com suas isoflavonas, substâncias conhecidas por mimetizarem o hormônio feminino. Pois bem: as bactérias intestinais, segundo Laura Matarese, as transformam em anti-inflamatórios. E assim fechamos a lista dos favoritos de quem eu, pelo menos, gostaria de alimentar.

Na folha oposta desse menu estão alimentos excessivamente açucarados e todas as gorduras. No caso, porque uma molécula qualquer de gordura — seja a da manteiga ou a da margarina, a do torresmo ou a do azeite — exige bile para ser quebrada no intestino em partículas pequenas o suficiente para atravessarem suas paredes. Aí é que está: “se há muita comida gordurosa para a digestão dar conta, a secreção de bile aumenta demais e alguns sais biliares sobrando são utilizados pelas bactérias”, ensina a professora Laura. “O subproduto, desta vez, são substâncias inflamatórias hoje muito associadas ao câncer de intestino, entre outros”. Talvez esse seja o elo por que alimentos excessivamente gordurosos estão relacionados com tumores nesse órgão.  

Aí vem o dado mais curioso: a própria Laura Matarese diz ter se espantado no dia em que viu que de 20% a 40% das proteínas que comemos não são completamente digeridas e absorvidas na área do delgado, a parte mais alta do intestino. Ao descerem e seguirem a rota de saída, as bactérias fermentam essas sobras proteicas e, daí, não surgem substâncias tão bacanas. A amônia é uma delas, já que induz a proliferação de células — o que pode ser o estopim de muito câncer — e  inflamações pelo corpo. Acho que merece eu lembrar que toda doença tem uma inflamação por trás, não apenas as infecciosas como muita gente pensa.

O que me chamou a atenção foi a colina, aminoácido muito presente nos ovos. As bactérias a transformam em trimetilamina, substância que é oxidada no fígado e, a partir daí, vai para o banco dos réus dos causadores de aterosclerose. Estremeci: lá vamos nós condenar os ovos de novo? E justo pela colina, aminoácido que ganhou fama comprovada de proteger o cérebro da degeneração?!  Ao me ver intrigada, Laura Matarese disse: “sim, a colina protege o sistema nervoso. O problema é que bactérias não tão boas devoram o que não é absorvido.”  Desse ponto de vista, o aminoácido tem dupla-face. 

Mas a cientista americana não recomenda que você deixe de ingerir proteínas de origem animal, incluindo ovos com a sua colina. “O que todos precisam saber: quando colocam carne, frango ou, de novo, ovos no prato, a porção de fibras precisa ser bem maior. Não sabemos precisar quanto. Mas  bom senso é lembrar que o equilíbrio das bactérias intestinais só é mantido quando as proteínas são consumidas em porções menores, em uma mesmíssima refeição com fartura de fibras”, ensina. Portanto, no cardápio aquele bife só poderia ter um acompanhamento: salada.

]]>
0
Suplementos de proteína: os músculos só agradecem se você faz a coisa certa http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/11/suplementos-de-proteina-os-musculos-so-agradecem-se-voce-faz-a-coisa-certa/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/11/suplementos-de-proteina-os-musculos-so-agradecem-se-voce-faz-a-coisa-certa/#respond Tue, 11 Jun 2019 07:00:22 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4370

Crédito: iStock

Até parece que a colher vai mergulhar ali, escavar no pó e encontrar um bíceps novo em folha. Na segunda medida, quem sabe, um tríceps, desses de fazer a gente perder o medo de dar um tchauzinho na rua. Bateu tudo com água no copo e bebeu sem fazer cara feia? Então merece  um abdômen trincado por engolir soro de leite como quem toma um milkshake

Quem dera fosse fácil assim…  Essa é a fantasia de muitos que olham para uma fileira cada vez maior de potes cheios de suplementos de proteína. E ela cresce tanto quanto o número de consumidores. O mercado de suplementação proteica ganha mais tônus a cada ano que passa e, em 2018, cresceu 12%, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Produtos Nutricionais, a Abenutri.

Antes vistos como parte da receita  de um esportista pra valer, aos poucos esses suplementos caíram no gosto de quem frequenta a academia sem ambições tão atléticas. E até mesmo de quem quer emagrecer e, num abracadabra, trocar a massa gorda pela magra. Mas aviso: não há proteína em pó nem em barra que, por si só, faça essa mágica. Especialmente se ingerida sem um pingo de orientação.

De acordo com a classificação da Anvisa, esse tipo de suplemento é destinado para atletas. Se a gente pensar na necessidade, é justo: um esportista precisa se abastecer com 1,8 a 2 gramas de proteína por cada quilo do seu peso, todo dia, só para manter aquele físico. E, olha, ninguém está falando de um halterofilista, que nas mesmas 24 horas deve ingerir perto de 3 gramas de proteína por quilo do corpão sarado. 

Para gente como a gente, porém, que sua a camisa fazendo um exercício moderado, de 1,2 a 1,5 grama de proteína diariamente bastaria para o músculo se sair bem nos treinos. Para quem nem se mexe a esse ponto, 1 grama de proteína  já dá e sobra. Portanto, para que suplementar, não é mesmo?

No entanto, disparei para a nutricionista Tânia Rodrigues a pergunta: faz mal usar suplemento se não sou atleta? “Não, desde que ele seja usado da maneira correta. Pode ser interessante para quem consome proteína aquém da sua necessidade, por seguir uma dieta vegetariana ou por ter uma dificuldade para digerir carnes”, exemplifica. “Ou até mesmo para quem está em processo de emagrecimento e não vem ingerindo uma quantidade  suficiente para a síntese de hormônios, para a pele, para a formação de todos os tecidos do corpo, inclusive para manter os músculos”, diz.

Sendo uma das mais conceituadas nutricionistas esportivas brasileiras e há muito tempo ministrando cursos pelo país inteiro, Tânia Rodrigues, também sócia-diretora da RG Nutri, em São Paulo, entende do tema como poucos. Confesso: recentemente, eu me infiltrei em uma de suas aulas. Foi durante um simpósio sobre suplementos do International Life Sciences Institutes, o Ilsi Brasil. E o assunto era este: na minha livre tradução, como lançar mão das proteínas em pó e afins do jeito certo. 

A fórmula começa reduzindo a porção das expectativas: “Não adianta depositar o desejo de ganhar músculo nos potes de suplementos”, avisa, de cara, Tânia. Na falta de exercício, nada feito. É preciso machucar as fibras dos músculos por meio da atividade física para que elas peçam socorro, isto é, peçam proteínas para reparos, formando novas camadas e, resultado, hipertrofiando. Ninguém fica firme tomando shake proteico como se fosse água de coco, só se balançando na rede. É dura a vida…

A escolha do produto adequado também conta. Afinal, existem vários tipos de suplementos nas prateleiras.  Você encontra a famosa whey protein, que vem do soro do leite. Vem também do leite a caseína, outra opção bastante interessante. É possível, ainda, achar a albumina extraída do ovo, talvez a mais antiga e mais acessível de todas as suplementações proteicas para incrementar a massa muscular. E cresce a onda das proteínas da ervilha e do arroz, que agradam aos veganos e, sim, podem funcionar. 

Para finalizar o rol, não podemos esquecer dos suplementos à base de soja.  Homem pode consumi-los? É a dúvida que Tânia Rodrigues sempre escuta no consultório. “Nos últimos 20 anos, a soja é usada para amenizar os sintomas da menopausa e isso reforçou, no imaginário das pessoas, a ideia de que é um suplemento para mulheres. Engano.”, diz.  

Talvez você, nessa lista, sinta a falta do suplemento de proteína da carne, que anda em voga. Esqueça. Risque-o sem dó. “Na prática, não existe bife em pó com sabor de chocolate”, esclarece Tânia. Mas esses produtos se vendem quase assim, feito picanha com gostinho de baunilha. Parecem cortes nobres em versão pote, mas não têm sua origem no filé, nem na fatia da picanha. São extraídos de fiapos de carne grudados na carcaça restante do animal. 

Se fossem seus dentes raspando aquele ossinho da bisteca, me ensinou Tânia, tudo bem: ali, naquela carninha, tem proteína de ótima qualidade. Mas o processamento necessário para arrancar esse fiapo do osso não é como seus dentes. Ele acaba com a qualidade das benditas proteínas. Então, olho vivo: nesses suplementos, você tem apenas uns 10% de proteína hidrolisada de carne bovina e o resto é uma porção de outros ingredientes para compensar as perdas, como gelatina de montão. Talvez a mistura final até alcance um bom perfil de aminoácidos. Pode ser, mas…

Um dos grandes critérios de escolha de um especialista, porém, é mesmo a velocidade. E aí, diante da whey, não tem para ninguém: Tânia exibe estudos mostrando que, em 20 minutos, ela já passou pela veia hepática e pela femural. Está, então, à disposição dos músculos.

