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O que realmente pode retardar o avanço do Alzheimer que mal e mal começou

Lúcia Helena

19/04/2018 09h26

Crédito da imagem: iStock

Aprendi uma palavra nova. Talvez você a conheça, mas eu, confesso, a ignorava solenemente: prodrômica. Pois o que mais se falou no II Simpósio Internacional Avanços em Comprometimento Cognitivo Leve, que aconteceu no último final de semana em São Paulo, foi justamente em doença de Alzheimer prodrômica. É, admito, não se trata de uma palavra muito bonita… Mesmo assim, procure não esquecê-la. Caso se lembre dela, as chances de, um dia, você também se lembrar de tudo mais aumentam um bocado.

Uma doença prodrômica é aquela que está tão no início que ainda não apresenta sintomas claros ou específicos para qualquer médico fechar o seu diagnóstico. É preciso dar um tempo até que ela evolua e mostre a sua verdadeira face. Mas aí é que está o nó. No caso do Alzheimer, esperar é fechar a única janela de oportunidade eficaz para desacelerar o seu avanço.

Já faz 15 anos que surgiu a última medicação para frear o desaparecimento gradual das lembranças, que acontece quando o Alzheimer provoca o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, deixando algumas áreas feito um queijo suíço. A doença também muda as dimensões do hipocampo, região no miolo da massa cinzenta responsável por gravar o que aprendemos e tudo o que nos aconteceu nesta vida. 

Na tal fase prodrômica, há o que a gente possa fazer — o problema é que essa etapa, em si, é tão ignorada quanto o termo que a nomeia. A maioria dos prodrômicos circula pelas ruas reclamando do estresse que lhes provoca lapsos e, se suspeitam de algo errado porque esses brancos se tornam mais frequentes, costumam ouvir: “ah, isso é coisa da sua cabeça”. Pode ser que seja mesmo, mas, para saber, ninguém deveria ignorar uma queixa dessas.

Só na cidade de São Paulo, estima-se, há mais de 130 mil  prodrômicos. Em cinco anos, 72% deles manifestarão o Alzheimer que engatinha entre os seus neurônios. Talvez —  não se projetou isso —, em dez anos, 90% deles sejam confirmados como portadores da doença. 

O desafio é esticar esse prazo, foi o que me disse o neurologista Paulo Bertolucci, durante o intervalo para um café no evento.  Só que o sujeito prodrômico precisaria procurar um médico — o que está longe de ser comum. E, conforme me explicou o professor da Universidade Federal de São Paulo, esse médico, por sua vez, precisaria farejar o Alzheimer. Ora, isso não é moleza nem quando “a doença do tio alemão” se escancara. Imagine quando está escamoteada!

Em sua apresentação, o professor Bertolucci tomou como exemplo um paciente, o senhor Y, que continuava usando a cabeça muito bem para administrar sua fazenda. No entanto, sentia que algumas informações lhe fugiam de vez em quando. A esposa confirmou a impressão.  Ah, sim, os neurologistas precisam de alguém próximo do paciente que faça o papel de informante, atestando ou até detalhando como são os esquecimentos no cotidiano — é desse modo que se começa uma investigação de suspeita de Alzheimer.

No caso, a senhora Y disse que o marido não ficava lhe perguntando coisas o tempo inteiro — o que pode acontecer quando a doença dá um passinho tímido adiante —,  mas andava repetindo histórias que já tinha contado.

Os médicos, em situações assim, fazem testes clássicos. Pedem para o paciente evocar palavras que acabou de escutar. O senhor Y se saiu muito bem, diga-se. Em outro teste,  solicitam que ele desenhe, por exemplo, um relógio marcando as horas — o relógio riscado pelo senhor Y, aliás, não saiu no capricho.  Seria confusão mental? Em mais um teste, o senhor Y teve de nomear figuras. E, ao ver uma harpa, hesitou por alguns segundos. Disparou: “flauta”.

Chamar harpa de flauta ou urubu de meu louro acende a luz amarela, mas não fecha o diagnóstico. O professor Bertolucci partiu para capítulo seguinte, o dos exames de imagem — e, adianto, o tamanho do hipocampo do senhor Y já não era o esperado. O médico também solicitou testes capazes de flagrar substâncias marcadoras de Alzheimer no líquor —  elas também, por si, não dizem muito. Mas o conjunto dos resultados monta o quebra-cabeças. O do senhor Y revelava um comprometimento cognitivo leve que possivelmente era um Alzheimer prodrômico.

