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Blog da Lúcia Helena

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Na cabeça do torcedor, o espírito da Copa vai ganhar de virada

Lúcia Helena

14/06/2018 04h00

Crédito: Dennis Grombkowski – FIFA

O meme corre solto: "Espírito da Copa, se estiver entre nós, dê um sinal". Pudera. Em campo, batem bola nossos adversários, acostumados com peladas em Brasília, dando chapéu em quase 209 milhões de brasileiros. Tem até jogador de fora,  como um ruivo esquisito e louco pra cavar falta e um russo que se acha o dono da bola.  A catimba desse time pega em um tal de corpo amigdaloide, estrutura bem no miolo do cérebro. Mas aposte na zebra: esse jogo de torcedor desanimado ainda vira. Pois sua caixa craniana é que é cheia de surpresas.

O corpo amigdaloide é responsável pela nossa memória emocional. Aconteceu algo? Muito bem: é como se colasse no fato a etiqueta de uma emoção antes de ele ser arquivado. E, você sabe, ainda apita a lembrança de um 7 a 1, pra piorar dentro casa — com que sentimento está etiquetada? Quando essa recordação vem à tona, dá aquela ressaca de futebol.

Claro, nada se compara ao noticiário dos últimos meses, registrado pela pequenina estrutura cerebral com a marca do medo ou da raiva. E fisicamente, no sistema nervoso, a alegria de uma Copa compete pelo mesmíssimo espaço disso tudo rolando pelo país. Mas não é só por causa do azedume ocupando a mente que o espírito da Copa demora a calçar as chuteiras.

A posse da bola também está com o hipocampo, outra área do sistema nervoso central. Sua função é discriminar, entre as memórias, o que é mais relevante para a nossa sobrevivência no dia a dia e criar, a partir disso, uma hierarquia. Aí mesmo é que a disputa fica desigual: pelo critério do hipocampo, então, é para  pensar na lesão do Neymar ou se terá comida no supermercado? Lembrar, primeiro, do Gabriel Jesus ou, quem sabe, de suplicar ao seu meio-xará para que segure a inflação, o emprego, a saúde?

Ainda assim, a tendência é fazermos a finta nisso tudo, segundo o psicobiólogo Ricardo Monezi, pesquisador em neurociências do comportamento na Universidade Federal de São Paulo. Monezi narra como poucos as jogadas dentro da massa cinzenta. E comenta que  o nosso cérebro é antes de mais nada sensorial. "Estímulos visuais, por exemplo, como bandeirinhas e rostos pintados, têm um impacto forte sobre o seu funcionamento", observa.

O hipocampo, mais objetivo por natureza, memoriza a data: domingo, às 15 horas.  Até o fator cultural — neste país, crescemos ouvindo falar de futebol — conta, sim, para ele dar alguma bola ao jogo de estreia, mesmo se estiver na cabeça de alguém menos ligado ao esporte.

A partir daí, hipocampo e corpo amigdaloide, juntos no lance, criam um estado de ansiedade crescente. Para uns, isso começa quando Zabivaka, a mascota oficial da Copa na Rússia, aparece na abertura no estádio Luzhniki de Moscou. Para muitos — eu! — , só instantes antes de a Seleção pisar no gramado. Difícil alguém driblar a visão da camisa-verde amarela e o som do hino e das cornetas. Estímulo sensorial, lembra-se? Goste ou não goste, a reação é neurobiológica.

O cérebro na arbitragem autoriza o início do jogo. Corpo amigdaloide, soterrado de estímulos sensoriais, bate de trivela para o hipotálamo, que governa várias funções no organismo. Hipotálamo lança a informação para a glândula hipófise, também no cérebro. Hipófise dá um chutão para as distantes supra-renais, logo acima dos rins. E, daí, três hormônios entram em campo, convocados por essa dupla de glândulas.

O cortisol acelera o coração, deixa o torcedor meio ofegante e dá uma sensação de ímpeto. Esse hormônio mexe até com o fígado, que despeja muita glicose no sangue. É energia na veia.

Já a adrenalina  desperta a euforia. E, mais devagar, provocando um friozinho na barriga, chega a noradrenalina, que também é responsável pela raiva. Se um dos nossos artilheiros chutar na trave, aí você verá esse hormônio subir pra valer.

O estado de ansiedade só ameniza passados, em média, 10 minutos de jogo, estima Ricardo Monezi. Ou seja, nesse período o trio noradrenalina, adrenalina e cortisol vai caindo até que…  Imagine (batendo na madeira três vezes) um gol relâmpago dos suíços. O cortisol  fabricado pelas supra-renais dispara, reforçando o medo de perder, que é sentido no hipocampo cerebral. Sobe de novo a noradrenalina da raiva — é quando dá vontade de xingar a progenitora do juiz. Para completar, no cérebro, o córtex pré-frontal direito fica muito ativado.

O córtex é a superfície da massa cinzenta e a área pré-frontal é, mais ou menos, na altura da lateral da sua testa. Nessa região, só que no lado direito, fica o pedacinho maldito da sua cabeça que enxerga tudo de ruim que pode acontecer. Para Monezi, é o endereço do pessimismo. Pois então você já sabe: é o córtex pré-frontal direito que faz muita gente desligar a TV antes de uma partida acabar.

Agora imagine que a Seleção virou o jogo. Inverte: é o córtex pré-frontal esquerdo que passa a ficar muito ativado. E esse, ufa!, é o lado do otimismo. Quando a rede estica então…  É só ouvir "goooooooool" e vem a adrenalina.  A torcida vibra e, bem provável, o time cresce. Bom lembrar que o estímulo visual e sonoro das arquibancadas impacta os corpos amigdaloides e outras estruturas cerebrais dos  jogadores.

Todas essas reações, amplificadas, culminam com uma inundação de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como a serotonina e a dopamina. Há ainda uma forte descarga de endorfinas, substâncias famosas por diminuírem a percepção de dor física, mas que, nesse contexto, trazem a sensação de alívio imediato. O curioso, me contou Monezi, é a tendência de, nessas horas, o torcedor gritar, pular, se mexer: "Não tem a ver só com a alegria. É uma reação nervosa para ajudar gastar toda aquela energia, incluindo a glicose no sangue, acumulada nos momentos mais tensos."

Fim de jogo, como o cérebro molhou a camisa, brota até um cansaço. Além disso, ao assistir atentamente ao bate-bola, é possível que o organismo tenha redistribuído o sangue pelo corpo, privilegiando o cérebro em detrimento do aparelho digestivo. Daí que, passados os 90 minutos críticos e a circulação voltando ao normal, talvez apareça a fome — ou mais fome. E, se a vitória for realmente nossa, ela não virá sozinha. Afinal, aprendi que, no cérebro, o medo de perder  — medo que terá sido, ele próprio, o maior derrotado — disputa literalmente o mesmíssimo lugar da esperança. A poesia é dos neurônios e não, minha.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.