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Blog da Lúcia Helena

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Por que a ora-pro-nóbis é um dos alimentos mais ricos da nossa cozinha

Lúcia Helena

05/07/2018 04h00

Crédito: Istock

Compartilho com a nutricionista Claudia Alves duas frustrações. Como ela, há tempos procuro trabalhos científicos sobre os benefícios da Pereskia aculeata Miller para a saúde. Mas a popular ora-pro-nóbis, tão querida na cozinha dos mineiros — sorte a deles! —, tem sido foco de muita pesquisa sobre clima, solo, agricultura… Difícil achar dados cientificamente corretos sobre seu papel na nutrição — missão dada à Claudia, no último congresso do Ganepão, que aconteceu há menos de um mês. Professora da Universidade Federal de São Paulo, onde coordena o Laboratório de Nutrição Clínica e Experimental, ela reuniu todo o conhecimento disponível sobre a planta e o ofereceu a uma plateia atenta.

A outra frustração da nutricionista é não achar a ora-pro-nóbis com facilidade na região onde mora, Santos, no litoral paulista. Apesar de bastante consumida em Minas Gerais, a espécie faz parte do grupo das PANCs, as plantas comestíveis não-convencionais, e é difícil vê-la em centros de distribuição, como um Ceasa, pelo resto do Brasil. Eu também sinto a mesma coisa: queria comprar ora-pro-nóbis  na esquina, mas não a encontro. Se bem que, nas ruas paulistanas por onde passo, é bem capaz de eu cruzar com a planta em algum canteiro, sem ligar as folhas à espécie, usada desde sempre para enfeitar canteiros e jardins.

Aliás, o nome em latim, que significa "rogai por nós", vem daí: reza a lenda que escravos e pessoas pobres aproveitavam o horário das missas, quando muita gente estava concentrada nas orações, para surrupiar a ora-pro-nóbis nos arredores das igrejas e colocá-la no prato para matar a fome. A escolha era mais do que sábia.

Ora, cerca de 25% da composição da ora-pro-nóbis é proteína da melhor qualidade. Vamos lá: em 100 gramas, são de 14 a 30 gramas desse nutriente, sendo boa parte aminoácidos essenciais, como a arginina, a leucina e o triptofano. Ou seja, opção mais do que apropriada para suprir as necessidades proteicas de vegetarianos e ainda dar uma força aos músculos da turma que malha.

Talvez você estranhe a variação na quantidade de proteínas, que parece tão grande — de 14 a 30 gramas, repetindo. Bem, a composição nutricional de toda planta se altera conforme solo, clima, condições de cultivo… Mas digamos que a ora-pro-nóbis é extremamente sensível nesse sentido. Segundo Claudia Alves, alguns trabalhos mostram que, se ela cresce na sombra e água fresca, aumentam os seus teores de proteína. Já se nasce em terrenos ensolarados, a radiação solar provoca uma elevação de micronutrientes antioxidantes. De qualquer maneira, faça chuva ou faça sol, na sombra ou na meia-sombra, sua riqueza nutricional é de cair o queixo.

Nos tais 100 gramas das folhas, você encontra até 39 gramas de fibras, quando a recomendação diária vai de 20 a 30 gramas. Ou seja, dá para superar a necessidade de todo dia fácil, fácil. "E 5% dessas fibras são solúveis, aquelas que ajudam a arrastar o colesterol para fora do organismo", diz a professora Claudia ao blog. O restante ajuda no trânsito intestinal e traz muita saciedade.

Nessa mesma quantidade de ora-pro-nóbis, são também mais de 500 miligramas de cálcio, enquanto na porção de leite desnatado equivalente a esses 100 gramas são apenas 123 miligramas. Em matéria de ferro, outro espetáculo. Fala-se tanto em fontes como o fígado de boi, mas um bife pesando os 100 gramas contém  5,8 miligramas do mineral que evita a anemia. E a ora-pro-nóbis? Incríveis 14,2 miligramas ferro. Ela também supera as expectativas, com seus 26,7 miligramas em 100 gramas, na oferta de zinco — o mesmo peso de patinho , uma carne magra, tem só 8,1 miligramas desse nutriente que ajuda o sistema imunológico a ficar de prontidão.

Há ainda uma fartura de magnésio, potássio, cobre, fósforo, manganês, vitamina A, betacaroteno e vitamina C — aliás, vitamina C equivalente a umas quatro laranjas maduras. É uma quantidade espantosa de nutrientes em uma hortaliça só.  A maior concentração está mesmo nas folhas. Mas não desperdice os talos, porque há um bocado de vantagens nutricionais neles também. Aliás, nem deixe de comer as flores, se conseguir encontrá-las, já que só brotam entre janeiro e abril.

Enfim, se tiver a sorte de achar ora-pro-nóbis por aí, você pode refogá-la purinha e bem temperada ou junto com outros ingredientes — de carnes a verduras. Noutro dia, experimentei ora-pro-nóbis no molho de uma polenta, algo que pode ser bem diferente da culinária mineira. E trocando figurinhas — para não dizer ideias culinárias —com a professora, descobri que as folhas caem muito bem em um pesto, no lugar do tradicional manjericão. Só em saladas é que pode ficar mais difícil de engolir, porque as folhinhas,  extremamente macias depois de cozidas, são rígidas demais quando cruas.

Hoje, vale lembrar, é possível encontrar a opção da ora-pro-nóbis desidratada e em pó. Aí vale salpicar no molho da salada ou até mesmo em sopas e outros pratos, só para enriquecê-los. O sabor é bem sutil, neutro. E, claro, para quem treina o pozinho cai feito luva em shakes, elevando os teores da bendita proteína na dieta.

Pergunto à Claudia Alves por que, na visão dela, a ora-pro-nóbis é menos estudada do que outras tantas verduras e frutas. Na sua opinião, o motivo é simples: pesquisas custam muito caro e a maioria depende do financiamento de grandes grupos que ainda não enxergaram o potencial da ora-pro-nóbis. Ao meu ver, é o problema de muitas espécies nativas brasileiras. Mais fácil a gente encontrar trabalho sobre benefícios das cranberries e de outras berries do que sobre a nossa jabuticaba, por exemplo. Fazer o quê! Se Deus é mesmo brasileiro, rogai por nós e pelo nosso prato, oremos.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.