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Blog da Lúcia Helena

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Brasileiros apontam um jeito de prever diabete em jovens enquanto é cedo

Lúcia Helena

13/02/2018 04h00

Crédito: iStock

Uma mudança de nome deveria chamar mais a atenção de todos nós. Houve um tempo em que os médicos falavam em diabete juvenil. Agora ele é o diabete tipo 1. E tinha também o diabete senil ou tardio, alguém aí se lembra de ter ouvido a expressão? Mas não é de hoje que esse passou a atender por tipo 2.

Não ache que é mera troca de letras por números. Ora, soaria bem esquisito avisar os pais de uma criança que seu filho foi diagnosticado com uma doença tardia. Em um menino de cinco, seis anos, tardia como, cara pálida?! Pior ainda seria falar em um problema senil em plena infância — ou, vá lá, no desabrochar da adolescência.

No entanto, desde meados dos anos 1990, a cena se torna comum. O que era um privilégio às avessas de gente mais velha surge com frequência assustadora nos primeiros anos de vida. Ouça bem: os nomes mudam quando a realidade muda. 

No Japão, por exemplo, agora há mais meninos e meninas com o tipo 2 do diabete, originalmente típico de pessoas maduras, do que com o tipo 1, que quase sempre eclode antes da vida adulta. Já nos Estados Unidos, no mínimo 8% das crianças são diabéticas do ex-tipinho tardio. Mas, lá, se você focar os olhos nas minorias étnicas, como hispânicos e afro-americanos, verá que 45% das novas notificações da doença são em menores de 21 anos. Ah, sim, os dados são da International Diabetes Federation.

E, por falar em dados, no Brasil não encontramos informações precisas sobre quantos dos nossos jovens são portadores do tipo 2, mas não devem ser poucos. Afinal, temos todos os ingredientes para o avanço do problema. Os principais são o disparo da obesidade infantil, um sedentarismo cada vez maior entre a moçada e, sim — guarde este porque não é menos importante, em função de uma série de reações hormonais — ,  o estresse. A gente sabe e, muito triste, não faz nada: a criançada anda com uma agenda de CEO de multinacional.

Eu me estendi na explicação do cenário para você entender o impacto que pode ter um trabalho como o que acaba de ser publicado pelo nutrólogo Carlos Alberto Nogueira de Almeida, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que é também diretor do departamento de Pediatra da Associação Brasileira de Nutrologia, ao lado de sua colega, igualmente nutróloga, a professora Elza Mello, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A dupla sugere um novo caminho para flagrar a resistência à insulina em crianças e adolescentes.

Antes mesmo de o diabete dar as caras, não importa a idade, as células passam a ter a maior dificuldade para captar a insulina, o hormônio fabricado pelo pâncreas. E, sem que ele se encaixe perfeitamente nelas, a glicose das refeições, que abasteceria o corpo de energia da cabeça aos pés, fica de fora, solta na circulação.

O pâncreas procura compensar essa dificuldade. Ora, quem sabe se passar a liberar mais e mais insulina, não é mesmo? E, assim, ele bem que tenta. Não dá certo. Com o tempo, sobrecarregado por querer dar conta de tudo sozinho, termina esgotado, perdendo a capacidade de trabalhar. Esse é o momento crítico em que a resistência à insulina, que seria reversível — ainda mais na juventude —, se torna um diabete tipo 2 pra valer.

O professor Carlos Nogueira, com quem conversei para compreender mais a respeito da pesquisa,  lembra que os portadores de diabete tipo 2 recém-diagnosticados começam o tratamento na base da medicação oral, mas com o passar dos anos o quadro evolui para a necessidade das injeções de insulina, como nos diabéticos tipo 1 — estes  desenvolveram a forma autoimume da doença, imprevisível, em que as defesas destroem o pâncreas sem dó nem piedade.

O tipo 2 provocado por um estilo de vida de cabeça pra baixo, e que seria passível de prevenção, no final das contas também deixa sequelas terríveis, se não há muita disciplina para controlar a glicose do sangue. Digo mais: as complicações nos nervos, nos olhos e no coração costumam aparecer mais ligeiro e podem ser mais agressivas no diabete tipo 2 que surge nos jovens, ou seja, antes da hora estimada (se é que coisa ruim deveria ter hora para acontecer…).

Um dos enormes desafios da medicina, portanto, é flagrar a resistência à insulina na meninada, só que isso sempre foi complicadíssimo. O médico Carlos Nogueira me explica a razão: especialmente na adolescência, em função da enxurrada de hormônios do crescimento, o organismo saudável resiste mesmo à insulina. No caso, é até desejável.

Essa implicância que as células dos jovens têm com a insulina favorece o estirão, o aumento da musculatura nos rapazes, o acúmulo de gordura nas garotas… Mas, eis a questão, então como saber se a menina teria uma resistência à insulina normal ou não, se estaria perigosamente à beira do diabete ou se estaria apenas crescendo e se desenvolvendo de boa?

A prova dos nove, até o momento, era um teste impraticável. Nele, injetam-se doses tão altas desse hormônio para observar o momento em que  as células fazem birra que o moleque examinado quase invariavelmente passa mal, muito mal. Corre o risco de hipoglicemia e, por essas e outras, esse é uma medida que só pode ser realizada com internação hospitalar e para fins de pesquisa.

Felizmente, o time brasileiro parece ter encontrado alternativa.  Há quase uma década, o professor Carlos Nogueira estipulou, examinando um montão de crianças sem diabete, quais poderiam ser os valores normais de insulina, conforme a idade e o gênero.

Já nessa fase mais recente da investigação, os cientistas brasileiros dosaram a insulina de 383 meninos e meninas obesos entre 7 e 18 anos de idade, após jejum de oito horas. E todos os que apresentaram taxas desse hormônio maiores do que aquelas que, em hipótese, seriam normais, tinham também um colesterol nas alturas. É muito improvável que seja mera coincidência.

Eu explico: quando o açúcar fica dando sopa na circulação, o fígado transforma parte dele em colesterol. Portanto, ao cruzar a informação da insulina alta com a do colesterol igualmente elevado, os cientistas podiam deduzir se o garoto ou a garota tinha a tal resistência. Ou seja, um simples exame de sangue é capaz de apontar quando é preciso fazer algo para impedir uma situação sem volta, que é do diabete tipo 2.

Daí é possível afastar a ameaça, por meio de tratamento médico, ajustes urgentes na dieta, muita atividade física e, bem, já sabe, uma agenda que deixe tempo de folga para a criança ser apenas uma criança. Até porque o cortisol do estresse não ajuda em nada a prevenção, nem o controle do diabete.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.