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Blog da Lúcia Helena

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Uma forma de bruxismo de que ninguém desconfia causa a maior dor de cabeça

Lúcia Helena

22/03/2018 04h00

Crédito: iStock

A musculatura que abre e fecha a sua boca não é lá muito chegada em trabalho pesado. Ela só se mexe pra valer quando você mastiga, engole ou fala, sendo que, neste último caso, nem se contrai com tanta força assim (ou o que seria de mim, por exemplo, que falo mais do que a tal mulher do padre). Pode acrescentar à lista um bom beijo, roer unhas, mascar chiclete. Enfim, sempre que você movimenta a boca está acionando o músculo temporal e o masseter, que saem da altura do crânio para alavancarem a mandíbula, o único osso da sua cabeça que não é fixo.

Mas, na maior parte do tempo, esses dois músculos vivem bem relaxados. E, nessas horas de descanso, os dentes de cima se afastam dos de baixo, de 2 até uns 10 milímetros. Quer dizer, isso seria o normal. Quando não há essa distância e a dentição inferior encosta na superior, ainda que só bem de levinho, é sinal de que está acontecendo uma contração constante no par de músculos. E eles não têm vocação para a trabalheira constante.

Essa espécie de hiperatividade muscular é chamada pelos especialistas de bruxismo de vigília, uma forma que se manifesta quando você está bem acordado. E que pode se tornar um pesadelo muito pior do que o famoso bruxismo noturno, aquele ranger de dentes durante a madrugada, quando estamos no sétimo sono. Afinal, está por trás de 70% dos episódios da mais comum das dores de cabeça, a do tipo tensional, que martiriza cerca de 8 milhões de brasileiros. E isso quando inflama a articulação temporo-mandibular, a ATM, e todo o inchaço local, em casos mais raros, não aperta a área dos ouvidos causando zumbidos.

O cirurgião dentista Alain Haggiag entende como poucos do problema. Especialista pela Universidade de Paris, onde fez sua pós-graduação, ele voltou ao Brasil para integrar o grupo de pesquisa em dor orofacial do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E foi lá que começou a desconfiar que a queixa de quem sempre era atormentado por dores de cabeça à tarde ou à noitinha não tinha a ver com o bruxismo do sono, velho conhecido.

Hoje se sabe: quem busca tratamento para ele jamais encontra alívio para o latejar da testa no final da jornada, que se repete diariamente ou dia sim, dia não, quando o suplício se torna crônico. E, pior, com o tempo pode deixar a pessoa mais sensível a todo tipo de sensação dolorosa, em outros cantos do corpo.

Ora, boa parte do período em que estamos dormindo, os músculos da cabeça aos pés permanecem completamente relaxados. Por isso, segundo o especialista, embora o bruxismo noturno possa desgastar os dentes e até mesmo fazer o sujeito acordar com as bochechas ligeiramente doloridas, as contrações musculares não durariam o suficiente para justificar as cefaleias ao final do dia. Foi daí que começou a suspeitar do bruxismo de vigília.

E atenção: disparado pelo estresse, pela ansiedade, por todas as nossas amarguras,  esse bruxismo tem a ver apenas com a musculatura contraída. Os dentes, como costuma dizer Haggiag, são mais vítimas do que vilões. Mesmo que a sua oclusão não seja das mais harmoniosas, que estejam desalinhados ou algo assim, eles não teriam culpa no cartório.

Quem sofre do bruxismo de vigília viveria encostando a arcada inferior na superior ainda que só lhe restassem as gengivas, isto é, se fosse completamente banguela. É um hábito. E dos mais inconscientes.

Poucos se dão conta da mania. Mais de 80 por cento dos pacientes, quando são indagados se passam o dia tocando os dentes de cima com os de baixo, afirmam que não têm a menor noção. Ou negam. Até porque todos têm a ideia, equivocada, de que é preciso cerrar a boca com força para estar fazendo algo errado. Nada disso. Vale repetir: basta uma aproximada de nada entre os dentes, se ela perdurar ao longo do dia. Isso já tensionaria demais o masseter e o músculo temporal.

Para resolver o problema, Alain Haggiag, em parceria com o professor José Tadeu Tesseroli de Siqueira, que lidera o departamento de dor orofacial da USP, desenvolveu um dispositivo. Patenteado com o nome de DIVA,  ele foi apresentado com sucesso em eventos científicos no país e no Exterior, como no encontro ocorrido na semana passada do Collège National d'Occlusodontologie, em Bordeaux, na França.

Usado durante o dia, discretamente na parte de trás da arcada dentária, o dispositivo reeduca os pacientes, seguindo o princípio do biofeedback. O objetivo, segundo Haggiag, é tornar o indivíduo consciente do momento em que encosta os dentes uns nos outros para, então, imediatamente relaxar a boca. Nos 130 casos tratados desse jeito, a estratégia funcionou após 45 dias em média. E as dores de cabeça deram trégua sem o uso de remédios.

Só dá certo, porém, porque o dispositivo é feito totalmente sob medida para cada pessoa. E, aí, não se trata apenas de moldar as arcadas dentárias. O paciente se submete a exames como o da eletromiogradia, que mede a atividade muscular. E assim o dentista descobre qual a distância exata  entre os dentes quando os músculos da sua boca ficam totalmente relaxados. Para uma pessoa ela pode ser de 3 milímetros e para outra, de 9. Qualquer ínfima diferença causaria mais e mais dores, em vez de aplacar de vez o tormento. E isso, sim, seria bruxaria, das mais cruéis.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.