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Blog da Lúcia Helena

Quando você toma vacina, protege quem não pode ser vacinado. Pense nisso

Lúcia Helena

15/02/2018 04h01

Crédito: iStock

Noutro dia, no meio de um debate acalorado, me perguntaram o que eu pensava sobre vacinas. Porque, sim, vacinar-se ou deixar de se vacinar é uma questão pra lá de antiga, mas que vem ganhando força nos últimos três, quatro anos, despertando muitas vezes a ira de quem tem opinião contrária aos imunizantes. Se quer mesmo saber, irei direto ao ponto: sou favorável à vacinação.

Nos Estados Unidos principalmente, país no qual um quarto da população já torce o nariz para a ideia, e também em algumas regiões da Europa, a onda contra as vacinas começou a crescer por motivações diversas. Não à toa, a França viu a volta do sarampo, que andava desaparecido por lá. Deram essa sorte para o azar. E essa mesma onda ameaça bater por aqui, incentivada por uma parcela muito distinta da população — moradores de metrópoles, com maior renda e escolaridade.

Não, eu não ignoro que as vacinas têm lá seus efeitos adversos. Infelizmente, já foram registrados casos extremamente raros em que a vacinação levou à morte. Mas repito: são episódios raríssimos. Para a maioria das pessoas, a imunização só deixa um braço ou um bumbum dolorido depois da picada. E olhe lá.

Para outras, surgem a febre e aquela quebradeira típica de doença que, embora desagradáveis, até fazem sentido: ora, vacinar-se é um adoecer de forma branda e de caso pensado. O que uma vacina faz é justamente treinar o seu exército de células de defesa. E, somente cara a cara com inimigo, portanto à beira de você ficar doente pra valer,  esse exército é capaz de desenvolver táticas de guerra específicas contra cada invasor.

A exceção: quando um bebê é amamentado no peito. Aí, recebe de badeja, em cada gole de leite, um punhado generoso de anticorpos produzidos pelo organismo da mãe. Mas esses anticorpos maternos não duram para sempre, nem agem contra tudo. Portanto, para que um indivíduo tenha a sua própria produção de moléculas defensoras, seu corpo terá de enfrentar o contato com vírus e bactérias — seja nas batalhas reais ou nas simulações proporcionadas pela vacinação. Não há outro caminho. É ficar doente de verdade ou de mentirinha. Pegar ou largar. O que prefere?

Concordo que precisariam existir mais estudos sobre o que fazem, a longo prazo, as tantas vacinas que tomamos desde a infância. Até para ver se estariam, por exemplo, por trás da explosão de doenças autoimunes que se vê por aí. Não é tão improvável que isso aconteça em gente geneticamente mais suscetível.

Assim como merece espaço a questão de que estaríamos tomando vacinas demais — outro ponto levantado pela turma do contra. Seria uma boa discussão para apagar de vez todas as dúvidas. Mas, aviso, ainda não há qualquer informação consistente contra a vacinação nesse sentido, como apurei na semana passada, ao visitar um comitê de cientistas do Instituto Butantan, em São Paulo, que está prestes a lançar um belíssimo programa para esclarecer tudo a respeito do assunto.

E digo, ainda mais depois dessa conversa que tive por lá: riscar do calendário de vacinação um imunizante ou outro aleatoriamente para se expor menos, por assim dizer, aos efeitos desse tipo de medicação não faz muito sentido. Hoje, alguns pais agem assim, alegando que querem "sentir" como o organismo da criança vai se virando sozinho antes de apelar para qualquer picada ou gotinha. Só que evitar dar "imunizantes demais" é um jogo de dados bastante perigoso. Afinal, se você não sabe qual o risco que oferece o parquinho da esquina, como bancar o bidu e escolher contra qual doença deixará de vacinar o seu filho? Parece ferir o bom senso.

Um aspecto me pega mais do que tudo.  Reflita: se você vai tomar vacina ou não, esta é sempre uma decisão que impacta a vida de outras pessoas. Daqueles que estão ao seu redor, na sua casa, e de quem você nem sabe o nome,  mas com quem cruza por aí. O mundo das infecções deixa bem claro: estamos todos interligados. Até com os macacos, veja aí a febre amarela. Dependemos uns dos outros.

Os imunologistas e os infectologistas sabem bem: não é preciso vacinar a população inteira de um lugar para evitar que determinada doença apareça ali. Basta que a maioria tenha a proteção para que forme um escudo em quem, por ventura, não possa fazer o mesmo. Então, a chance de um micróbio se espalhar, quase que usando um organismo como incubadora, cai drasticamente, a ponto de quase inexistir.

Não sei, sinceramente, se quem convive com criança — seja ela sua filha ou a neta do vizinho ou aquela garotinha sentada no ônibus–  tem o direito de não se vacinar e expor um organismo infantil a uma infecção. Não sei se quem tem idoso na família poderia abrir mão de uma vacina, criando a brecha para levar até essa pessoa um vírus qualquer durante uma visita. Idem, quem tem por perto alguém com câncer, deficiência imunológica e tantas outras condições que, muitas vezes, impedem a própria vacinação. Aliás, direito todo mundo até tem. Mas… e a responsabilidade por todos?

Ah, não me venham também com teorias conspiratórias. Nós as adoramos. A indústria farmacêutica não ganha bulhufas com vacinas perto do dinheirão que fatura com doenças. Vacinas — passado o momento da transferência de tecnologia, quando surge um imunizante novo — são baratas, se comparadas a uma única semana de antibiótico. A matemática desse sinistro jogo de interesses já nasce furada. Pense em outras contas mal feitas, como quando as vacinas não chegam ou, pior, quando chegam vencidas à população. Isso, sim, é real.

De novo, naquele outro dia, no tal debate acalorado, falaram que eu defendo as vacinas porque acredito muito nas instituições. Bobagem. Acredito nada. Acredito é nas nossas células — só nelas —  e na capacidade que têm de aprender, se você lhes der essa oportunidade.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.