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Pó de guaraná é bem melhor do que o chá-verde para evitar doenças, sabia?

Lúcia Helena

20/03/2018 04h00

Crédito: iStock

Ele ganha de lavada, quem diria. E não só do chá-verde, bebericado pelo mundo afora por beneficiar a saúde. Passa uma bela rasteira também no chocolate amargo, recomendado para proteger o coração. O que esses três têm em comum são substâncias conhecidas  como polifenóis. Em especial um grupo delas, as catequinas, que são excelentes antioxidantes e que, ainda por cima, possuem a propriedade de aplacar inflamações pelo corpo. Informo: na maior parte das vezes, adoecemos porque inflamamos. Simples assim.

Ora, o chá-verde não ganhou a fama de guardar o segredo da longevidade oriental à toa. Pois bem: só que o pó do nosso guaraná tem uma quantidade dez vezes maior das tais catequinas. Por baixo. E isso é de fazer cair o queixo.

O pó escuro e amargo feito a partir do fruto amazônico é consumido por aí   — e faz tempo — especialmente pela turma fitness, adepta da academia. E tanto aqui no Brasil, sua terra natal,  quanto lá fora, era sempre visto apenas como um bom estimulante por causa da cafeína, presente em uma quantidade três vezes maior do que no café. Aliás, também por causa da cafeína, ninguém diria que fizesse um bem danado ao coração. Mas faz. Principalmente para quem vive às voltas com o colesterol alto.

Eu, particularmente, fico fascinada quando a ciência vira o jogo do senso comum. Mais ainda quando isso acontece quase por sorte, como foi o caso que vou lhe contar.

Há cerca de dez anos, a  professora Elizabeth da Silva Torres, engenheira agrônoma com pós-doutorado em ciência dos alimentos,  dava um trabalho clássico aos seus alunos de graduação na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo: eles tinham de fazer a ficha de composição de um ingrediente determinado por ela.

A nutricionista Carolina Martins, então estudante, caiu justamente com o guaraná. Azar o dela. Sorte de todos nós, que ficaríamos sem saber desse reduto de catequinas, não fosse Carolina chegar até a professora com a ficha praticamente em branco.

Elizabeth Torres lembra que não se conformou com o que achava ser mera desculpa: a moça alegou que não tinha obtido muita informação sobre o que seria encontrado no bendito frutinho. A não ser, claro, sua aclamada cafeína. E, assim, Elizabeth foi com ela pesquisar, tentando acabar a lição de casa. Sem sucesso. Na ocasião, a ficha permaneceu com várias linhas em branco.

Para espanto da professora, até mesmo o Pubmed —o fabuloso banco de pesquisas científicas publicadas no mundo inteiro da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos — só reunia 25 trabalhos sobre a composição do guaraná. Não é mesmo estranho?

Afinal, o consumo do pó desse fruto e até mesmo do seu extrato e xarope já era bastante difundido há uma década. Mas esse era o fato: as pessoas mal sabiam o que estavam engolindo. Os cientistas muito menos tinham algo a declarar, a não ser bater na velha tecla do efeito energético.

Desse modo, um tanto ao acaso, surgiu uma importante linha de investigação na Universidade de São Paulo, à qual se juntou  um grupo relativamente grande de cientistas. Eles logo descobriram a quantidade fenomenal de polifenóis e, mais recentemente, fechando com chave de ouro, provaram que essas substâncias encontradas no guaraná são muito bem aproveitadas pelo nosso corpo em prol da saúde.

Sim, porque não necessariamente o que alimentos e suplementos trazem dentro de si  entregam o serviço propagandeado. Às vezes, eles são comparáveis a políticos, que prometem uma coisa e fazem outra na hora agá. Entenda: em ciência, os testes com seres humanos são sempre a hora agá.

O guaraná não decepcionou.  Durante 15 dias, os voluntários consumiram 3 gramas de pó diluídos em um copo de água. O efeito foi incrivelmente rápido. Uma horinha depois de eles terem bebido a mistura, os cientistas já notaram um aumento na atividade de uma série de enzimas que protegem o nosso corpo contra os radicais livres. E essa ação se prolongava até o dia seguinte.

Os pesquisadores observaram ainda o que acontecia com o colesterol ruim, o LDL,  nas amostras de sangue coletadas dos participantes. Expostas propositalmente a radicais livres no laboratório, as partículas do colesterol demoravam muito mais até ficarem oxidadas. É justamente quando se oxidam — como se enferrujassem — que elas se depositam nos vasos, criando as famigeradas placas que ameaçam a saúde cardiovascular.

Já o DNA dos linfócitos —  glóbulos brancos do sangue que também foram colhidos após uma hora do consumo do guaraná —  sofreu menos danos, quando os cientistas simularam uma série de condições agressivas na experiência. Ou seja, isso prova que as catequinas do pó de guaraná protegem as células de estragos no DNA que, amanhã ou depois, poderiam conduzir ao câncer e a outras doenças degenerativas.

Os testes da USP foram realizados em jejum, mas eis a dica da professora Elizabeth Torres: tudo indica que os compostos benéficos do pó de guaraná ficam ainda mais disponíveis quando o produto é consumido com nutrientes como gorduras, proteínas e carboidratos. Ponto para a turma que gosta de misturá-lo na vitamina de frutas, por exemplo.

Outra coisa: a dosagem diária recomendada de 3 gramas, o equivalente a 1 colher de chá do pozinho, faz ainda mais efeito se você conseguir dividi-la ao longo do dia. Por exemplo, consumindo 1/2 colher de chá de manhã e o restante à tarde. Isso porque, segundo a professora Elizabeth, embora o efeito benéfico dure umas 24 horas, o ideal seria manter estável a quantidade de substâncias antioxidantes no sangue ao longo do dia inteiro. E dividir a dose ajuda ainda mais nesse sentido.

Indagada sobre a cafeína, a professora lembra que seu teor não é algo ruim. Ao contrário. A cafeína do guaraná é que lhe dá a fama de melhorar a performance física nos treinos. E melhora a concentração necessária nos momentos de botar a cabeça para trabalhar.

Claro, pessoas sensíveis à cafeína devem evitar o pó de guaraná a partir do meio da tarde, a mesma recomendação que valeria para o cafezinho e para o chá-verde, sob pena de sofrer de insônia, irritabilidade e taquicardia. Opa, o chá-verde também é lotado dessa molécula estimulante.  Aliás, seria uma boa maneirar na cafeína servida na xícara de café ou de chá, se pretende adotar o hábito de consumir sua colherzinha de pó de guaraná diariamente.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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