A rapidez é bem-vinda. A musculatura, uma vez que se cansa, fica um tanto ansiosa para se recuperar. E faz isso nas primeiras duas horas após o treino — embora possa complementar o serviço por mais umas quatro, olhe lá. Portanto, se você quer mesmo ganhar músculo ou firmar o corpo que Deus lhe deu,  a chance é esta: nas duas horas seguintes ao exercício, sendo o pico da recuperação muscular por volta dos 60 minutos

“Se, em vez de suplemento, a pessoa preferir a alimentação convencional, dependendo do que houver no prato — se mais fibra ou gordura —, o tempo para esse nutriente ser absorvido vai demorar um pouco mais ou um pouco menos.  Mas, em geral, leva umas duas horas”, calcula Tânia.  Essa proteína, então, perderá o bonde dos músculos.

Segundo a nutricionista, mesmo quando o indivíduo privilegia boas fontes proteicas, em algumas situações o suplemento será desejável, justamente para ninguém perder o timing. Ora, timing nessa história é tudo. Quando alguém treina depois do expediente, mas ainda vai pegar um belo trânsito para chegar em casa e jantar, é o caso. Por melhor que seja a proteína da refeição, ela chegará na circulação tarde demais. O mesmo raciocínio vale para quem treina no meio da manhã ou da tarde.

Fornecer proteína na hora certa é garantir a tal recuperação. “Se o músculo se recupera mais rápido, eu treino melhor depois”, diz Tânia Rodrigues. Ou seja, inicia-se um ciclo virtuoso. O suplemento proteico, afinal, não fornece só matéria-prima para restaurar aquelas lesões nas fibras musculares, diminuindo as dores do esforço no dia seguinte. Alguns aminoácidos, como a leucina, agem em sinergia com a insulina, ajudando toda a musculatura a absorver carboidrato e a recuperar seus estoques de glicogênio, o seu açúcar de reserva. Resultado: menos fadiga também.

Tudo isso dá uma força para uma atividade física bem feita — leia-se, uma força à saúde —, o que vale tanto quanto qualquer resultado estético. Que certamente virá, se você derramar mais suor em vez de só engolir fantasia. E se deixar de fazer tudo na hora errada.

]]>
0
Até metade das pessoas que infartam tem colesterol normal. Por que o susto? http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/ate-metade-das-pessoas-que-infartam-tem-colesterol-normal-por-que-o-susto/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/ate-metade-das-pessoas-que-infartam-tem-colesterol-normal-por-que-o-susto/#respond Thu, 06 Jun 2019 07:00:43 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4355

Crédito: iStock

Se existe uma molécula que desde os anos 1960 não tem sossego é o colesterol. Não merece mesmo um pingo de trégua. Discreta — pode correr solta, aprontando, até em gente magra —, ela é o ingrediente para a aterosclerose, a famigerada placa de gordura que cresce até fechar a passagem do sangue oxigenado, deixando o músculo cardíaco sem o seu abastecimento. Asfixiado. Infarto.

É claro que cigarro, diabetes descontrolado, pressão lá nas alturas, tudo isso deixa o peito à beira desse abismo. Mas sempre é preciso ter o colesterol na jogada. Ele é a matéria-prima do obstáculo. Não à toa, os cardiologistas travam guerra contra taxas inadequadas da substância no sangue e vivem estipulando novos parâmetros, sempre mais rígidos do que os anteriores, como fizeram aqui no Brasil há dois anos.  

No entanto, fique você sabendo, até metade das pessoas que chegam no pronto-atendimento com uma coronária entupida tem taxas normais de LDL — a molécula que recebe a alcunha de colesterol ruim. Elas sairiam do check-up do cardiologista com estrelinhas no laudo, prontas para a comemoração na churrascaria da esquina. E 20% dos infartados têm não só o LDL como manda o figurino, mas o HDL também — para refrescar a memória, esse seria o colesterol bom. As letrinhas do resultado do laboratório apontando calmaria até o coração ter o piripaque,

Existem ainda aqueles indivíduos que já levaram um primeiro susto, então passaram a se medicar  com drogas capazes de baixar os níveis da gordura nociva no sangue. E, mesmo assim, fazendo tudo certinho, foram surpreendidos por um novo entupimento. Azar?

Ninguém aqui está falando que esses remédios não têm serventia. Muito pelo contrário. Quanto menos colesterol LDL, de fato melhor. Mas ganha força a ideia de que o risco cardiovascular não pode ser medido apenas pela quantidade dessas moléculas na circulação. O tamanho, diz certa corrente de médicos, também contaria. E muito. Sendo que o adjetivo pequeno, nessa história, está cada vez mais associado à iminência de encrencas gigantescas.

“Não adianta só olhar para o número de moléculas de LDL correndo nos vasos”, diz o cardiologista Marcelo Bittencourt, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Precisamos ver a proporção entre moléculas que têm um tamanho pequeno e moléculas de tamanho médio”, descreve. 

Ou seja, se, no sangue de alguém com taxas de colesterol normais, boa parte das moléculas de LDL tiver menos do que 218 ângstrons — ou seja, menos de ínfimos 218  centesímos de milionésimos de centímetro —, é para se cuidar em dobro. Ficar esperto mesmo. Ora, o risco de o coração ter um ataque é altíssimo.  “Moléculas pequenas formam placas com mais facilidade”, justifica Bittencourt.

Até o momento, o que o tradicional exame de perfil lipídico revela, depois de centrifugar a amostra de sangue que você deixa no laboratório de análises, são grupos conhecidos como frações de colesterol. Bem, na verdade, colesterol…, colesterol pra valer é um só. Diga-se, uma gordura essencial para todas as células do seu corpo, sem exceção. Faz parte de suas membranas e, se não estivesse ali, elas não seriam fluidas, isto é, não permitiram a entrada e a saída de substâncias. 

No caso dos neurônios, é o colesterol que forma uma capa isolante e, com isso, as mensagens nervosas são transmitidas com rapidez. Faz parte ainda da composição de uma série de hormônios — cortisol, testosterona, progesterona… Enfim, o colesterol em si faz maravilhas e, no fundo, aquilo do que reclamamos é o seu sistema de transporte, já que não circula pelo corpo por conta própria.

O vilão LDL — sigla do inglês para lipoproteína de baixa densidade — é uma dessas frações e se trata de uma espécie de veículo que leva o colesterol para cima e para baixo, já que ele é usado em tudo o quanto é canto. E, aí é que está, se não derruba seu carregamento de gordura pelo caminho, ele próprio se enrosca nas paredes das artérias.

Por sorte, existe o HDL —a lipoproteína de alta densidade – que faz o serviço inverso. Recolhe o colesterol sobrando por todos os tecidos, inclusive nos vasos sanguíneos, levando-o de volta ao fígado, sem dar muita chance para que se deposite nas paredes dos vasos, iniciando a maldita placa . “O que se descobriu é que essa molécula  de HDL só é muito eficiente se tiver um tamanho mais graúdo”, explica Bittencourt. 

Ou seja, a hipótese é de que pessoas que infartam com taxas normais dessa fração tenham ou muitas moléculas mirradas do bandido LDL ou um HDL que não se impõe por falta de porte ou ainda, para complicar de vez, essas duas frações em versões moleculares amiudadas.

Até há pouco tempo, não havia exame para avaliar essas questões de tamanho. Agora, por exemplo, a Dasa acaba de trazer para o Brasil o exame de painel cardiológico que, em vez da centrífuga — como no velho e bom perfil lipídico —, usa outro equipamento, bem mais complexo, o de espectrometria de massas, que analisa a carga molecular das partículas e deduz a partir daí o seu tamanho. “Essa tecnologia seria como um zoom, que acusa como são, de perto, as moléculas de determinada fração, HDL ou LDL,  do colesterol total”, diz Gustavo Campana, diretor médico da Dasa.

O novo exame é promissor, mas ainda não faz parte das diretrizes da cardiologia, que continuam recomendando o exame clássico. “’É tudo muito novo. Precisamos dar um tempo para que a gente saiba a partir de que proporção de moléculas maiores e menores estamos diante de alguém com risco mediano ou altíssimo, mesmo com taxas normais de frações”, me disse o cardiologista Marcelo Bittencourt.

Os europeus, no entanto, já mencionam o novo exame como uma possibilidade para o monitorar o tratamento das dislipdemias — nominho complicado para dizer que as gorduras do sangue estão fora dos valores desejáveis. Em tese, é possível que uma droga do grupo das estatinas, por exemplo, diminua a quantidade de colesterol, mas não mude o padrão do tamanho de suas moléculas. Se predominarem as miudinhas, seria caso de trocar a medicação na tentativa de acabar com o império do LDL pequenino ou… Ou ficar bem esperto, ajustando sem moleza todo o estilo de vida — cuidando ainda mais da pressão,  da glicose, do estresse, da atividade física —  ciente de que, mesmo baixo, seu colesterol é um perigo.

