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O jeito brasileiro de operar bebês na barriga da mãe parece ser o campeão

Lúcia Helena

16/01/2018 04h02

Crédito: iStock

Se fazer ciência no Brasil é um teste de resistência, imagine quando se trata de uma pesquisadora mulher, sem estar ligada a uma universidade, encasquetada com desbravar uma área da Medicina que engatinha há pouco mais de três décadas e que mexe com o que há de mais delicado, porque opera bebês quando ainda estão abrigados no ventre materno. Sim, as cirurgias fetais são um avanço muito, muito recente mesmo.

Foi em 1995, em um congresso no exterior, que a ginecologista Denise Lapa viu pela primeira vez um feto ser operado. Formada pela Universidade de São Paulo e hoje responsável pelo programa de terapia fetal do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista, ela teve a certeza de que faria aquilo na vida. Levou ainda um tempo para começar.

Mesmo assim, talvez por ser um campo movediço de tão novo, a universidade não lhe deu espaço para seguir pela trilha escolhida. Por sorte, ela conquistou uma bolsa da Fapesp e, usando-a como um passaporte, abriu as portas de vários hospitais para realizar uma etapa do trabalho ali, outra acolá. Sua pesquisa acabou itinerante. A cada hora em um canto — com direito, por exemplo, a correr atrás de uma ovelha grávida que escapou no estacionamento de um dos maiores centros de cardiologia do país –, a cientista persistiu por incríveis 18 anos.

Só na semana passada, Denise Lapa viu o trabalho em que descreve sua técnica ser publicado em um dos mais prestigiados periódicos da área, o Ultrasound in Obstetrics and Gynecology Journal.  A publicação internacional deixa claro: a cirurgia desenvolvida por essa brasileira, filha de sergipanos, nascida no Rio de Janeiro e criada em São Paulo, pode ser a melhor do mundo para corrigir um defeito que, se nada é feito até o parto, leva à paralisia, a problemas graves na bexiga e à hidrocefalia. Trata-se da espinha bífida ou mielomeningocele. Ela aparece em um bebê para cada 1 mil nascidos no Brasil. Ou seja, a malformação é uma das mais incidentes e, a cada ano, mais 3 mil crianças nascem com ela em nosso país.

Uma das principais causas do problema é a falta de suplementação adequada de ácido fólico. Cá entre nós, o suplemento dessa vitamina não deveria ser opcional para mulheres em idade fértil, até mesmo para aquelas que não têm a menor pretensão de engravidar, já que — encaremos — gestações indesejadas acontecem. É preciso que o organismo feminino disponha de uma quantidade de ácido fólico bem maior do que a que a alimentação costuma oferecer para assegurar a formação adequada do sistema nervoso.

Na falta de dosagens generosas do nutriente, pode se dar sorte ao azar e a espinha do feto não se fechar. Daí, a medula fica exposta ao líquido amniótico onde ele flutua. Esse líquido vai, aos poucos, danificando o feixe de nervos que escapuliu do interior da coluna e que dá todos os comandos do cérebro para o restante do corpo.

Quando o ultra-som denuncia que uma porção da medula saiu da coluna feito um punhado de fios sem proteção, a Medicina fetal inicia uma corrida contra o relógio. Nenhuma operação reverte os danos já provocados pelo líquido amniótico. Nem a da doutora Denise Lapa e seu time. As cirurgias fetais, ao fecharem a abertura, apenas impedem novos prejuízos.

Mas a técnica brasileira leva, de cara, vantagem: são feitos somente minúsculos furos na barriga da grávida, submetida a uma anestesia geral. Por um deles, passa uma câmera de ínfimos 3 milímetros de diâmetro. Graças a ela, a equipe enxerga o bebê  no monitor durante todo o procedimento. E, claro, os furinhos oferecem um risco muito menor para a mãe e para o filho, se comparados com o corte de 10 centímetros da operação a céu aberto, realizada para corrigir o defeito há mais de uma década.

A cirurgia brasileira é também a mais rápida.  Em geral, dura apenas uma hora e meia — vá lá, duas horas e meia nos casos muito complicados.  Seu primeiro passo é sugar um bom volume do líquido amniótico no útero para injetar gás carbônico em seu lugar. Não por nada: o sangue vazado no líquido atrapalharia a visualização do pequeno paciente, que é virado devagarinho até ficar em uma posição na qual  os cirurgiões possam, com a ajuda de pinças, colocar o feixe nervoso delicadamente de volta ao seu lugar, dentro da coluna.

No final, antes de preencher a cavidade uterina com soro fisiológico morno, a abertura por onde escapava a medula é fechada com uma celulose especial e só acima dela é que a médica deposita a pele, deixando que o organismo do bebê trate de emendá-la. Isso faz total diferença. Explico.

Na realidade, a cirurgia brasileira é a segunda do mundo a corrigir o problema por meio da endoscopia. Médicos alemães foram, de fato, os primeiros a reverter a situação sem usar o bisturi para fazer grandes cortes. Mas eles aplicam outro material para fechar o rombo na espinha, costurando-o ao redor da lesão. E nem sempre essa parece ser a melhor saída.

Em geral,  os pontos causam uma espécie de retração do tecido, que acaba grudado nos nervos, como uma cicatriz. Resultado disso: 30%  das crianças voltam a ter problemas para andar e para eliminar a urina por volta dos 3 anos. Na cirurgia tradicional, a situação é até mais triste: oito em cada dez bebês operados apresentam algum grau de regressão a partir do terceiro ano. Pena.

Por enquanto,  foram operados 69 bebês com a técnica inventada no Brasil e, deles, 47 já são acompanhados há um ano e meio. É cedo para afirmar que nenhum terá problemas no futuro. Mas é  provável que continuem bem, já que a celulose usada na operação não causa a aderência dos nervos . Uma esperança que faz valer a longa espera de 18 anos pelo reconhecimento.

Antes mesmo da publicação, Denise Lapa já ensinou sua técnica e operou fetos em diversos países, como Chile, Equador, Itália, Eslováquia. Em Israel, ela se programou para fazer a cirurgia em bebê judeu diagnosticado com espinha bífida no exame pré-natal. Menos de 24 horas depois, apareceu um segundo caso no hospital israelense, o de um bebê palestino. Ela diz esperar que esse seja um sinal de um mundo melhor.

Já eu fico pensando em outro simbolismo nessa saga toda. Se existe o país cujas políticas dão as costas para a ciência, há também o Brasil dos cientistas que persistem. Por 18 anos ou mais. E que até correm atrás de ovelhas em estacionamentos, literalmente, se for preciso.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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