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E de cocô ninguém quer falar? Sinto muito: o assunto pode salvar sua vida

Lúcia Helena

13/03/2018 04h00

Crédito: iStock

Na semana passada, eu participei de uma roda de conversa na qual lamentaram que muita gente tem doenças fatais e só descobre quando a vaca está a meio caminho do brejo. Logo alguém citou o câncer de mama. Sem querer minimizar o problema, acho que ele nem é o melhor dos exemplos. Sim, tem muito caso flagrado tardiamente por aí. Mas, honestamente, as mulheres hoje em dia sabem que precisam fazer a mamografia ou outro exame das mamas, não sabem, não? Se não estão em dia com o check-up, por negligência ou falta de acesso— situação triste que nunca acaba —,  deve lhes bater no escurinho da consciência um peso, um calafrio de suspense, algo assim.

O mesmo vale ou deveria valer, senhores, para os tumores de próstata. Algum homem vai ter a cara de pau de dizer que não sabe da importância de a glândula, a partir de certa idade, ser cutucada pelo dedo do médico de tempos em tempos?!  Pois agora  então me diga, sem pestanejar: quem aí sente culpa, lá no fundo, por não fazer um exame de fezes periodicamente? Fale a verdade! Ele deveria ser repetido todo ano, mas não é o que acontece.

Médicos do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, resolveram pôr esse descaso à prova. Eles acompanharam 1.200 homens e mulheres que, sim,  chegaram ao momento sagrado de fazer cocô no potinho e o entregaram à ciência. Todos tinham entre 50 e 75 anos de idade e, aparentemente, não havia nada de errado com eles. Nadinha. Nenhum sintoma. Talvez por isso mesmo — quem dá bola para o produto de suas entranhas? — , mais de 45% por cento dos pacientes nunca tiveram a menor curiosidade de checar no que tinha dado o tal exame.

Isso é empurrar o cocô para debaixo do tapete. Fique ciente de que o câncer de intestino é o que mais mata neste país, só perdendo para os já citados tumores de mama e de próstata. E não tem lá o menor glamour, já que estamos na era em que até doença precisa de glamour e likes, credo! A lesão cresce na surdina e nem costuma doer, muito menos logo no comecinho.

Aliás, aproveito para o desabafo: não sei que mania temos de esperar uma dor. Até porque coisa ruim só é ruim pra valer quando passa despercebida. Já viu colesterol alto arder? Hipertensão latejar? Um diabete arrasando o corpo da cabeça aos pés por acaso dá fisgadas? Ora, com qualquer câncer não costuma ser diferente. A doença maligna, em geral, provoca dor quando se torna forte, grande, poderosa. Não espere que um tumor recém-instalado, antes de ameaçar se espalhar, dê sinais gritantes.

Pondere: por trás dos tumores do intestino estão a obesidade, o sedentarismo, uma alimentação pra lá de gordurosa, ou seja, fatores muito evidentes em uma adoecida sociedade moderna. E, talvez por causa deles, o que era problema de gente mais velha, acima dos 50, agora acomete cada vez mais pessoas com menos do que essa idade, que já representam, nos Estados Unidos, 30% dos novos pacientes, de acordo com a Sociedade Americana de Câncer.

Se ninguém gosta de falar de câncer, imagino pensar em câncer, cocô, tudo junto. Mas entenda porque insisto em algo que cheira mal: esse tumor provoca micro-sangramentos. Dá essa tremenda bobeira e ela é a nossa chance de desmascará-lo. Será que vai perdê-la sem fazer, pior, sem buscar o resultado do seu exame?

Ah, não pense que irá encontrar um rastro vermelho no vaso sanitário depois de algum momento privado. Isso seria sangue vivo — o derramado por uma hemorroida, por exemplo. O sangue desprendido dos tumores se esconde no meio pastoso das fezes. Pequenos coágulos, praticamente tom-sobre-tom. Eu sei, você preferiria imaginar flores, mas é do marrom do cocô escondendo casquinhas de sangue cor de bronze a que me refiro E, já disse, nem adianta ficar de olho. Adiantaria fazer o que tiver para fazer no pote. Aquele recipiente que muita gente leva para casa nas bateladas de um check-up e, depois, nunca mais devolve.

O fato de o teste de sangue oculto nas fezes dar positivo também não é motivo para ninguém cair pra trás de susto. Primeiro, pode significar uma inflamação boba. O sangue flagrado no exame, em princípio, só aponta a necessidade de uma colonoscopia, um procedimento ligeiramente mais complicado e mais caro, mas que não é nenhum bicho de sete-cabeças. Você sabe: o médicos introduzem um cabo maleável no paciente sedado e, com uma microcâmera, visualizam boa parte do trajeto intestinal. Mais do que isso, aproveitam e, numa só tacada, arrancam os pólipos que encontram pela frente.

Pólipos são lesões  nas paredes internas do intestino, geralmente benignas, mas sempre loucas para, com o tempo, virarem a casaca e se bandearem para o mal. E, se isso já aconteceu, acalme-se: mesmo quando a colonoscopia detecta um câncer, a história ainda assim pode acabar muito bem e ser esquecida até a temporada seguinte de examinar o raio do cocô.

Este seria um final feliz para — de acordo com as estatísticas médicas — nove em cada dez tumores de intestino. Sim, 90% são completamente curáveis nos estágios bem iniciais. No entanto, no Brasil, só 25% são flagrados a tempo. E, repito, entre nós é o segundo tumor que mais mata… Sério que não entendo. Perdemos essa oportunidade porque nem queremos pensar no assunto, deprezamos, puxamos a descarga. E aí, sim, dá m… meleca!

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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