]]>
0
Até os nossos ossos sentem o sabor doce e isso faz refletir sobre adoçantes http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/04/ate-os-nossos-ossos-sentem-o-sabor-doce-e-isso-faz-refletir-sobre-adocantes/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/06/04/ate-os-nossos-ossos-sentem-o-sabor-doce-e-isso-faz-refletir-sobre-adocantes/#respond Tue, 04 Jun 2019 07:00:07 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4338

Crédito: iStock

Imagine o osso do fêmur tremendo de prazer por um pedaço de chocolate até deixar as pernas bambas. A bexiga competindo com a boca e se enchendo de água diante de um mil-folhas. Ou, ainda, os testículos sentindo o gosto do mel e a gordura na cintura se contentando com uma ou duas gotinhas de adoçante no chá. Claro, estou viajando, mas são as células do nosso corpo que dão asas à minha imaginação. 

Aterrissando no solo firme da ciência: pois não é que, vasculhadas por modernos exames, muitas células distantes das imediações da língua revelam que também possuem receptores para sentir a doçura das coisas?  Esses receptores estão por quase toda parte. Além dos órgãos citados, acrescentaria a uretra, o nariz e os seios para-nasais, o estômago, o cólon e, claro, o próprio cérebro.  Todos eles percebem o que é doce. E não, ainda ninguém sabe direito o porquê.

Mas quem me mostrou isso, em sua visita ao Brasil, foi o professor Richard Mattes, da Universidade Purdue, nos Estados Unidos. Considerado um dos maiores especialistas do mundo na bioquímica sensorial, ele participou do XI Atualidades em Food Safety, evento promovido pelo International Life Sciences Institute, no Brasil. E estava ali, na verdade, para tirar o aspartame de uma fogueira em que foi jogado, sem qualquer distinção, ao lado de outros adoçantes. A acusação de seus inquisidores é de que todo esses produtos favoreceriam o ganho de peso, na contramão das crenças de seus fieis consumidores.

Adianto: ao contrário de muitos edulcorantes que entregam a sensação de dulçor ao paladar, o aspartame ao menos parece não ativar esses receptores distribuídos por diversos órgãos, segundo o professor americano que, no encontro, apresentou um trabalho recém-publicado por seu grupo mostrando que esse adoçante especificamente não aumentaria a fome, nem a insulina, como alguns chegaram a acusar . E entenda: o fato de existirem receptores espalhados pelo organismo reforça na cabeça de muita gente a ideia de que tudo o que é doce, pelo simples atributo da doçura,  mexeria conosco da cabeça aos pés, destrambelhando o apetite. Uma generalização, perdoem, de amargar.

A coisa pegou fogo de vez quando, há quase dois anos, a epidemiologista Meghan Azad e seus colegas da Universidade de Manitoba, no Canadá, se debruçaram sobre os dados de 37 estudos, envolvendo mais de 400 mil indivíduos acompanhados pelo período de dez anos. Os cientistas canadenses notaram o seguinte: aqueles que consumiam adoçantes no dia a dia  tinham mais fome e uma tendência maior a engordar.  Você pode imaginar o alvoroço da notícia.  Até porque, cá entre nós, não foi o primeiro trabalho apontando nessa direção.

Uma das especulações é de que o sabor doce, em uma espécie de condicionamento da nossa fisiologia, mudaria a salivação, a secreção gástrica e, nessa cascata de reações, a produção de hormônios ligados ao apetite. Mas como não haveria açúcar de fato para o corpo processar, essa enganação criaria uma confusão em todo o metabolismo. Algumas das possíveis explicações seguem um caminho mais ou menos por aí. 

Outras falam que o problema seriam as alterações que os adoçantes causariam na microbiota intestinal, facilitando a vida de bactérias que nos levam a engordar. E aqui, de novo, Mattes salva o aspartame da condenação: afinal, sua molécula é quebrada na primeira porção do intestino, antes de chegar à região do cólon, onde essas bactérias se concentram. Portanto, o aspartame não poderia afetá-las.

De qualquer modo, preciso fazer uma ressalva, sem querer que ninguém se entupa de pozinhos e gotinhas para substituir as calorias do açúcar: 30 dos 37 trabalhos escarafunchados pelos canadenses são estudos observacionais. Ora, imagine uma pessoa olhando para um vestido vermelho na vitrine e tropeçando em um buraco na rua. Não dá para sair dizendo que vestidos vermelhos causam torções nos tornozelos.  Ou seja, impossível estabelecer uma relação de causa e efeito. Mas também não dá para descartar que olhar para a vitrine sem prestar atenção na calçada favoreceria acidentes. Em suma, um estudo observacional coloca pulgas atrás da orelha — não afirma nada (cuidado, precipitados!), tampouco deve ser desprezado por gente esperta. Um estudo observacional deixa a ciência assim: em cima do muro.

No entanto, para entender mais um dos supostos motivos pelos quais os adoçantes “engordam”, deixando esse verbo bem entre aspas, nem é preciso descer ao nível das moléculas. Eu mesma tive uma tia-avó demasiadamente fofa que, depois de se refestelar na sobremesa  dos almoços em família,  pedia adoçante para o cafezinho. Essa mania só servia para diminuir um peso, o da consciência. Mas agora me diga: quem nunca?

No trabalho apresentado por Richard Mattes, para tirar de vez o aspartame da berlinda, o professor dividiu 100 adultos magros e saudáveis em três grupos. Um consumiu placebo — no caso, outro adoçante, pensando que estava engolindo aspartame. Outro usou 350 miligramas da substância diariamente por 12 semanas. Já o terceiro grupo consumiu, durante o mesmo período, a incrível quantidade de 1050 miligramas de aspartame por dia. Quer ter uma ideia do que seria isso? O equivalente a 81 saquinhos do adoçante. 

Mesmo assim, o pessoal dessa turma, assim como o das outras duas, não ganhou peso, não teve alterações na glicemia nem apresentou qualquer diferença nas taxas de hormônios, como o GLP1 e a leptina, que regulam a fome e a saciedade. “Isso não quer dizer que não sejam necessários mais estudos”, afirmou Mattes, ponderado. “E nem significa que outros adoçantes não possam interferir indiretamente no ganho de peso”, me disse. Ou seja, cada um é cada um.

Voltamos então aos receptores espalhados pelo corpo. “A sacarina pode ativá-los tanto quanto o açúcar normal e não sabemos ainda ao certo o que isso desencadearia”, falou o professor, me dando o exemplo. “É possível que, embora tenham baixíssimas calorias, nem todos os adoçantes contribuam do mesmo jeito para a perda ou para a manutenção do peso.” 

De fato, se olhamos para as substâncias mais consumidas no mundo para adoçar a comida com menos calorias — além do aspartame, a sacarina, a sucralose, a estévia e o acesulfame —, enxergamos moléculas muito diferentes entre si, que são digeridas de modos diversos, absorvidas cada qual em um canto, com maior ou menor potencial de ativar áreas de recompensa no cérebro — aquelas que nos fazem pedir um doce nas horas difíceis — e, finalmente, são moléculas que se encaixam em pontos distintos dos tais receptores do sabor adocicado, disparando sinais próprios.

Então, a lição que fica é nunca generalizar, colocando todos os adoçantes na mesma polêmica.  Mattes brincou lembrando que o cloreto de sódio e o cloreto de lítio têm exatamente o mesmo gosto salgado. Só que um é o sal de cozinha e outro é um medicamento para transtorno bipolar. 

Onde o professor quis chegar: ter o mesmo gosto não significa que algo terá a mesma ação no corpo. E eu dou outro exemplo: o triptofano, substância encontrada no leite e reconhecida como matéria-prima para a famosa serotonina que, na cabeça, nos dá o barato do bem-estar, se encaixa no mesmíssimo receptor do gosto amargo da estricnina. Mas a segunda é um veneno. Não estou  dizendo que tem adoçante venenoso por aí. Até que se prove o contrário, aliás, todos são seguros para consumo. Mas talvez nem todos nos ajudem no “projeto verão 2020”, se forem sentidos até nos ossos.

