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Blog da Lúcia Helena

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Para os pulmões, não tem bebê ligeiramente prematuro. É prematuro mesmo

Lúcia Helena

19/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Ah, os pulmões… Na barriga da mãe, eles não têm a menor pressa. Aguardam até o instante derradeiro, dormentes, enquanto não chega, com a força de um berro, o primeiro sopro de ar. Procrastinadores? Talvez. Deixam para amadurecer só no último mês de gestação. E, porque isso acontece em cima da hora, qualquer semana a menos  interrompe um processo que —  nem preciso explicar a razão — é vital. Uma semaninha faz diferença e há quem dia que um único dia a mais já seria crucial. Cai um por terra, assim, o conceito de que o prematuro tardio é apenas um bebê que, prontinho, aguarda ganhar peso. Para ele, respirar pode ser um desafio tão grande quanto para prematuros ainda mais apressados.

Segundo a Medicina, o prematuro tardio é aquele que vem ao mundo no período entre 34 semanas e 36 semanas e 6 dias de gestação. E saiba: 7 em cada 10 prematuros nascidos no Brasil são tardios, como aprendi com a neonatologista Jucille do Amaral Meneses, professora da Universidade Federal de Pernambuco. No próximo sábado, 21 de julho, ela apresentará em São Paulo, durante o II CENTRIC — Conferência de Atualização Médico Científica,  o cenário da prematuridade no país.

São perto de 40 brasileirinhos nascendo prematuramente por hora, mais de 900 por dia, uma média de 350 mil por ano. Feitas as contas, 11,7% dos bebês nascidos vivos no Brasil. Essa taxa é quase duas vezes maior do que a de países europeus. Pesa nessa história o número absurdo de cesáreas. E é triste também constatar: faltam 3.300 leitos em UTIs neonatais para receber essa criançada, de acordo com um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria. A carência se concentra no Norte e no Nordeste, onde gestantes de alto risco peregrinam de hospital em hospital atrás assistência para um prematuro.

Que mulheres, de antemão, sabem que correm maior risco de o bebê nascer antes da hora? Mães de gêmeos, diabéticas e hipertensas, principalmente. Aliás, a pressão arterial nas alturas é a principal causa de indicação médica para fazer o parto antes do tempo de gestação findar. Aí a cesárea com data antecipada pode ter um bom motivo, evitando ameaças fatais para a mãe e o seu bebê. E, como em uma sociedade com índices elevados de obesidade os casos de diabetes e de hipertensão só aumentam, o nosso alto número de prematuros não deve cair tão cedo — é a dedução lógica.

Erros no pré-natal também podem fazer o médico calcular mal a idade gestacional e marcar a cesárea, achando que chegou o tempo de nascer sem haver sinais de contrações— é quando a grávida não se lembra direito da data da última menstruação, por exemplo, e o bebê parece, pelo ultrassom, relativamente grande.

Esse prematuro, embora a rigor seja menos frágil do que aquele que nasceu com menos de 34 semanas, também precisa de vigilância constante nos primeiros dias. É preciso acompanhar se consegue sugar o leite, se suas células de defesa estão minimamente aptas para defendê-lo das primeiras ameaças do mundo exterior, se ficará ou não todo amarelado por icterícia… Mas os pulmões, sem dúvida, são a peça-de-resistência sempre.

Pare para pensar: todos os outros órgãos fazem, ainda no útero, o seu test-drive. O coração bate, os músculos se movimentam, o sistema digestivo treina com uns goles do líquido amniótico, os rins… Bem, até xixi a criança faz na barriga da mãe. Mas os pulmões… Eles são testados na prática, na hora agá, na vida como ela é, sem mamãe entregando oxigênio pela placenta. Precisam mostrar a que vieram quando o médico corta o cordão umbilical.

Centenas de fatores estão envolvidos nesse momento crucial — que são também centenas de oportunidades para algo não ir tão bem quando se nasce prematuro. De longe, o principal pode ser a falta de surfactante pulmonar, um líquido formado de proteínas e gorduras que banha as células dos alvéolocos, os milhões de sacos microscópicos dos pulmões que, feito bexigas, se enchem e se esvaziam de ar, promovendo a famosa troca do gás carbônico pelo oxigênio.

Sem o tal surfactante suficiente, o que era para ser tão simples quanto respirar fica difícil. Os alvéolos, tensos, exigem uma força descomunal cada vez que se inspira — de novo, comparando com a bexiga, quem aí já fez força para começar a encher uma até vencer a pressão? A mesma coisa. Pobre bebê prematuro, se não recebe remédios para acelerar o aparecimento do surfactante e a ajuda, muitas vezes, de máquinas capazes de fazer força para o ar entrar por ele.

A ideia equivocada de que o prematuro tardio só precisa crescer — que já teria surfactante o bastante — faz com que muitos recebam alta antes de 48 horas nas maternidades brasileiras. Em tempos cinzentos, quando acabamos de ler nos noticiários que a mortalidade infantil, após 26 anos, voltou a subir no país — aumentou 5% — , prestar atenção nos prematuros é ainda mais importante.

Isso porque perto de 70% das mortes, segundo a professora Jucille , acontecem no primeiro ano de vida. Se colocamos uma lupa nessas crianças, a maioria sucumbiu antes de completar 1 mês. E, se olharmos para os dados, veremos que, entre aquelas que não resistiram nos primeiros trinta dias, a maior parte não passou da primeira semana. Fica claro, então,  que essa é uma semana de vida ou morte, para prematuros tardios, inclusive.

Aproveitei para matar uma curiosidade, pois sou de uma geração que levava um tampa estalado no bumbum como boas-vindas. "Hoje, há maneiras mais suaves de estimular o choro, como friccionar de leve as costas do recém-nascido", ouvi da professora Jucille. Mas a maioria nem precisa disso. Vai logo caindo no berreiro. É que os pulmões precisam do berro para injetar o ar com força e conseguir abrir os alveólos pulmonares, que até então estavam cheios de líquido. Hora de trabalhar, ou melhor, de viver. E a vida pede  um escândalo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.