E o que pode ser feito em casos assim? O primeiro olhar recai, claro, para os fatores de risco. Um dos maiores é a escolaridade baixa. Quem passou mais de 14 anos nas escola tem um hipocampo maior do que quem passou menos tempo do que isso em salas de aula. Portanto, um idoso que começa a manifestar Alzheimer e não completou o segundo grau, por exemplo,  já tem um ponto de partida desfavorável. Isso porque um hipocampo que já não é grande coisa, ao pé da letra, ao diminuir ainda mais de tamanho por causa da doença fará as lembranças se apagarem mais ligeiro. E, óbvio, não temos como voltar ao passado e devolver o cérebro do cidadão à professora. Até aqui, nada a fazer.

Cuidar do diabetes, da hipertensão, do colesterol nas alturas e de tudo o que atrapalha a circulação sanguínea no cérebro ajuda bastante. Segundo Bertolucci, se essas doenças fossem controladas, teríamos, 3 milhões a menos de indivíduos com Alzheimer no planeta — melhor dizendo, talvez esses sujeitos nunca sairiam da etapa prodrômico, na qual se comete lá suas gafes, mas sem que isso emperre a vida.

Fazem parte da receita as atividades intelectuais protetoras dos neurônios. E aqui as principais, disparadamente,  são ler livros e jornais ou qualquer texto mais longo e… escrever com prazer. Portanto, adverte o professor Paulo Bertolucci, não vale bilhete na geladeira, anotação na agenda, lista de supermercado, canhoto de cheque nem post de duas linhas nas redes sociais. Precisaria ler ou escrever — friso — um texto mais longo, com começo, meio e fim, escrito com ideias bem encadeadas, diz o neurologista. Valeria até carta de amor. 

Detalhe que faz diferença: o objetivo seria se dedicar a isso todos os dias, sem 24 horas de exceção. Se alguém não gosta tanto da escrita ou da leitura e ameaça desistir em três meses, melhor partir para alternativas não tão eficazes, mas ainda muito boas, como os jogos de palavras-cruzadas ou de estratégia, conversas com amigos… Afinal, a prescrição é para o resto da vida. “Isso é bem sério. A atividade intelectual na fase prodrômica é remédio”, afirma Bertolucci ao blog.

Também serve de medicamento a atividade física. E, de novo, não vale dizer que costuma andar até a padaria ou que vai ao parque no final de semana. Precisa ser uma atividade moderada, praticada com disciplina — leia-se, praticada sempre. Aí, sim, ela agirá contra o Alzheimer de muitas maneiras: por mecanismos que envolvem músculos e fígado, o exercício regular ajuda a preservar os neurônios. Também inibe a deposição das famigeradas placas beta-amiloides entre eles. De quebra, diminui a inflamação no cérebro — outro problema provocado pelo Alzheimer — e melhora a circulação na massa cinzenta. 

Mas, sem dúvida, o que mais causou estardalhaço no evento  foi a apresentação do neurologista  Tobias Hartmann, professor da Universidade Saarland, na Alemanha, e um dos autores do estudo LipiDiDiet, publicado no final do ano passado no periódico científico The Lancet. Os cientistas reuniram 311 indivíduos com Alzheimer prodrômico. Para 153 pessoas desse grupo, eles ofereceram, todos os dias, 125 mililitros de  uma bebida contendo uma combinação de nutrientes e bioativos patenteada como Fortasyn Connect. 

Eu preciso esclarecer um ponto importante: a empresa que desenvolveu a bebida com esse mix nutricional não investiu um centavo no estudo. Na realidade, o Fortasyn Connect já é alvo de mais de 100 investigações pelo mundo, em boa parte pela carência da Neurologia de alguma novidade para interferir na fase prodrômica na doença.

Talvez você se pergunte — como eu me perguntei — por que outros suplementos com colina, ômega-3, vitaminas e afins não fariam o mesmo efeito. O segredo é a mistura tão, mas tão bem equilibrada que age na membrana neuronal. Adianto: ela é chata. Um pouco a mais ou um pouco a menos de qualquer coisa e essa membrana já esnoba. E só adianta suplementar quando tudo é dado junto.

Os participantes que tomaram a bebida apresentaram, ao longo de dois anos, um declínio 45% menor no desempenho de suas atividades cognitivas diárias e a atrofia do hipocampo foi 26% inferior em relação ao grupo que não ingeriu o suplemento. Trata-se do primeiro ensaio clínico no mundo mostrando o papel da suplementação nutricional no Alzheimer.

Tudo isso, claro, só adiantará se a gente não se esquecer de buscar orientação, sem achar que a cabeça falhar é um efeito natural dos dias corridos ou do passar da idade. Pode não ser  — e eu sei que é desagradável ouvir o soar do alarme, mas é isso o que eu precisava me lembrar de lhe dizer.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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