]]>
0
As várias vaginas de uma mulher ao longo de um único mês http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/as-varias-vaginas-de-uma-mulher-ao-longo-de-um-unico-mes/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/as-varias-vaginas-de-uma-mulher-ao-longo-de-um-unico-mes/#respond Thu, 30 May 2019 07:00:46 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4306

Crédito: iStock

Eu fiquei fascinada — e você, creio, ficaria também. Uma, duas, três…, eu contava. Quatro, cinco… Cinco metamorfoses em um mês. Entre as pernas, toda mulher seria camaleoa, então? Garanto, ainda que se conheça muito bem, que já tenha explorado a geografia desse território de vales e montanhas, terra firme e solo escorregadio, aventurando-se nas cavernas e nas crateras da própria vagina, qualquer mulher ficaria como eu, repito, fascinada. Era, afinal, uma aula do professor Eliano Pellini.

Na tela, não só as cinco mudanças de um mês, mas um total de nove imagens de microscopia. Nove figuras tão diferentes, mas que poderiam ser de uma mesma vagina em seus vários tempos. E eu as descrevo assim, feito a visão de um caleidoscópio, sem o menor exagero. As pedrinhas seriam as células dançando no ritmo dos hormônios femininos. A intimidade da nossa… intimidade. Retratos do que os olhos, por mais ousados que sejam, mas igualmente nus, nunca poderão enxergar. Mas eu vi. E vou contar.

Só que antes preciso apresentar quem deu a tal aula para uma plateia lotada de ginecologistas  e depois ainda conversou comigo para o blog. Eliano Pellini é o chefe do setor de Saúde e Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC. Como professor é figura incomparável. Mistura ciência e artes plásticas, filosofia e ginecologia para chegar no ponto. E o ponto, ali naquele momento, era a mucosa vaginal. “Muitos estudantes, futuros médicos, mal viram essas imagens que, nos meus tempos da faculdade, a gente reconhecia num piscar, sabendo em que fase a mulher estava de tanto fazer exames”, comentou com os colegas.

É que até a década de 1970, em vez de se dosar hormônios pelo sangue, o que se fazia muito era o chamado exame de histologia hormonal, capaz de mostrar no microscópico a função dos tecidos vivos. “E o ambiente da vagina é um reflexo da produção de hormônios sexuais, que cumpre um ciclo natural de 28 dias”, diz ele.  

São dez dias sob a batuta do estrogênio que, no pico, deixa o óvulo pronto para se encontrar com o espermatozoide. Depois, calcule aí uns 14 dias em que esse ambiente será banhado pela progesterona, o hormônio que prepara a camada interna do útero para a gestação. Já o fluxo menstrual, bem, ele é o sinal de que todo esse projeto falhou — o “date” do espermatozóide com o óvulo não deu certo. Mas parou de sangrar e a vagina parte para outra. Devíamos aprender com a vagina, aliás.

Não saímos tão bem na primeira foto, a da vagina estrogênica, aquela que inaugura o ciclo. Suas células  parecem folhas achatadas e grandalhonas. Um tanto imaturas. “É uma mucosa pouco estimulada”, diz o professor. Preço da inexperiência: é menos lubrificada. Não há Brad, nem Clooney, nem qualquer gostosão capaz de alterar de vez essa característica.

Calma, porque a vagina número 2 é uma belezura.  É a ovulatória. “A pele é visivelmente mais espessa e firme”, explica o professor Pellini. Ou seja, está pronta para a festa, para o rala-e-rola —  diria que especialmente para o rala. Que venha!, convidam suas células (muitas!),  todas posando para o microscópio redondas, estufadas e organizadas. Essa é a vagina que aguentaria a fricção sem dar um “ui” —   só se for de prazer.

Para quem está de fora — ou dentro, vai saber… — o sinal dessa fase nem precisa de lentes de aumento. É o líquido gelatinoso que escorre por essa mucosa.  Tão viscoso que, se mergulhar os dedos nele e os separar, logo se formará um fio. Daí o nome: muco filante. Não pense que ele está ali só em favor do entra-e-sai do parceiro. Sua principal função vem depois: facilitar a viagem do espermatozoide.

Aí surge nossa vagina número 3. Sabe aquelas células redondinhas? Já eram. Com células meio amontoadas, diria que a minha (a nossa!) terceira vagina do mês, a progestacional, é aquela que acha que já deu o que tinha de dar. Você está grávida, pensa a natureza um tanto conservadora.

Acabou-se o que era doce de vez quando essas células se dobram. Sim, elas se dobram descaradamente e assumem um formato de barquinho de papel. Meigo, né? Só que não. Na fase navicular , a da nossa quarta versão mensal de vagina— que, aliás, tem esse nome justamente porque, de perto,  lembra navios —  a mucosa já está quase pulando fora. O que fará de vez, inflamando-se, na menstruação. Eis a foto das células ardentes, pontilhadas de vermelho. Quinta vagina. É, não deu certo aquela ideia de engravidar…

Se tivesse vingado o plano original do corpo, a vagina na gravidez — a sexta! — é até que úmida. Mas na lactacional — a sétima — as células assumem uma postura de espantar o pai da criança. Hora de mamar não é hora de sexo — de novo, essa natureza que não percebeu que a brincadeira agora já não tem hora.

A vagina das mulheres que amamentam é outro Saara e só perde para a vagina atrófica, a das mulheres na menopausa, com suas células visivelmente encolhidas como um punhado de minúsculas passas. “É uma mucosa frágil, que pode ficar toda ferida”, descreve Pellini. Isto é, se a mulher não se cuida.

A saída seria repor os hormônios, além de sempre hidratar a região interna e a externa com cremes apropriados. Não são lubrificantes para tudo escorregar, estes que só funcionam, quando funcionam, na hora agá. São hidratantes mesmo.  Mais úteis, vitais, fundamentais do que nossos inseparáveis cremes de mão. Eles podem ser usados até por mulheres mais jovens, mas que conhecem as limitações da sua umidade nas semanas em que não ovulam. Ou que fazem sexo com o mesmo homem há tanto tempo que já sabem o fim do filme antes de a sessão começar. Acontece…

O que vi como bolinhas rechonchudas, folhas esticadas, barcos no cais feminino é mais do que mera curiosidade. “Se toda mulher soubesse que tem cinco vaginas diferentes por mês, talvez tirasse mais proveito”, opina o professor Pellini. Tabelinha por exemplo, para ele  é a pior roubada — e não se refere ao aspecto contraceptivo. “Ora, quem usa esse método faz sexo até o quinto dia do ciclo e depois do décimo-sétimo,  as piores épocas, porque a vagina estará bem seca.”  E a secura talvez persista, mulherada, mesmo que essa vagina seja estimulada. Nessas fases, ela terá menor capacidade para capturar líquido. 

Pois aqui tem outra história, digo, outra lubrificação, bem diferente daquela primeira, a viscosa, que é hormonal.  É a lubrificação subjetiva, que pega a água da circulação. Umas mulheres têm maior facilidade do que outras no campo da subjetividade. E algumas parcerias sexuais facilitam mais ou menos também. Homem com… repertório ruim? Pouca chance. Gente apressada? Menos ainda.  O bicho mulher precisa de aquecimento. Do sangue quente.  

“A fisiologia nos mostra que o orgasmo feminino é uma conquista”, afirma o professor. E justifica: um pênis, para ficar ereto, precisa de cerca de 50 mililitros de sangue entregues no seu endereço. Já para mulher ficar excitada a ponto de gozar,  o volume de sangue que precisa tomar o rumo da vagina é dez vezes maior.

Sim, 500 mililitros, meia garrafa de leite (contra aquela xícara de café solicitada pelos rapazes) para preencher até arrebentar em prazer o clitóris, os grandes e os pequenos lábios, por aí. Mulher não goza com pouca bobagem, senhores. Chamar todo esse sangue exige foco, habilidade e prática — enfim, toma tempo. Ainda bem, se descesse meio litro de sangue para o local da diversão de hora para outra, a gente teria um treco.

Mas uma coisa vi com meus próprios olhos. Existe a nona vagina e ela é a chamada receptiva, com camadas de células claramente inchadas e tenras. Pergunto ao professor o que seria uma vagina receptiva e a resposta é direta: “É aquela que, quando o parceiro se aproxima, já está pronta.” Bem cuidada, com a tal hidratação em dia  em qualquer fase do mês ou idade, ela só faz uma exigência (e é sério).  A vagina receptiva precisa ser usada para manter esse sorriso nos lábios, — com massageadores, mãos, brinquedos ou com uma bela parceria, garantindo sua firmeza, umidade. Receita da felicidade.

]]>
0
Na cabeça, o cigarro tira o prazer de viver. E ainda esculhamba o planeta http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/na-cabeca-o-cigarro-tira-o-prazer-de-viver-e-ainda-esculhamba-o-planeta/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/na-cabeca-o-cigarro-tira-o-prazer-de-viver-e-ainda-esculhamba-o-planeta/#respond Tue, 28 May 2019 07:00:35 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4276

Crédito: iStock

Em matéria de saúde, não há nada nesta vida que não tenha defesa, a não ser o cigarro. O álcool? Ora, para a maioria das pessoas não há mal em tomar um vinho de vez em quando… O coração poderá até agradecer. O torresminho lotado de gordura? Não entope as artérias, se saboreado com gosto uma vez na vida e outra na morte. E por aí vai — quase tudo sendo absolvido pela palavra moderação. 

