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Blog da Lúcia Helena

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Pode ter hormônio, remédio, pesticida e até droga ilícita na água de beber

Lúcia Helena

09/08/2018 04h00

Crédito: Istock

Produtos de higiene pessoal, cosméticos, cafeína, remédios contra todo tipo de moléstia ou sintoma, com ligeiro destaque para os anticoncepcionais que evitam gestações indesejáveis e os hormônios usados na reposição de mulheres na menopausa… Não se pode dizer que eles surgiram para nos prejudicar, pelo contrário. Há, porém, o lixo industrial, certos plásticos e os pesticidas que, por mais que permitam colheitas fartas, andam na berlinda no que diz respeito à nossa saúde. Acrescente à lista resquícios de drogas ilícitas, como a cocaína e as metanfetaminas e saiba: resquícios de tudo isso são encontrados em águas, tanto profundas e superficiais, que acabam destinadas ao consumo. Ou seja, sem querer lhe tirar o prazer de matar a sede,  um tiquinho disso ou daquilo deve, sim, estar no seu copo.

Estou falando dos contaminantes emergentes ou, ainda, micropoluentes emergentes: literalmente milhares de compostos que fazem parte do dia a dia moderno e que, uma vez diluídos na água de beber, podem causar algum risco aos seres humanos e a outras espécies do meio ambiente.

Transbordam incertezas porque é tudo muito novo. Os cientistas nem conhecem o limite a partir do qual esses compostos fariam mal pra valer. Mas, sei lá, de gole em gole, isso pode não dar em boa coisa, a tirar pelo que já foi bem observado na natureza: feminilização de peixes, alteração no desenvolvimento de moluscos e anfíbios, queda de fertilidade em aves, concentrações anormais de hormônios em répteis. Lembre-se: por mais que a gente use a cabeça de maneira que uns dizem ser mais inteligente, somos igualmente animais neste planeta. Ainda poderá sobrar para nós.

No Laboratório de Química Ambiental da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, a professora Cassiana Montagner já investiga essas substâncias há dez anos. E foi sobre elas que falou durante o evento X Atualidades em Food Safety, promovido pelo Ilsi-Brasil na última terça-feira. A ordem é não gerar pânico — nem é o que eu quero —, mas confesso que fiquei com a boca seca.

Nem todos contaminantes têm potencial para interferir no nosso funcionamento hormonal, avisa Cassiana Montagner. Segundo ela, os compostos mais encontrados nos mananciais brasileiros são, entre outros,  a cafeína e a atrazina, herbicida usado em algumas culturas. Nenhum deles é acusado, até o momento, de prejudicar a saúde humana, nas dosagens baixíssimas em que foram identificados em boa parte das cerca de 200 amostras analisadas. Aqui, vale eu fazer parênteses: a cafeína é um contaminante emergente onipresente nas águas de qualquer canto do mundo e usada pela ciência como uma espécie de dedo-duro. Ora,  se há cafeína na água, os cientistas sabem que, de alguma maneira, ela foi contaminada por esgoto e que, portanto, outros micropoluentes podem estar ali.

No caso dos mananciais brasileiros, somente 5% das amostras apresentaram o hormônio feminino estradiol. "Ele foi o único, entre as substâncias identificadas nos últimos dez anos, que pode oferecer algum risco à saúde de seres humanos", esclarece a professora Cassiana.  O grande desafio, sempre, é dosá-las.

"São dosagens tão ínfimas que fica difícil ter o instrumental para aferi-las", justifica a professora Cassiana. A medida aqui é o picograma por litro, faz ideia do que seria isso? Um milionésimo de micrograma. Ou seja, não dá para dizer que o que sai do seu filtro esteja carregado de substâncias estranhas. É só um nadica de nada. Mas água mole em pedra dura… O risco existe quando a gente sorve esse "tico" várias vezes ao dia e faz isso dia após dia. Como não dá para viver sem beber água…

As consequências podem só aparecer após anos matando a sede com água contaminada. Quando se discute o que isso poderia causar lá para a frente, jorra a polêmica. Porque não há, repito, certezas — só uma ou outra evidência. Mas o suficiente para gente cautelosa acender a lâmpada amarela: os contaminantes emergentes parecem estar por trás da puberdade precoce em meninas, do câncer de mama, de uma piora na qualidade do sêmen e, de quebra, do boom da obesidade. São hipóteses que não podem ser descartadas. De fato, há uma enxurrada delas.

Quero dizer que, no Brasil e no mundo, não sobra gota livre do problema: os contaminantes emergentes estão em rios, no esgoto, na água subterrânea e na água tratada. Não há tratamento que os contenha completamente. Só que, no Brasil, temos um agravante — afe, ando meio cansada de escrever esta frase, mas ela insiste em aparecer no meu texto. Ora, uma das principais vias desses compostos chegarem à água é pelas nossas excreções. "E temos um aporte imenso de esgoto bruto sendo lançado nos mananciais do Brasil", lembra a professora Cassiana.

Parte do hormônio de uma pílula contraceptiva vai parar no xixi, por exemplo. Idem, uma porção de qualquer outro tipo de medicamento e das drogas ilícitas. Sem contar  os sabonetes, os xampus, os produtos de limpeza, a maquiagem que a mulherada tira, tudo o que escoa pelo ralo…Em relação aos resíduos das indústrias, eles são despejados em córregos, com (ou, infelizmente, sem) tratamento. Já os pesticidas e os remédios de uso veterinário alcançam os lençóis profundos tragados pela terra ou são arrastados para os córregos com a primeira chuva.

Por falar em chuva, cenários de estiagem, como o que se vê em São Paulo, são  bem mais preocupantes, porque esses compostos ficam menos diluídos. Alguns deles, como a cafeína, são retirados em parte por um bom tratamento de água. Outros, como o bisfenol A de certos plásticos, não são removidos com facilidade. Vão parar na jarra que levamos à mesa e na panela da sopa até, finalmente, escorregarem pela nossa garganta.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.