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Blog da Lúcia Helena

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Uma cerveja e nove segredos sobre alimentação no tratamento do câncer

Lúcia Helena

02/08/2018 04h00

Crédito: Istock

A notícia reverberou até em sites destinados a médicos, como o Medscape: uma tradicional cervejaria tcheca lançou, mês passado, a edição limitada de uma cerveja formulada para pacientes com câncer de mama que passam pela quimioterapia. Não à toa, o nome é Mamma Beer e, claro, não contém álcool.

Chamou a atenção de todos uma série de cuidados. Além de excluir o álcool, os cervejeiros foram bem assessorados e analisaram as alterações que o tratamento provoca ao paladar. Daí, usaram menos lúpulo para diminuir o amargor , que pode atrapalhar a percepção do gosto nessas pacientes. E acrescentaram pitadas de suco de maçã. O resultado final é uma cerveja ligeiramente mais adocicada, com adição de zinco, que estimularia as papilas gustativas das pacientes, e de diversos outros nutrientes que ajudariam no tratamento.

Bem, já o que me chamou a atenção foi o comentário da oncologista tcheca Karolína Hovorková, que testou o lançamento: "Mais do que qualquer benefício nutricional, o  importante é dar ao paciente de câncer uma sensação de normalidade, sem arrancá-lo dos seus hábitos alimentares e do seu contexto cultural." Diga-se, a República Tcheca é o país que mais consome cerveja no mundo. Ali, cada cidadão bebe, em média, 148 litros dela por ano. Ou seja, o produto faz com que a paciente possa manter, de alguma maneira, esse hábito.

Com essa história na cabeça, fui conversar com a Thaís Manfrianato Miola, líder de nutrição clínica do A. C. Camargo Cancer Center, porque poucos profissionais entendem mais desse riscado do que ela. "Quanto mais conseguimos trazer o habitual da alimentação dentro de um cardápio saudável, melhor", concordou. E me apresentou outro problema, muito moderno e conhecido de todos nós: o terrorismo nutricional. Ele contamina cada vez mais os centros oncológicos.

Vamos combinar o seguinte: o período de tratamento de um câncer decididamente não é a melhor hora de cortar o açúcar, tirar a lactose, eliminar a carne vermelha, espantar o glúten… Afe!  " Agora, quando não são os pacientes quem vêm com essa história, é a família querendo ajudar", observa Thais, que já viu gente sonhando com um cheeseburguer e pensou: por que não? "Tudo vai depender do estado do organismo no momento. Se alguém adora mamão e está com o intestino solto por causa da químio, vai ter que esperar o sintoma sumir para comer a fruta", exemplifica. As orientações a seguir podem dar uma bela nutrida no bom senso.

1. Às vezes, a vida merece um doce

Isso mesmo. Salvo casos em que o paciente tem uma restrição absoluta ao açúcar, que são exceção, ele não está proibido de consumir o ingrediente — com aquela moderação, que vale para pessoas com ou sem câncer. Dizem por aí que o açúcar alimenta o tumor. Mas, segundo Thaís Miola, os estudos que apontam para essa suspeita são pequenos e com uma metodologia frágil. Portanto, esse papo não tem pé, nem cabeça. Uma porção discreta de doce só deve ser evitada quando há náusea ou diarreia.

2. Nem muito sal, nem muito açúcar

Nem vem: eu não estou caindo em contradição!  Já falei que o açúcar pede para a gente maneirar. Idem, o sal. E, como quase sempre o paciente em quimioterapia,  ou mesmo em radioterapia para tratar tumores de cabeça e pescoço, fica com o paladar prejudicado, muito cozinheiro de plantão tenta caprichar enchendo a panela de sal e açucarando a sobremesa. Nada disso. Qualquer exagero pode fazer subir demais a glicose no sangue ou disparar a pressão. Pra quê? Controle mais do que nunca a mão na hora de condimentar. Experimente fazer um sal temperado com ervas, que dá mais sabor com menos condimento, lançando mão de alecrim, coentro, cominho ou do que preferir.

3. Limão para agradar ao paladar

Tudo o que é ácido aumenta a salivação e ela  amplia a sensibilidade do paladar. Por isso, a dica de Thaís Miola é pingar algumas gotas da fruta diretamente na língua do paciente instantes antes da refeição. Vale trocar o limão por uma laranja azedinha. Só não use a estratégia se a pessoa apresenta mucosites, pequenos ferimentos na boca provocados pelo tratamento. Aí, claro, a acidez só vai causar dor.

4. Às vezes, usar garfo de plástico ajuda

Algumas drogas quimioterápicas fazem a pessoa sentir gosto metálico até na água. Substituir os talheres de inox ou de prata não resolve de vez, mas evita que a sensação piore a cada garfada.

5. Café, sim, mas chá talvez não

O velho e ótimo cafezinho, sem exagero, está liberado — quem disse que não? Já o chá vai depender do tipo de quimioterapia. A Camellia sinensis que dá origem aos chás preto, verde e branco notoriamente atrapalha o efeito de algumas drogas usadas no combate ao tumor.

6. Respeite as preferências

Não é porque couve tem ferro que alguém que nunca gostou de couve deverá comê-la só por causa do câncer, tenha dó! Sempre há alternativa. O que me faz lembrar…

7. Fuja de suplementos como o diabo da cruz

A não ser que o médico e o nutricionista que acompanham o caso peçam, basedos em evidências de exames — e não porque o sujeito fecha a boca para isso ou para aquilo. Deixa eu lhe contar: o mais sensacional dos antioxidantes não faz distinção entre o bem e o mal. Do mesmo jeito como protege as células saudáveis, quando usado na prevenção, ele defenderá as malignas dos ataques da quimioterapia. Thaís Miola explica que a químio faz o corpo produzir um bocado de radicais para arrasar com um tumor e, nessa situação, viva essa turma dos radicais! A ideia é fazer de tudo para o tumor permanecer frágil, ok? Suplementos podem ir contra essa direção.

8. Álcool? Definitivamente só depois

A Mamma Beer, lembrando, não tem álcool.

9. Cuidado com aquele camarão

Apesar de dizer que o paciente pode comer um pouco de tudo, Thaís Miola prefere que ele se afaste dos frutos-do-mar. A razão não é nutricional e, sim, de segurança. "Seria preciso ter muita confiança na procedência", diz. Ora, o paciente de câncer deve ficar longe do risco de uma intoxicação alimentar. Pelo mesmo motivo, cuidados de higiene na cozinha devem ser redobrados.

Para encerrar…

Meu conselho é procurar  um nutricionista que entenda de câncer. Ele é peça fundamental do tratamento, não só para garantir todos os nutrientes que darão aquela força para uma bela vitória, mas para dar mais sabor e ânimo em cada batalha. Comer algo gostoso é uma das graças de se manter bem vivo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.