Mas o tabaco, ah, ele é indefensável. Mesmo assim, 1,6 bilhão de pessoas ao redor do globo dependem de suas tragadas. E o hábito de fumar, que já foi reduzido pela metade entre nós graças a campanhas antitabagismo de enorme sucesso, agora ameaça ganhar novo fôlego.

“O consumo volta a crescer entre os jovens, inclusive em formas que lhes parecem mais seguras, como em vaporizadores, cigarros de palha com ares de serem mais naturais…”, observa o médico Luiz Paulo Kowalski, chefe do departamento de cirurgia de cabeça e pescoço do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo. “’É uma ilusão, porque, quando falamos em tabaco, não há uma forma mais segura de fumar. Todas são igualmente danosas.”

Não bastasse estreitar as artérias por onde o sangue trafega, aumentando a pressão e o risco de problemas cardiovasculares, a fumaça agride todo o trajeto por onde passa — boca, garganta, esôfago e pulmões que, pelo contato direto, ficam mais sujeitos ao câncer. “Os tumores também são comuns naqueles órgãos responsáveis por eliminar as substâncias do tabaco, como o fígado e todas as vias urinárias”, lembra Kowalski, para quem a melhor prevenção seria o jovem nem sequer acender o primeiro cigarro. “Uma vez aceso, sabemos: a dependência que ele causará será mais forte até do que a de bebida alcoólica”, diz.

Mas evitar a primeira tragada será difícil em tempos nos quais, na contramão do mundo, ameaçamos cortar impostos sobre o tabaco. Que ideia mais tosca! O motivo, ao meu ver, é torpe: diminuir o contrabando. De fato, 25% dos cigarros tragados no país chegaram até os fumantes contrabandeados. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é… 

“Seria o mesmo de reduzir impostos sobre os carros para evitar o desmanche de peças”, compara o pneumologista Ciro Kirchenchtejn, coordenador do Help Fumo, centro de tratamento do tabagismo em São Paulo. “Nem vai adiantar, porque o valor médio de um maço, equivalente a até 2 litros de leite, mesmo com a redução dos impostos continuará bem mais alto do que o do contrabandeado. Então, o único sentido em diminuir a taxação é facilitar o acesso e favorecer a indústria.” Desculpa esfarrapada é que não dá pra gente tragar, certo?

O pior efeito da nicotina, penso, não é nos matar aos poucos, mas nos enganar de cara. O indivíduo fica com a forte impressão de que ela provoca prazer, quando a bioquímica é outra: por causa dela, ele fica irritado umas vinte vezes ao dia, sempre uma ou duas horas após ter esmagado a última bituca. E a sensação ruim, lógico, só vai embora quando acende mais um cigarro.

É um ciclo de desprazer e sofrimento . E é por ele que esse produto é feito, tanto que todas as marcas com menos de 0,5 grama de nicotina por cigarro foram um fracasso de mercado.

Sob o olhar da química, a nicotina é um alcaloide com uma fórmula  quase igual à da acetilcolina, um dos neurotransmissores do cérebro. Ao inundar a massa cinzenta, desorganiza  as sinapses entre os neurônios, como se mudasse o rumo da prosa entre eles, especialmente no que diz respeito à sensação de recompensa. “Vem daí a sensação de ‘ah, eu merecia um cigarrinho agora’”, descreve Kirchenchtejn.

Ainda na massa cinzenta, ela se intromete no trabalho de outro neurotransmissor, a dopamina — e aí mesmo é que o bicho da fumaça pega. A nicotina então tira a fome, aumenta a concentração… Pior: na sua presença, os neurônios se adaptam e criam milhares de novos receptores para encaixá-la.

O problema, nesse caso, é que não há mal que sempre dure. A nicotina, ao sumir ligeiro, deixa aqueles novos receptores  na mão— eles aparecem cerca de três meses após o consumo eventual de um cigarrinho aqui, outro acolá. São feito bocas escancaradas na superfície das células cerebrais,  gulosas por mais doses da substância.

Nessa ausência, surgem desprazer, estresse fome, nervosismo. Por causa da acetilcolina, que manda ordens nervosas para a musculatura do corpo, também aparecem tremores, suor… Há quem experimente uma  baita taquicardia, enquanto a glicose do sangue despenca. Em resumo, é isso o que o cigarro faz: o avesso das alegrias propagadas, que são apenas um cala-a-boca para aqueles novos receptores neuronais sedentos. “Fala-se muito no risco de câncer, infarto, enfizema e outras doenças fatais provocadas pelo tabagismo. Mas a doença compulsiva começa bem antes”, diz Kirchenchtejn.

Temos ainda de pensar no planeta. São uma montanha de 12,3 bilhões de bitucas jogadas fora todo dia. Demoram mais de 2 anos para desaparecerem do mapa e vão lançando cerca de 4,7 mil substâncias no solo, nos rios e nos córregos— quando, de quebra, não entopem bueiros.

A própria cultura do tabaco continua sendo a maior esbanjadora de agrotóxicos  e, mundo afora, é acusada de usar mão-de-obra infantil, expondo a meninada não só ao trabalho precoce, mas a essas substâncias tóxicas.  A gente precisa considerar também que, se os 1,6 bilhão de pessoas tragarem 20 cigarros por dia, a quantidade de fumaça que suas baforadas lançarão na atmosfera é, sim, uma considerável contribuição para o efeito estufa. Nesse lado, o da sustentabilidade, poucos pensam enquanto insistem em fumar. 

Terapia comportamental cognitiva, para que cada um entenda os gatilhos capazes de despertar a vontade de acender mais um, e medicamentos que agem na abstinência — repondo parte da nicotina para retirá-la aos poucos ou compensando os abalos da dopamina — fazem parte do tratamento para deixar o vício. Fato: a maioria dos candidatos a ex-fumantes precisará de ajuda.

Ciro Kirchenchtejn dá pistas para a pessoa refletir se é esse o caso dela. “O importante é ter noção do seu grau de dependência e uma dica é observar o que ela faz logo ao acordar. Se procurar o cigarro é a primeira coisa do dia, acendemos o alerta.”

Quando o organismo sofre demais nas oito horas de sono porque ficou sem tragar, note: o cigarro da manhã é aquele que notoriamente dá mais prazer, parece o mais gostoso de todos ao longo do dia. Outro sinal claro de uma dependência mais grave é não conseguir ficar em um local agradável por cerca de duas horas — um cinema, por exemplo — sem fumar antes de entrar para abastecer o corpo de nicotina. Ou precisar sair voando no final pelo mesmo motivo. Isto é, se o fumante não sair no meio

Essa abstinência intensa provavelmente só será suportada com o auxílio de uma equipe multidisciplinar. E, no caso, bom avisar: marque uma data tranquila para se afastar das pitadas. Serão de 30 a 40 dias de sofrimento. Só depois alivia. Aguente firme pelo verdadeiro prazer de viver.

]]>
0
Um eletrodo na direção certa: a de controlar o Parkinson http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/um-eletrodo-na-direcao-certa-a-de-controlar-o-parkinson/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/um-eletrodo-na-direcao-certa-a-de-controlar-o-parkinson/#respond Thu, 23 May 2019 07:00:17 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4249

Crédito: Istock

O cérebro tem seus 50 tons de cinza . O mais escuro deles é o que se vê em uma região conhecida como substância negra. Diria que ela fica no miolo dos miolos e é lá que é produzida a dopamina, neurotransmissor que está em escassez na massa cinzenta de quem sofre da doença de Parkinson. Na falta da dopamina, o corpo parece demorar para ouvir qualquer ordem para se mover, ficando rígido e lento. Ou os comandos para se mexer chegam bastante truncados, descoordenados, sem motivo e fora de hora — então, tudo treme.

Diz a lenda que se vivêssemos mais de de 200 anos, inevitavelmente todos teríamos Parkinson. As células dopaminérgicas, que produzem a substância capaz de organizar os movimentos, vão morrendo antes de nós. Daí aquela imagem do velhinho quase centenário com as mãos trêmulas. Mas no Parkinson essa morte é precoce. As tais células dopaminérgicas vão pifando logo cedo aos montes.

Há mais de 30 anos já se sabe que a estimulação cerebral profunda  ajuda a controlar sintomas clássicos dessa perda precoce, como o tremor e a rigidez. Na versão moderna do tratamento, estou falando de eletrodos implantados nas profundezas do cérebro — daí o nome —, que disparam impulsos elétricos para modular as trocas de mensagens em agrupamentos específicos de neurônios, como o subtalâmico  e núcleo globo pálido, região que tem um outro tom de cinza, desta vez bem esbranquiçado. Mas implantar eletrodos na cabeça nunca foi muito simples. Antes que pense na cirurgia cerebral — o que também seria a minha primeira aposta —,  adianto que a dificuldade era outra.

