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Blog da Lúcia Helena

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Agrotóxicos desregulam perigosamente os nossos hormônios

Lúcia Helena

17/07/2018 04h00

Crédito: iStock

No seu prato de salada ou naquela fruta fresquinha podem se esconder substâncias capazes de tirar os seus hormônios de lugar: são o que os médicos chamam de desreguladores endócrinos e que outros apelidam, ainda, de disruptores endócrinos. Tanto faz o nome. No caso dos vegetais, quem faz a bagunça hormonal são os famigerados agrotóxicos.

Existem mais de 800 substâncias presentes no dia a dia suspeitas de atrapalhar um bocado o sistema endócrino. Podem estorvar o trabalho das glândulas, impedir seus hormônios de agir ou trapacear o organismo fingindo ser, elas próprias, hormônios também.

Nem todas as moléculas baderneiras vêm das lavouras pulverizadas com defensivos agrícolas. Há, por exemplo, o bisfenol de certos plásticos, produtos usados para tratar o couro ou para fabricar revestimentos antiaderentes, poluentes encontrados no ar, restos de remédios que descartamos de qualquer jeito…

Só que a principal via de contaminação do nosso corpo por desreguladores, apontam centenas de estudos mundo afora, é mesmo a cadeia alimentar. Então…

Não só comemos vegetais impregnados de agrotóxicos, como os animais também ingerem hortaliças cheias de pesticidas, os quais, ainda por cima, alcançam lençóis de água e chegam aos rios. No nosso organismo, as alterações hormonais provocadas quando ingerimos essas substâncias estão por trás do aumento de uma série de problemas, da infertilidade ao câncer. E o que era ruim sempre pode piorar…

Sob essa ótica — a dos hormônios desregulados —-, no finalzinho da semana passada a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP) fez mais um alerta sobre o perigo que é o projeto de Lei dos Agrotóxicos, o PL 6299/2002, aprovado pela Câmara dos Deputados. Recapitulando, a lei propõe que as substâncias químicas permitidas nas lavouras sejam aprovadas exclusivamente pelo pessoal da agricultura, sem que a turma que entende do meio ambiente nem o povo capaz de avaliar a ameaça para a saúde — no caso, o time da Anvisa — possam meter o bedelho. Aí mesmo é que nossos hormônios, que deveriam funcionar feito orquestra, desafinarão de vez.

Aliás, a lei também propõe que a gente deixe de uma vez por todas de chamar o que é tóxico de… agrotóxico! Ô, língua maldosa a nossa, insistindo em dar nome aos bois. O legal seria usar o termo pesticida, que parece só espantar as pestes bandidas sem intoxicar os seres humanos "mocinhos" . Ou falar em fitossanitário, que é um termo, sei lá, que soa mais limpinho. Paro de destilar meu próprio veneno por aqui. Melhor eu dar a palavra à ciência.

Quem deu voz à preocupação da SBEM-SP foi a endocrinologista Tânia Bachega: "Muitos agrotóxicos, dentro do corpo, atuam  como o hormônio feminino estrogênio", diz a médica. E, pelo que acompanho nos congressos por aí,  poucas pessoas entendem mais de desreguladores endócrinos neste país do que essa médica, que é também professora da Universidade de São Paulo. "Uma das principais hipóteses para explicar por que há uma incidência de câncer de mama acima da esperada, se a gente compara novos casos da doença com o crescimento da população, é justamente o poder que um agrotóxico tem de bancar esse hormônio".  Vou logo avisando, esse fingimento também está associado a de tumores de próstata e intestino.

Até mesmo no caso dos defensivos aprovados no país atualmente — antes de um projeto de lei passar feito um trator sobre a nossa saúde — , o que se conhece é apenas o efeito tóxico em animais. Isso porque, ninguém faria experiências com seres humanos, dando um veneno e pagando pra ver a dose que o mataria. Digo, nenhum cientista faria isso. Também é conhecido aquilo que seria um risco aceitável, isto é, o limite de ingestão que supostamente aguentaríamos sem sofrer as consequências. No entanto, ninguém sabe como essas substâncias agem em conjunto dentro de nós. Será que, juntas, fariam  mais danos?

Para Tânia Bachega, a questão se mostra até mais complicada, como explicou ao blog: "Quando falamos que um agrotóxico desregula os hormônios, ele não precisa alcançar o nível tóxico para fazer isso. Uma dose muito inferior a esse limite de toxicidade pode já ter o efeito de desregulador endócrino",  garante.  Nas minhas palavras: o perigo mora bem abaixo do tal risco aceitável.

A ilusão de alguns de nós de que tudo vai bem no campo vem do fato de que os efeitos nefastos dos desreguladores endócrinos demoram anos para aparecer — período enganador em que parece que nada de errado está acontecendo com a saúde. Vale observar que fetos e crianças menores de 3 anos são mais suscetíveis aos estragos que, por vezes, só se manifestam na vida adulta.

A presença de uma substância dessas no corpo também pode levar outros tantos anos para desaparecer. As dioxinas do DDT, por exemplo, são acusadas de provocarem infertilidade, aborto, diabetes, endometriose e, como se tudo isso fosse pouco, problemas imunológicos. Aí você irá dizer que o DDT foi banido do país há um tempão. Foi mesmo, tem razão. Desde 1985, para ser precisa. Porém, no sangue das pessoas que comeram alimentos pulverizados com DDT,as moléculas por trás dos seus malefícios continuam presentes. De acordo com Tânia Bachega,  elas ficam estocadas na gordura corporal e continuam sendo liberadas até longos quarenta anos depois. Pois é, quarenta anos.

Além do câncer, agindo como desreguladores endócrinos os agrotóxicos provocam alterações nas funções sexuais, puberdade precoce, crescimento de mamas em meninas menores de 5 anos, diabetes, infertilidade, malformações fetais, pré-eclâmpsia, aborto, endometriose, disfunções de tireoide, obesidade…

As consequências de tirar hormônios do prumo de um organismo saudável são terríveis. Por isso, países como os da União Europeia estão cada vez mais espertos em relação a essas substâncias. Já sacaram que a colheita dos prejuízos pode demorar, mas será farta. Enquanto, aqui, plantam uma lei achando que vamos engolir calados. Não engula. Cuspa ligeiro, porque é veneno.

 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.