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Quem sofreu um AVC, tem Alzheimer e outras condições precisa de dentista

Lúcia Helena

21/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Existe uma área da Odontologia encarregada de cuidar de gente que, por algum motivo sério,  passageiro ou não, simplesmente não consegue ir até a tradicional cadeira do dentista. Não, não pense que é apenas uma questão de mobilidade, embora possa ser isso também. O atendimento a pacientes com necessidades especiais é algo muito mais complexo e, noutro dia, conversando com a Miriam Gutman Schmidt, resolvi escrever sobre o assunto.

É que sempre fico encafifada com essa história de a gente se esquecer do que deveria ser óbvio: o que acontece na boca pode afetar a saúde da cabeça aos pés. Ela não é uma estrutura separada do resto do corpo, ora bolas! E fico imaginando a situação de uma pessoa que, muitas vezes, nem consegue expressar que está com uma dor de dente.

Dentista, Miriam fez mestrado em patologia bucal na Universidade de São Paulo, já pensando em pacientes assim. Atuou na AACD, na APAE e em outras instituições até que, no ano 2000, quando essa especialidade foi criada, ela se tornou um dos primeiros profissionais a ganhar o título — e, no caso, por notório saber.

Naquele tempo, a maioria dos casos era de indivíduos com problemas neuropsicomotores, como jovens como paralisia cerebral e portadores de esclerose lateral amiotrófica, a ELA, só para citar dois exemplos. Hoje, com o aumento da expectativa de vida da população e, infelizmente, com o crescimento de casos de AVC, obesidade mórbida, demências diversas, incluindo o Alzheimer, e várias outras condições — muitas delas provocadas por um estilo de vida que só nos castiga —, o leque de atuação da especialidade ampliou bastante.

Quando vai atender, Miriam — assim como outros colegas da área — leva um verdadeiro consultório no porta-malas, com equipamento de raio X e tudo. Só precisa de uma única tomada para entrar em ação na casa do paciente ou ao lado de um leito de hospital. Mas, segundo ela, a maior característica da sua especialidade é conhecer as particularidades de cada uma dessas condições, sem deixar de lado possíveis interações medicamentosas, para atuar lado a lado com médicos, fonoaudiólogos e outros membros de uma equipe multiprofissional.

“Só que, muitas vezes, os profissionais à frente do caso é que se esquecem de lembrar que o paciente tem uma boca para ser cuidada”, observa Miriam. Um indivíduo com Alzheimer pode expressar que sente algum incômodo nos dentes tornando-se particularmente mais agressivo — às vezes, precisa até mesmo ser anestesiado no hospital para permitir o tratamento dentário.

Já em crianças com algumas condições neurológicas, a dor pode desencadear convulsões. Não raro, qualquer paciente manifesta inapetência, o que é fácil de entender, porque mastigar será mesmo complicado. Principalmente — e o que pode ser muito mais preocupante — surgem picos febris, cuja causa os médicos não encontram, porque são provocados por focos infecciosos nas gengivas e na dentição. A febre, claro, denuncia um risco: o da bactéria presente na boca cair na circulação e alcançar, por exemplo, o músculo cardíaco, levando a uma perigosa endocardite. Por isso, claro, sempre vale dar uma olhada nos dentes — o que quase nunca é lembrado.

A própria família, às vezes tensa com a situação e focada em outras questões que soam mais urgentes, como o horário dos remédios, se esquece até mesmo de higienizar corretamente a boca de quem está acamado por um AVC, por exemplo. Aí surge a cárie. Aliás, no caso de quem sofreu um derrame, o papel do dentista, ao lado do fonoaudiólogo, é fundamental. “Corrigir problemas nos dentes pode facilitar a reabilitação de quem passou por um AVC, fazendo com que esse indivíduo até respire melhor e reaprenda a posicionar a língua para voltar a falar, quando essa habilidade ficou comprometida”, me explicou Miriam.

Tratar, diga-se, sempre vale a pena. A própria Miriam já foi questionada ao resolver arrancar um dente de uma centenária. As pessoas se indagavam para que mexer no sorriso da senhorinha naquela altura do campeonato. A especialista tinha a resposta na ponta da língua: “Em uma pessoa de muita idade, um dente ou uma prótese levemente soltos podem cair e aquilo ser aspirado, parando dentro dos pulmões”.  Ali, a peça intrusa causa uma pneumonia que costuma ser fatal.

Os dentes muitas vezes também precisam de apetrechos especiais para serem bem cuidados no dia a dia. Os portadores de ELA, que perdem a força muscular, podem contar com a ajuda de abridores de boca que não machucam os lábios. Para quem não consegue cuspir um creme dental, há sugadores eficientes. Sem contar escovas diferenciadas para cada caso e saliva artificial — cujas borrifadas são úteis para pacientes em tratamento de câncer, que podem sofrer com o ressecamento da boca.

Em todas essas condições, até pela dificuldade maior para limpar os dentes, o retorno deve ser agendado com o dentista, no mínimo, a cada três meses — em vez dos clássicos seis, preconizados para quem não tem uma necessidade especial. Se está consciente, o indivíduo costuma ficar com a autoestima elevada depois desse cuidado. E retribui com um sorriso.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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