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Blog da Lúcia Helena

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Se a gente fizesse exercício, os casos de câncer de mama e de cólon cairiam

Lúcia Helena

26/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Se todo brasileiro calçasse os tênis e suasse a camisa pra valer, como se fossemos uma nação inteirinha de esportistas amadores, riscaríamos do nosso mapa pouco mais de 10 mil casos de câncer de cólon e de mama a cada ano. Ou seja, os novos diagnósticos desses dois tipos malignos despencariam uns 10%, confiando nas estimativas para 2018 do Instituto Nacional do Câncer, o INCA. Mas o brasileiro parece suar frio por causa de tanta crise —  da economia, da política e dos nervos — , enquanto economiza gotas de suor em parques, quadras e academias.

Então, vamos botar os pés no chão duro da realidade. No Brasil viável, que não começará a praticar  esporte assim de repente,  se ao menos a gente fizesse o tiquinho de atividade física que a Organização Mundial de Saúde recomenda,  já haveria uma redução anual próxima de 2.300 casos desses dois tumores. Não é nada desprezível. Ora, o câncer de mama é, de longe, o mais frequente entre as brasileiras. E o tumor de cólon, a parte central do intestino grosso, vem em seguida, ocupando o segundo lugar no caso delas. Já nos homens, ele é o terceiro câncer mais comum.

A sugestão da OMS é de a gente se dedicar a um bom exercício durante 150 minutos ao longo da semana. Tenha dó, bastariam 21, 22 minutos diários. Mas o fato é que metade da população nem chega lá. Tudo bem que, para afastar  o câncer, não estamos falando de caminhar pelo bairro sem pressa e apreciando a vista. Só funciona o exercício de moderado a vigoroso. Moderado é aquele nível em que você já precisa fazer algum esforço para falar com a pessoa ao lado enquanto se exercita. Já a atividade vigorosa acelera  os batimentos do coração e deixa a respiração ofegante a tal ponto que só daria para conversar se existisse telepatia.

Na minha cabeça, uma curiosidade apareceu de cara: por que estamos falando só de tumores de cólon e de mama? Fiz a pergunta para o Leandro Fórnias de Machado de Rezende, que acaba de voltar da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para concluir seu doutorado em Medicina Preventiva na Universidade de São Paulo.  Educador físico, na semana passada ele publicou um estudo inédito na revista científica Cancer Epidemiology, realizado em uma colaboração entre Harvard e USP, ao lado de pesquisadores da britânica Universidade de Cambridge e da australiana Universidade de Queensland.

O trabalho trata justamente do impacto da atividade física na incidência  do câncer de cólon e de mama no Brasil. No caso deste último, em mulheres após a menopausa. Isso porque certeza, certeza mesmo, segundo Rezende, a gente só pode ter de que o exercício previne esses casos.

Há uma ideia de que a ginástica afastaria todo e qualquer tumor. Não é bem assim. Leandro Rezende participou de outro estudo, inclusive, no qual revisou mais de 500 artigos científicos focando os elos entre atividade física e 22 tipos de câncer.

Para saber se botar o corpo para malhar ajudaria de fato na prevenção dessas doenças, um dos critérios foi checar a relação entre dose e resposta. Ou seja, conferir se quanto mais exercício, menor o número de pacientes de câncer e se a recíproca seria verdadeira — se quanto menos ativa a população, mais gente adoeceria.  "Essa relação proporcional entre a quantidade de atividade física praticada e o número de novos casos da doença só foi confirmada no cólon e nas mamas",  justifica Rezende.

No que diz respeito a tumores em outros órgãos, malhar ajudaria na prevenção apenas indiretamente, isto é, se a pessoa estiver acima do peso. Isso porque a obesidade favorece vários cânceres. E, no caminho inverso, emagrecer os afastaria. Portanto, o exercício sempre tem o seu papel preventivo ao baixar o ponteiro da balança.

No entanto, na  recente investigação sobre o  impacto na saúde do cólon e das mamas, os cientistas nem deram bola para o IMC das pessoas, mostrando que, nos dois tumores investigados,  praticar atividade física evitaria más surpresas simplesmente por colocar o corpo em movimento, mesmo que o indivíduo seja magro e nem tenha perdido 1 grama se exercitando.

Rezende e seus colegas, primeiro, levantaram o nível atual de atividade física da população brasileira, baseando-se na última Pesquisa Nacional de Saúde, conduzida pelo IBGE. Segundo esses dados, 5,9% das pessoas passam mais de cinco horas por dia treinando. Essa gente foi  deixada de lado na análise Até porque, se todo mundo malhasse desse jeito, o fator de risco da inatividade física não existiria.

Na sequência, olhando para o restante da população como se fosse a totalidade, os pesquisadores imaginaram um cenário em que a quantidade de brasileiros que nem sequer fazem 150 minutos de ginástica por semana encolhesse 10%. Só aí já ocorreria uma redução de mais de 2 mil casos de câncer.

Outro jeito de diminuir os episódios da doença seria se as brasileiras se exercitassem tanto quanto os brasileiros.  É que apenas 44,2% dos nossos rapazes se mexem menos do que a tal recomendação da OMS contra 50,9% das nossas mulheres.

Também diminuiremos o câncer no dia em que, de Norte a Sul do país, todos nós imitarmos os mineiros. Pois Minas Gerais, de todos os estados, é o que tem menos gente treinando por um tempo inferior aos famosos 150 minutos semanais. Enfim, os pesquisadores brincaram diversos cenários e o recado é direto e reto: no mínimo fazer os tais 150 minutos semanais de atividade física.

Segundo Leandro Rezende, o exercício pode prevenir o câncer de cólon e de mama por diversos mecanismos. Além de derreter o acúmulo de gordura, ele barra o excesso de substâncias inflamatórias capazes de induzir as células a se tornarem malignas. Também inibe parte da produção de estrogênio, hormônio que,  em doses elevadas, fomenta tumores. Do mesmo modo como aplaca a resistência à insulina e ajuda a controlar o diabetes, duas condições que facilitam a encrenca toda. E a gente não pode se esquecer de um efeito clássico: melhora o sistema imune, tornando-o mais apto a destruir formações malignas. Um pacote de benefícios pra gente tomar vergonha e espantar a preguiça. E, por tabela, o câncer.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.