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Blog da Lúcia Helena

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As vantagens de malhar os músculos antes, durante e depois de um câncer

Lúcia Helena

17/06/2018 04h00

Crédito:Istock

Ouvi uma boa historinha no Ganepão 2018, um dos maiores congressos de nutrição da América Latina, que acaba de acontecer em São Paulo e que vem englobando a atividade física como parceira perfeita do prato balanceado. É a história de um Jorge, que bem poderia ser uma Maria, um João, um Pedro… Você certamente conhece alguém assim.

Pois bem, Jorge cresceu com aquela alimentação básica de uma amorosa família brasileira: docinho na lancheira, sobremesa, bolo caseiro à tarde, um big lanche nos finais de semana. Preferia assistir à tevê com seus coleguinhas do que ir para a aula de esportes. Na adolescência, frequentava baladas, passou a beber e se apaixonou por Joyce. Para impressioná-la, fumava com os amigos. O namoro engatou e ele ficava o dia inteiro pendurado no telefone. Fez faculdade com afinco, tornou-se um grande executivo e, dedicado à carreira, comia em 15 minutos e não sobrava tempo para se exercitar. Engordou, até que, num belo dia, soube que estava com câncer. Então ouviu do médico que precisa começar a fazer uma atividade física.

Talvez você estranhe o finalzinho. Ora, se Jorge não mexeu o corpo ao longo de uma vida inteira, isso lá seria hora para começar?! A resposta é sim. Este é o ponto do médico intensivista Ivens Augusto Oliveira de Souza. Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, doutor Ivens um dia pensou em seguir a Medicina do Esporte. Afinal, em Florianópolis, quando não estava com a bola no pé, estava sobre a prancha de surf. Mas depois viu que gostava mesmo era de tratar pacientes graves, internados em uma UTI (ou CTI, como se diz em alguns lugares do Brasil). Hoje, ele trabalha com esses doentes sob cuidados intensivos no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. E, ali, juntou suas paixões, levando a atividade física  para eles também.

No caso do câncer, a ciência mostra que o exercício é importante sempre. Ou seja: antes, como estratégia de prevenção, após o diagnóstico, durante a quimioterapia, para a cirurgia, durante a internação em uma unidade intensiva e, depois, para reabilitar o corpo da temporada nessa UTI.

Se a gente pensar na atividade física para afastar a ameaça de um tumor, um estudo grandioso, publicado há dois anos, acompanhou nada menos do que 1,4 milhão de indivíduos mundo afora. E descobriu que o sedentarismo aumenta barbaramente a incidência de pelo menos 13 tipos de câncer, como o de fígado, pulmão, rins, endométrio, mama, cabeça e pescoço, mais a leucemia mielóide, entre outros.

Claro, o próprio doutor Ivens lembra que esse é apenas um fator de risco, embora importante. "Também é fundamental ter uma alimentação equilibrada e reduzir a obesidade", explica.

Um das explicações sobre a importância  do exercício físico no câncer é justamente mudar a composição da massa corporal, fazendo o praticante perder gordura e ganhar músculos. Nossas banhas produzem moléculas inflamatórias, como as adipocinas. E, quando elas dão sopa no sangue,  criam  um cenário de inflamação crônica que é bastante favorável ao aparecimento de tumores.

Já os músculos estimulados pelo exercício, na contrapartida, liberam moléculas como as catecolaminas. E elas, por sua vez, estimulam a maturação de células imunes que nos protegem do câncer, destruindo formações malignas antes mesmo de manifestarem a encrenca.

Para a plateia do Ganepão, o médico mostrou um estudo norueguês, que acompanhou pessoas de 40 a 59 anos ao longo de nada menos do que  quatro décadas. O trabalho demonstrou que tornar-se fisicamente ativo nessa faixa etária também tem efeito preventivo. Os participantes faziam exercício 300 minutos por semana.

E depois do diagnóstico? Segundo o doutor Ivens diversos trabalhos deduzem que o exercício  segura a progressão do câncer e diminui a mortalidade. "Isso porque, de novo, diminui a inflamação e, principalmente, aumenta a massa muscular. Ganhar músculos é uma estratégia barata que eleva demais as chances de alguém superar a doença", assegura.

Outro ponto: o exercício alivia a depressão, compreensível depois da notícia de um câncer, e contra-ataca a fadiga física, que surge com frequência nesses pacientes, contribuindo para a sua debilitação.

Hoje as diretrizes para o paciente com câncer são claras: procurar fazer 150 minutos de exercícios aeróbicos por semana, intercalados com sessões de exercício de resistência, como a musculação, pelo menos duas vezes por semana. Claro, o oncologista sempre deve avaliar cada caso para, se necessário, ajustar essa recomendação.

Nem mesmo a quimioterapia é motivo para alguém parar de suar a camisa. Ao contrário: o estado que os médicos chamam de sarcopênico, quando diminui a massa magra no organismo, não só reduz a ação esperada de drogas quimioterápicas comuns, como pode aumentar a toxicidade do tratamento. Portanto, os efeitos colaterais tendem a ser mais intensos.

Até mesmo nos casos cirúrgicos, as complicações são maiores em quem está com com sobrepeso e a musculatura fraca. Por isso, se ela estiver minguada e flácida, a recomendação é, se for possível esperar poucas semanas para entrar no bisturi,  que o paciente faça 20 minutos de exercício aeróbico seguidos de outros 20 minutos de musculação noe período pré-operatório.

No caso dos pacientes internados na UTI, o que se nota é que aqueles com pouca massa magra e com, pra piorar, uma qualidade de músculo ruim por assim dizer — com muita gordura entremeada nas fibras — não suportam tanto o período critico da doença e o risco do desfecho ser triste aumenta, Por isso, nos grandes hospitais, a tendência cada vez maior é levar para esses ambientes aparelhos que simulam a musculação, fazendo o músculo se contrair com resistência. E, claro, a atividade física continua importante  para quem sai da UTI ter a oportunidade de se recuperar de vez.

O fato é que o exercício, que há tempos já entrava nas estratégias de prevenção do câncer, agora faz parte pra valer do tratamento. E se mexer para ficar vivo e saudável  sempre valerá a pena.

 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.