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Por que o lanche da tarde é o ponto frágil da alimentação do seu filho

luhelena

12/12/2017 04h10

Crédito: iStock.

Chegam as férias, as lancheiras são guardadas e eu aviso: agora sim, é bem capaz de o bicho pegar na sua casa. Melhor, mãozinhas poderão pegar a todo instante cookies, chocolates, caramelos, sanduíches e sacos de todos os“itos” imagináveis — “gorduritos”, “belisquitos” … Talvez os ataques à geladeira e aos armários da cozinha se tornem mais frequentes.  Bem ou mal, o cardápio no recreio da escola parece mais equilibrado.

O lanche da criançada pode render muitas porções de prosa.  Eu, por exemplo, não me iludo com o fim das frituras nas cantinas escolares. Opa, nem venham dizer que estou defendendo, aqui,  batatas chips entre as aulas! É que aquele folheado de presunto e aquele pão recheado de requeijão, assados e, portanto, liberadíssimos nos colégios, são safados. Também deixam a sua marca de gordura no guardanapo.

Mas o pior, palpito, é terceirizar as primeiras lições de educação alimentar, seja para a escola, seja para quem for. Elas são fundamentalmente responsabilidade da família.

E não há anúncio supercolorido com poder de materializar um excesso de guloseimas na sua casa. O moleque pode colocar de tudo no carrinho do supermercado, fazer beiço, fazer birra. Mas, no caixa, quem cede, paga e leva — em troca de um sorriso irresistível ou de um pouco de paz e sossego — é você.

Pense: este é um bom momento do ano para rever hábitos. Não, não os do seu filho. Quer dizer, os dele também, claro. Mas, primeiro, os de quem é gente grande nessa história.

Atire a primeira bisnaguinha quem organiza pra valer o lanche que as crianças fazem em casa, no período em que ficam fora do colégio, geralmente à tarde.  A julgar pelos números, isso não acontece na maioria dos dulcíssimos lares brasileiros.

Pesquisadores da Associacão Brasileira de Nutrologia, da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade São Judas Tadeu, do Hospital Infantil Sabará e da Universidade de Ribeirão Preto  se reuniram  para entender como andam as refeições intermediárias das nossas crianças. Afinal, o lanche é uma bela chance de completar o aporte de vitaminas, fibras e outros nutrientes. Mas também vira a casaca com facilidade, transformando-se no ponto frágil da dieta do seu filho.

Vale um parênteses: hoje no país, 11% dos  meninos e meninas entre 2 e 6 anos de idade, que praticamente anteontem ainda eram bebês, já estão obesos. E outros 30% não chegam a esse extremo, mas se encontram com quilos a mais.

O estudo a que me referi, porém, focou no lanche dos escolares entre 7 e 11 anos de idade. Foram entrevistadas 2365 mães de todas as regiões do Brasil. Pelas respostas, que ótimo: 97% das crianças tinham o hábito de lanchar. Só que lanchar não deveria ser sinônimo de beliscar de qualquer jeito. Aliás, uma mania danada para corrigir depois, na vida adulta.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatra, os lanches intermediários são fundamentais para o desenvolvimento infantil e devem acontecer com intervalos de duas ou três horas das principais refeições. Cardápio ideal: uma fruta, uma fonte de carboidrato, uma fonte de proteína e um líquido para hidratar, de preferência sem qualquer adição de açúcar. Cada lanche, no final, precisa oferecer  entre 10 e 15% das calorias diárias. Pois bem…

Os cientistas analisaram as 84 composições de alimentos mais frequentes nessas refeições. No lanche da manhã — geralmente aquele preparado no capricho, que a criança leva para a escola ou que é servido por lá —,  os itens mais consumidos foram biscoitos, frutas, iogurtes ou outro laticínio.  No entanto, à tarde, quando a criança ficava em casa… Ou quando não ficava…

Sim, começa por aí. Esse lanche fora da escola quase nunca é à mesa. Costuma acontecer na frente da tevê, no transporte, na calçada, sempre que bate a fome, sem horário certo. E, disparado, o biscoito recheado é o favorito em todas as classes sociais. Sim, a fruta às vezes aparece, ao lado de bolinhos e pães de todos os tipos e sucos bem, mas bem adoçados mesmo.

Feitas as contas, beliscando aqui e ali, a meninada vai além das 300 calorias preconizadas para um bom lanche. Pior, ingere mais de 60% de todo o sódio a que teria direito ao longo do dia. No Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste do país, só nesse lanchinho vespertino a moçada consome praticamente todo o açúcar liberado para as cinco ou seis refeições diárias. Ninguém planeja um estouro desses. Aliás, ele acontece por total falta de planejamento.

Planejar é escolher o que a criança vai lanchar, dia após dia, com a mesma atenção com que você garante uma verdura no prato do almoço ou sabe responder se terá bife ou  franguinho no jantar. Criar um cardápio semanal, se for o caso. Os cientistas garantem que isso faz uma baita diferença lá adiante. Lanches equilibrados na infância, segundo a  Organização Mundial de Saúde, afastam  costumes que favorecem diabetes, problemas do coração e obesidade no futuro.

Portanto, para pais e mães que mal reparam no que os filhos devoram entre uma grande refeição e outra, nada de férias: a hora do lanche (em casa) é essa.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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