Há cinco anos, a neurocirurgiã funcional Vanessa Milanesi Holanda estava justamente instalando eletrodos em um paciente com Parkinson quando ouviu dele: “Doutora, estou me sentindo triste, triste demais. É muita tristeza, doutora…”, suplicava o homem com um pequeno orifício no topo da cabeça.  Médica da BP — Beneficência Portuguesa de São Paulo, e agora recém-convidada para lecionar na Mayo Clinic, nos Estados Unidos, naquele instante Vanessa Holanda parou tudo no centro cirúrgico. 

A médica queria repensar por uns poucos minutos no que estava fazendo. Ah, sim,  ela — uma das raríssimas profissionais mulheres que operam cérebros neste país — implanta o eletrodo sempre com o paciente bem acordado, só com uma anestesia local. “Eu preciso que ele me conte o que sente enquanto eu testo o sistema”, justifica.  

A depressão que o sujeito operado sentiu no momento desse teste foi marcante — o empurrão que faltava para ela arrumar as malas e seguir para a Universidade da Flórida a fim de entender ainda mais a segmentação das áreas cerebrais envolvidas no movimento e como estariam cercadas de neurônios que teriam a ver com o nosso humor, por exemplo. Pois bem, sua temporada americana resultou em um trabalho que acaba de ser aceito para publicação internacional.

Hoje a doutora  Vanessa  sabe que, nesses pequenos agrupamentos de neurônios, 1 milímetro a mais ou a menos para um lado ou para outro, para cima ou para baixo, já pode ser uma distância do alvo suficientemente grande  para afetar as emoções, prejudicar a fala e a marcha, provocar contorções na face e outros efeitos adversos que, infelizmente, ocorrem em 15% a 20% dos operados. Popular vestir um santo para despir o outro. Diga-se: existem pelo mundo 160 mil indivíduos com Parkinson vivendo com eletrodos implantados no cérebro. 

Naquele dia, a reação do paciente fez a neurocirurgiã praticamente reiniciar o procedimento. Trocar o eletrodo de lugar. Ora, era preciso afastá-lo literalmente do endereço daquela tristeza toda, atiçada sem querer pelos estímulos elétricos.  “Mas hoje, com o que chamamos de sistemas direcionais, não seria preciso nada disso”, resume.

O sistema direcional, no caso,  é batizado de Infinity DBS. Foi aprovado no final do ano passado pelo FDA nos Estados Unidos e trazido para o Brasil pela empresa Abbott. Quis fuçar e ver de perto a novidade, que consiste em três partes — até aí, como os sistemas anteriores. 

Uma delas é o gerador, que tem as dimensões de uma caixa de fósforo. Lembra um marca-passo. A doutora Vanessa descreve: “Ele é colocado sob a pele, na região da clavícula, em uma segunda etapa da cirurgia”. Mas, dessa vez, com o paciente sob o efeito de anestesia geral, depois de ter ficado de três a quatro horas acordado enquanto a médica introduzia um par de eletrodos em sua cabeça e fazia os tais testes com a ajuda de um iPad e do bluetooth.

Sim, sempre um par — um eletrodo à esquerda e outro à direita do núcleo de neurônios escolhido como alvo. Aliás, com o sistema Infinity DBS, o tratamento poderá ser ajustado em qualquer momento depois, usando esses recursos descomplicados — um iPad nas mãos da equipe multidisciplinar e o bluetooth.

Talvez se pergunte — eu me perguntei!— por que botar o indivíduo para dormir depois que, digamos, o pior já passou. Eu, pelo menos, iria preferir ficar apagada enquanto estivesse com a cabeça aberta. Mas então me lembrei que o cérebro em geral sente mais as dores alheias, ou seja, na maioria das vezes ele é tomado de compaixão pelo suplício de outras partes do corpo. 

A primeira etapa do procedimento, portanto, descontada a aflição de imaginar a cena, é bem suportável. Mais doloroso seria, sem anestesia geral,  passar a extensão, isto é, o fio de silicone com um comprimento de 40 a 50 centímetros, que vai do eletrodo posicionado na massa cinzenta até o gerador na altura do peito, fazendo o  trajeto pela sensível parte lateral do pescoço. 

É na ponta ativa da extensão, a do eletrodo fino como um palito de dente e do tamanho de uma cabeça de fósforo, que mora o segredo. “Antes os eletrodos estimulavam a região em 360 graus”, me explicou o engenheiro elétrico Bruno Domingues, da Abbott. “Resultado: o médico conseguia estimular o que queria, ou seja,  a área que, pelos exames de ressonância, seria o ponto exato para melhorar os sintomas do Parkinson. No entanto, os sistemas anteriores também estimulavam a vizinhança, provocando efeitos indesejáveis e talvez até surpreendentes.”

Isso, claro, abalava a confiança  de muitos na estimulação cerebral profunda, receio que deve diminuir com o sistema direcional. “O risco de efeitos adversos é praticamente nulo agora”, conta, animada, Vanessa Holanda.

O sistema direcional evita esses perrengues ao focar os impulsos elétricos em um alvo muito específico, sem afetar as redondezas. Justamente por acertar na mira, há uma outra vantagem: não gasta energia com áreas que não precisam do tratamento e, com isso, o gerador pode durar mais do que cinco anos, período após o qual talvez tenha de ser trocado em outra cirurgia. Os eletrodos, não. Estes podem ficar na cabeça para sempre.

Para a estimulação ser bem direcionada ao alvo, durante a cirurgia o paciente fica com um equipamento ao redor do crânio. São arcos metálicos que lembram um capacete e funcionariam, em uma comparação simplista, feito um GPS, indicando as coordenadas e o ângulo exato no qual deve ficar eletrodo.

“O que a estimulação faz”, explica a doutora Vanessa Holanda, “’é compensar a falta da dopamina.” Em uma primeira fase, após o diagnóstico, a gente sabe que o doente de Parkinson vive uma espécie de lua-de-mel com os remédios que conseguem repor a substância. Mas essa temporada feliz termina quando o organismo deixa de reagir tão bem à medicação e os tremores aparecem com tudo.

“Por isso, só cogitamos operar depois de cinco anos de diagnóstico. Antes disso, os medicamentos funcionam bem”, diz a médica. Não são candidatos à operação, porém, pacientes com psicose, depressão severa e outros problemas que precisam ser avaliados por uma equipe multidisciplinar.

Mas algo deve ficar claro: os tremores que tanto assustam quem convive com o Parkinson são o começo de uma história que ainda implicará em mudanças de humor, problemas de cognição, alterações importantes no sono e outros sinais da morte das benditas células dopaminérgicas. Afinal, elas não estão envolvidas apenas com os movimentos. 

A eletroestimulação, em princípio, controla os sintomas nos movimentos e, daí, já melhora demais a qualidade de vida. Apesar disso, a doença continua progredindo em silêncio, sob o véu desses estímulos elétricos. Ao menos até que se prove o contrário … Mas vou contar: tem gente querendo provar o contrário!

 Alguns estudos sugerem que, sim, a estimulação cerebral profunda poderia evitar que o Parkinson avançasse e, se for assim, a cirurgia não deveria esperar os cinco anos de praxe. É o que uns dizem… Calma, o  jeito é aguardar mais trabalhos para tirar qualquer conclusão.

De qualquer maneira, faz muito sentido pensar que pacientes com o implante evoluam mais devagar. Isso porque, sem tremer tanto, a pessoa consegue fazer atividade física. E de uma coisa a Medicina já tem plena certeza: nada melhor para produzir dopamina do que colocar o corpo em movimento. O que, com os tais eletrodos na direção certa — liquidando tremores sem afetar a marcha —, será mais fácil.

]]>
0
Artrite reumatoide: por que essa é uma dor que ninguém compreende http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/artrite-reumatoide-por-que-essa-e-uma-dor-que-ninguem-compreende/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/artrite-reumatoide-por-que-essa-e-uma-dor-que-ninguem-compreende/#respond Tue, 21 May 2019 07:00:36 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4214

Crédito: iStock

A incompreensão já começa pelo nome da especialidade que poderia aplacar o sofrimento: reumatologia. É sério, quando arrisco me intrometer na vida de alguém achando ser um caso para o reumatologista dar uma olhada, pela reação quase indignada parece que estou mandando a pessoa para os cafundós do planeta Medicina. Tem também aquele que me devolve uma expressão de “ah, sim, sim, pois, pois, já estava pensando mesmo num reumatologista”.  Seria capaz de apostar que a maioria não faz a menor ideia de que figura se trata.

