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Blog da Lúcia Helena

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Por que a criança não come? A causa pode estar na cabecinha dela

Lúcia Helena

07/08/2018 04h00

Crédito: Istock

Para quem está de fora, o choro no instante de enfrentar a colherada parece até birra ou desgosto — pronto, trouxeram a opção errada do cardápio! Dentro da cabeça da criança, porém, simplesmente ainda não é hora de comer.

Pode ser que não adiante trocar a receita da papinha, disfarçar a carne no caldinho do feijão — quem nunca? — , pedir para a vovó fazer a refeição do neto com toda a sua sapiência no fogão. Isso porque, às vezes, o desenvolvimento cognitivo é o ingrediente principal da história. Só que poucos falam disso — e, entre os poucos, está a fonoaudióloga Patrícia Junqueira.

Especialista em problemas orofaciais, ela é autora do livro Por Que Meu Filho Não Quer Comer? Uma Visão Além da Boca e do Estômago, da Idea Editora, E deu um show de aula durante o Hot Topics em Pediatria, evento promovido pelo Ilsi Brasil no sábado passado. Para quem não sabe, o International Life Sciences Institute, ou Ilsi, é uma entidade sem fins lucrativos fundada há quarenta anos em Washington, nos Estados Unidos, que promove a troca de conhecimentos de cientistas de diversas áreas da saúde.

No evento, Patrícia fez a boa provocação: "Ainda hoje, vejo muito pediatra só focado na idade cronológica. Então, fica aquela ideia: se o bebê tem 6 meses, ele está pronto para a papinha. Completou 1 ano? Já pode mastigar. Com 2 anos ou menos até, ele precisa estar ingerindo a comida do restante da casa. E eu pergunto: quem disse?"

De fato, a idade cronológica é importante, mas como parâmetro. Há um enorme mito: o de que você senta a criança no cadeirão, insiste com paciência de Jó por fora (e nervos em frangalhos por dentro) até que em determinado momento, como já estaria supostamente na idade certa, ela passará a comer bonitinho e a família será feliz para sempre nas refeições. Ntz, ntz, ntz…

Mastigar e engolir a comida é uma função aprendida e, para isso, a criança precisa ter desenvolvido algumas habilidades e competências, como para aprender a andar. Primeiro, o bebê se arrisca a ficar de pé sozinho. Pode até cair de bumbum no chão, mas treinou seus músculos e seu esqueleto. Principalmente, treinou seu sistema nervoso.

A criança também deve se sentir engajada. De novo, comparando com aprender a andar, é aquele brinquedo favorito deixado fora do alcance de suas mãozinhas, sabe? E, assim como ninguém faz uma criança dar os seus primeiros passos, no máximo lhe dá uma força, saiba: ninguém faz uma criança comer. Ela vira uma comensal só quando seu sistema nervoso tem plenas condições para isso. E, em algumas, esse sistema amadurece mais depressa do que em outras. Assim como, em algumas, ele amadurece no tal tempo certo, que, como pode ver, é muito relativo.

Segundo Patrícia, uma das primeiras coisas que os profissionais deveriam checar seria o chamado sistema motor-oral. Ver se a criança aprendeu a mastigar, deglutir… Em seu instituto, na capital paulista, ela já atendeu pequenos que evitavam qualquer tipo de carne, a não ser que fosse bem desfiada, com molho, misturada a purês e olhe lá.  Legumes mais durinhos? Nem por decreto! "E, se você pede para abrir a boca, logo nota uma mordida cruzada", diz.

Observe bem: quando qualquer pessoa mastiga, joga a língua de um lado para outro e faz um movimento rotacional com a mandíbula, o osso do queixo. Só que a mordida cruzada impede essa movimentação e, provavelmente, quando for corrigida, o cérebro precisará de um tempo para aprendê-la. Sem isso, a criança fará aquela mastigação vertical, a primeira que ela aprende, para cima e para baixo. Funciona para cortar a comida com os dentinhos da frente e até para amassá-la, mas não para triturá-la. Aí, vira missão impossível encarar um naco de carne. Mas atenção: ela não é seletiva para alimentos. Ela só não consegue dar conta deles.

Outro ponto fundamental é a conexão mão-boca. Sim, o bebê precisa levar objetos à boca — brinquedos apropriados, por exemplo— para desenvolver a percepção sensorial. "Se não está acostumado a fazer isso, como a gente pode querer que abra os lábios para a colher?", disparou Patrícia.  É, pode ser pedir demais…

A gente também não deve se esquecer de observar o pescoço. Se ele não mantém a cabeça firme, ou seja, se criança ainda não tem sustentação cervical, o tempo consumido com as colheradas será insuportável. Ainda mais se for forçada, com você segurando a sua testa o tempo inteiro. Melhor seria arrumar um apoio para seu filho recostar.

O cérebro precisa desenvolver mais uma habilidade: fazer uma espécie de raio x do alimento. Que textura tem? Qual sabor? Qual o tamanho do pedaço e como eu devo triturá-lo para engolir? Quando não está apto a realizar esse exame, a criança cospe cada bocado e Patrícia já recebeu casos em que faz a mãe retomar a era das papinhas, ouvindo então a seguinte pergunta em tom assustado: "Mas meu filho está regredindo?!". Daí explicou que a alimentação estava apenas sendo ajustada à etapa de aprendizado real da criança. Ou seja, a família é que tinha pisado no acelerador desse aprendizado.

Existem também os pequenos que são muito sensíveis a tudo o que desperte seus sentidos. Estes não fecham a cara só para a comida, mas berram quando o ambiente é mais barulhento ou enxergam algo mais colorido. A refeição se transforma em batalha e a criança só comerá se estiver distraída. Seu cérebro precisa de um tempo para lidar com um mundo de estímulos sensoriais.

O fundamental é ter calma. "Muito se estuda sobre o impacto do estresse no aprendizado escolar e poucos trabalhos focam o prejuízo da ansiedade no aprendizado do comer", disse Patrícia. Verdade. E, se a mãe insiste, o filho pode cuspir. Depois, engasgar. Em seguida, nausear e, por fim, botar tudo para fora. Esses momentos traumáticos ficarão registrados na área cerebral do sistema límbico e, daí, mesmo crescidinha, essa criança sempre fugirá de um belo prato. Afinal, lá no fundo da memória, ele será sinônimo de passar mal.

A outra personagem estressada na história é a mãe, que acha não ser boa o suficiente se não consegue nutrir o filho. E, com esse pensamento, faz de tudo. Patrícia Junqueira relatou episódios extremos em que as mães injetavam a papinha na boca do bebê, que loucura! Será que isso é comer?! Portanto, mamãe, lembre-se que cada bebê tem um tempo para aprender. E que nem tudo está em suas mãos fazendo aviãozinho. Não mesmo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.