Se você sabe bem de quem estou falando, desculpa aí. Só queria colocar todo mundo na mesma linha deste texto, então… Reumatologista é o clínico do aparelho locomotor. Não cuida do osso quebrado, tampouco pega no bisturi e opera. Olha para o conjunto de esqueleto, músculos e articulações para entender tudo aquilo que atrapalha o movimento. E são mais de 150 doenças que fazem o nosso corpo, ao tentar sair do lugar, ranger, estalar, emperrar, doer e travar de vez. Uma delas é a artrite reumatoide, que acomete de 0,6% a 1% dos brasileiros. 

Não somos particularmente azarados. É assim por todos os cantos desse mundo que roda, ele próprio, aos trancos e barrancos. Artrite reumatoide não tem raça, nem endereço certo. Dói em todos. Empaca todos. Costuma ter, isso sim, uma idade mais provável para dar as caras, já que há um pico de casos entre os 35 e os 45 anos — longe de ser “doença de velhinho” —  e outro entre os 55 e os 60. Mas há até episódios, mais raros, de bebês com artrite reumatóide.

O desconhecimento é de largada: por que acontece? Não há resposta. Só posso bater na velha tecla de que a genética está por trás. Ninguém explica ainda por que, até a faixa dos 40 e poucos anos, a proporção é de três mulheres com a doença para cada homem. Essa preferência pelo feminino cai um pouco — duas para cada um — entre os sexagenários. 

Tem algo que a gente faça para detonar o estrago? Fumar, quem sabe.  O risco de desenvolver artrite reumatoide é três vezes maior entre fumantes. Estar acima do peso é outro fator. Sim, a doença é mais frequente entre os obesos — provavelmente porque eles já  têm um organismo mais inflamado.

Ora, a artrite reumatoide  é, na essência, uma inflamação disparada por um ataque autoimune. Por causa dela, podem surgir febrículas sem maiores explicações, problemas pulmonares, quadros oculares, mas a grande sofredora é mesmo a articulação.

Tudo começa pela membrana sinovial, que embala cartilagem e tendões, enfim, todo o pacote das juntas. Inflamada, ela cresce e se insinua para os ossos. Invade mesmo, cheia de ousadia, e tira tudo do prumo. Daí por que os dedos acometidos entortam e os membros ziguezagueiam.

Pior: a extremidade óssea vai sendo comida aos poucos pelo tecido que age feito um posseiro, até que a articulação inteira se fecha tomada por essa membrana fora de lugar, e não consegue mais se mexer. “Não faz tanto tempo, o destino de quem sofria de artrite reumatoide era uma cadeira de rodas”, lembra a médica Rina Neubarth Giorgi, chefe da reumatologia do Hospital do Servidor  Público de São Paulo. Isso até que mudou bastante. Mas poderia ser bem melhor.

Uma batalha longe de ser vencida é aquela contra o relógio. “Há uma janela de oportunidade de seis meses a partir dos primeiros sintomas. Se a doença for tratada direito nesse período, ela pode ser contida antes de causar danos, apesar de não ter cura”, avisa a doutora Rina. “Mas o que se vê é a pessoa perambulando perdida por cerca de dois anos até ficar diante do reumatologista.”  Especialista que ela aprende a duras penas que existe.

Sejamos realistas: seis meses não são exatamente uma oportunidade incrível. Passam depressa. Se eu sentisse as minhas mãos doloridas culparia o blog, que me faz tamborilar no computador. Quem corre na esteira, talvez acuse o exercício por um tornozelo que amanhece enrijecido, parecendo precisar de aquecimento para acordar. Joelhos inchados? Muito tempo em pé, uns cogitam.  Por aí vai o descaso. 

Uma pista: dificilmente a doença ataca só uma articulação. Já chega chegando em articulações pequenas, médias e… enormes. A dor pode estalar nos ombros, enquanto uma leve rigidez pode aparecer na famosa ATM que promove o abrir e o fechar da boca e o dedinho do pé incha do nada. Mas nossa tolerância com a chatice de um corpo dolorido é incrível.

Quando a situação degringola de vez e o tormento intensifica, começam os comprimidos de antiinflamatório tomados por conta própria. Alívio tão imediato quanto temporário. O ortopedista, quando procurado, talvez tire aquela água acumulada, típica da junta inflamada, e infiltre medicação. Outra vez, alívio imediato, durando aí uns seis meses. Aquela janela de oportunidade? Nessa altura, já se fechou. 

Como não há reumatologista para todo mundo, o plano é treinar clínicos que atendem em unidades básicas  a reconhecer o quadro para, quem sabe, a iniciar o tratamento correto, diminuindo a perda de tempo. Tomara.  “A artrite reumatoide é comparável ao câncer, no sentido de que a chance de sucesso tem tudo a ver com agir muito cedo”, me disse a doutora Rina.

O diagnóstico pode ser feito com exames laboratoriais que deduram a presença de certos anticorpos por trás dos ataques às articulações, somados ao ultrassom com doppler, que mostra o fluxo de líquidos acumulados pelas estruturas articulares.

O tratamento, em geral, começa com imunossupressores, que ainda são a alternativa mais barata, com a ressalva de que o paciente precisa ficar esperto porque corre maior risco de contrair infecções. Quando falham — o que acontece em 56% dos casos —, os médicos indicam uma geração de medicamentos mais moderna, a dos imunobiológicos. Eles agem direto em determinado alvo. O que, compreenda, é melhor, mas ainda assim não é de todo bom: um único gene por trás da artrite reumatoide já é capaz de criar várias proteínas contra as articulações. Cada uma delas, um alvo a ser bloqueado.

A última geração de drogas, no entanto, age  diretamente no núcleo das células, no que os cientistas chamam de vias de sinalização. Ou seja, calam o bico dos genes envolvidos e impedem o ataque de várias moléculas  ao mesmo tempo. Nesse cenário, o que se comemora no Brasil é a chegada de um medicamento oral desse naipe que já provou sua eficácia na Europa e nos Estados Unidos, exigindo que o paciente engula apenas um comprimido por dia — uma vantagem em relação às injeções diárias de drogas com efeitos similares ou até mesmo a outra medicação oral já existente, mas que exige duas doses por dia. O nome da novidade não é dos mais fáceis: baricitinibe.

De acordo com os estudos, em 12 semanas a medicação controla a doença e reduz as dores em 70%. É, sim, excelente.  Mas os médicos passaram a fazer  um “mea culpa”: afinal, o que é conviver com os 30% de dor que restam? No dia a dia, esse questionamento deixa de ser meramente filosófico. Hoje, os reumatologistas estão revendo os seus conceitos de sucesso.

Uma pesquisa recente, realizada em 40 países com mais de 3,8 mil pacientes com artrite reumatoide, mostra que antigos critérios, como ver se as articulações desincharam e registrar a diminuição de incômodos por meio de questionários — que antes faziam a turma soltar rojões na avaliação do tratamento — não mostram tudo.

Dois terços dos indivíduos com artrite reumatoide, mesmo com os exames “ok” e melhora notável por esses parâmetros clássicos, afirmam que usar as mãos continua difícil e que, por isso, tarefas do dia a dia cansam muito mais. Metade mudou de hábitos para driblar gestos dolorosos ou complicados. Até sexo, para alguns respondentes, às vezes é mais esforço do que prazer, sem posição na cama que resolva.

A maioria se queixou de ser acusada de fazer corpo mole, no trabalho ou até mesmo em casa, por não dar conta de realizar alguns movimentos ligeiro. E, veja só, praticamente todos disseram que, sem o inchaço nem a deformidade nos ossos — isto é, sem o sofrimento visível — , se tornaram uns grandes incompreendidos. Pois é, eu sempre me pergunto se dor se mede…

]]>
0
O dia em que arranquei de um Prêmio Nobel o seu segredo para uma vida longa http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/o-dia-em-que-arranquei-de-um-premio-nobel-o-seu-segredo-para-uma-vida-longa/ http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/o-dia-em-que-arranquei-de-um-premio-nobel-o-seu-segredo-para-uma-vida-longa/#respond Thu, 16 May 2019 07:00:35 +0000 http://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/?p=4187

Crédito: iStock

O que você vê na imagem é mesmo soja. Se ela é o segredo tão valioso? Bem, talvez parte dele. Sem prolongar o mistério, seria um dos caminhos certeiros para o seu corpo produzir óxido nítrico. Ah, e esse tal do óxido nítrico, vou falar… Se pudesse, eu o colocaria até na água, engoliria cápsulas, pingaria o danado na forma de colírio. Só que minha imaginação fértil logo se dissipa quando lembro que o gás — sim, estamos falando de um gás —não dura nadinha. Enquanto você simplesmente lê o seu nome aqui em velocidade normal — repita comigo, óxido nítrico —, puft,  já era, ele foi para o espaço.

Um dos três cientistas que provaram que, dentro do corpo, o óxido nítrico seria a molécula-chave para garantir uma vida mais longa e saudável, em especial ao cérebro e ao coração, foi o químico farmacêutico nova-iorquino Louis J. Ignarro, que na época desenvolvia suas pesquisas na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. 

Por causa delas, em 1998, ele subiu ao palco do auditório do Instituto Karolinska, na Suécia, levando para casa “só” o Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia. E agora estava eu, para o blog, prestes a conversar olho no olho com um legítimo Nobel. Olho no olho, mas não ao vivo e em cores…Coisas da modernidade.

Liga, desliga, reconecta. Nada. Sinto todo o óxido nítrico se evaporando em minhas veias. Já conectado, me esperando para uma conferência online, o laureado com o Nobel. E eu? Apanhando de 7 a 0 do computador. Enxergava na tela o cientista ora olhando para o teto, ora franzindo o cenho, sem me ver nem me ouvir — Alfred Nobel, diga-se, o que nos deixou de herança o tal prêmio, foi o inventor da dinamite. Se eu tivesse sua invenção comigo, mandaria o computador para os ares. Apelei. “Professor, vai ser pelo celular. Então desculpa a imagem esquisita e, mais ainda, a espera…”.

Sem um pingo de ansiedade, ele me contou que estava diante de um janelão debruçado sobre o mar do Rio de Janeiro, cidade que visitava a convite da empresa Herbalife, da qual virou membro do comitê científico. Portanto, com os olhos pousados naquele azul, teria tempo para me contar o que eu quisesse. Sorte nossa.

Abusada, avisei que só queria entender quarenta anos de pesquisa sobre o óxido nítrico e, claro, qual o segredo para eu e você termos um bocado dele. Por que óxido nítrico? Aí começa pra valer a história.

Ignarro já estava de olho na substância quando deu seus primeiros passos na ciência. “Era fascinante tentar entender como uma molécula simples fazia parte de tantos processos fisiológicos”, justificou. O óxido nítrico ajuda na comunicação entre as 50 trilhões de células do seu corpo, só para início de conversa. Mas vamos nos ater aos vasos sanguíneos. Ele consegue relaxá-los, o que de cara diminui a pressão, já que a passagem para o sangue se alarga. Mantém suas paredes elásticas como em uma eterna juventude, tornando-os mais resilientes a momentos como os que eu tinha acabado de passar diante do computador.

“Tudo flui também, melhorando a irrigação e o funcionamento dos mais diversos órgãos do corpo, porque o óxido nítrico diminui o colesterol nocivo na circulação, por mecanismos que ainda não compreendemos muito bem, e evita coágulos”, completa o professor Ignarro. E coágulo, minha gente, só é ótimo quando chega em boa hora — quando nos machucamos e ele tampa a ferida, evitando que o sangue escoe até a última gota. Já um coágulo à toa, sem razão de ser, é encrenca com nomes definidos: infarto ou AVC, para dar dois deles.

A lista de boas ações do óxido nítrico no organismo humano é maior hoje do que esta que você acabou de ver, já conhecida nos anos 1970, quando Ignarro foi tomado pela vontade de investigá-lo. Agora se nota que o gás influencia positivamente na cognição e na memória, melhora a qualidade do sono agindo no sistema nervoso central e dá mais disposição para qualquer atividade física. Enfim, não faz pouco.

“Se uma substância aprontava tantas coisas, não seria lógico que o próprio corpo humano pudesse produzi-la, garantindo os seus estoques? Mas onde?”, era o questionamento que Ignarro e seus colegas se faziam. Pois bem: em 1986, eles provaram que, sim, o nosso organismo produz moléculas de óxido nítrico o tempo inteiro. A fábrica são as células do endotélio, o revestimento interno dos vasos sanguíneos.

O cientista descobriu mais: recém-nascidos, proporcionalmente para o tamanho do corpo, descarregam na circulação uma quantidade muito maior de óxido nítrico do que crianças maiores  ou adultos. Na verdade, a linha de produção tende a declinar com o tempo. E ainda: não importa a idade, algumas condições diminuem o óxido nítrico disponível na circulação. “Pessoas com diabetes e com obesidade têm dosagens dessa substância notoriamente menores do que indivíduos sem essas doenças”, exemplifica. “É bem provável que os problemas cardiovasculares aos que estão mais sujeitas tenham a ver, lá no fundo, com isso”

Para garantir o abastecimento, as células do vasos sanguíneos promovem uma metamorfose: elas usam a arginina, um dos 23 aminiácidos presentes nos alimentos, e a transformam direto em óxido nítrico. Essa conversão faz sobrar outra substância, a citrulina. Sem problemas, porque nesse caso o corpo utiliza as sobras, zerando o desperdício. Ele pega a citrulina acumulada para fazer mais óxido nítrico.

Mas será que algo poderia ser feito para turbinar essa produção, já que ela tende a ser derrubada pelo passar do tempo e por certas condições de saúde? O que ele próprio, Louis Ignarro, faz? Ouço então: “Faço atividade física regular e tenho uma dieta balanceada”. Decepção. Eu querendo um óxido nítrico na água ou outra solução pá-pum e ele me vem com a velha fórmula!  

“Com mais estudos, já depois do Nobel, eu e outros cientistas provamos que o exercício regular aumenta os níveis de produção do óxido nítrico”, explica. “Em relação à dieta, alguns elementos trabalham contra. O excesso de comida é um deles, mesmo que o indivíduo não ganhe tanto peso. Então, se existe um caminho, seu primeiro passo é a moderação à mesa.”

Outra praga para o óxido nítrico são alimentos repletos de açúcar ou de gordura saturada, esta acima de tudo. Além de evitá-los, o indicado — ele calcula — seria garantir um aporte mínimo de 3 gramas de arginina por dia. “E isso seria relativamente simples, comendo boas fontes de proteínas como peixes, carnes, aves, leguminosas e oleaginosas”, disse.

Aperto um pouco mais: só isso mesmo? Ignarro me conta que ele e a esposa não comem carne vermelha ou de aves mais do que duas ou três vezes por ano e olhe lá, em festas e ocasiões muito especiais. “Ainda assim, experimentamos só uma fatia. São fontes de proteína, sim, mas carregam a gordura saturada junto, o que puxa o óxido nítrico para baixo.”

O cientista, se quer saber, gosta mesmo é da soja, olha aí! Ela tem mais de 4,5 gramas do aminoácido precursor do óxido nítrico em uma xícara. Outras fontes excelentes são as sementes de abóbora, o grão se bico, a lentilha…

Não importa se a sua produção de óxido nítrico tende a ser menor do que a do vizinho — como tudo em saúde, varia de um organismo para outro –, ela sempre aumenta quando tem arginina e citrulina dando sopa no sangue. Então, atenção: aqueles 3 gramas seriam a recomendação mínima e tudo bem, parece, se você ultrapassar. Nem por isso encha o prato só de fontes proteicas. Indiretamente, outros vegetais, como folhas escuras e frutas ricas em vitamina C, entram na receita da longevidade, em matéria de óxido nítrico.

“Não vale só caprichar nas proteínas. Ter  uma dieta que privilegia os vegetais é igualmente importante”, frisou Ignarro para mim. “Isso porque não adianta aumentar a produção, se o organismo não consegue deixar os níveis de óxido nítrico estáveis”, continua.  Segundo ele, diante de uma quantidade elevada de radicais livres, a molécula do gás some quase que instantaneamente. Não dura nem sequer aquele ínfimo segundo. É aí que os antioxidantes dos vegetais fazem a diferença.

Pergunto se ele teria se tornando vegetariano diante de tudo isso que observou em seu laboratório. Ouço que não, nada disso. Arranco, aí, mais um segredo: “Como peixes ricos em ômega-3, três ou quatro vezes por semana”, diz, declarando outro detalhe dessa espécie de auto-prescrição. De acordo com o pesquisador, esse ácido graxo dos pescados tem se revelado tão importante quanto o óxido nítrico. “Muitas vezes age em dupla com ele, especialmente no cérebro.”

Mas Ignarro nota meu desapontamento. Afinal, não iria oferecer aos leitores nada tão novo: apenas mais da tal dieta equilibrada e do exercício de três a cinco vezes por semana. “Conte para eles que sempre soubemos que isso, a combinação de exercício e alimentação em equilíbrio, fazia bem. Só não entedíamos o motivo. E descobrimos fazem bem justamente  porque ajudam — ou pelo menos não atrapalham — o óxido nítrico.” Foi por isso que ganhou um Nobel, afinal.

]]>
0