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Blog da Lúcia Helena

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Toda grávida deve tomar suplementos, muito além do ferro e do ácido fólico

Lúcia Helena

23/08/2018 04h04

Crédito: iStock

Não existe ligeiramente grávida. Tampouco algo que seja ligeiramente fundamental. Ou é ou não é, oito ou oitenta. E certos micronutrientes são exatamente isso — fun-da-men-tais — para que uma gravidez transcorra de maneira tranquila e o bebê nasça bem. Não, não é só da dupla ferro e ácido fólico que estou falando, mas vale eu destacar alguns pontos sobre ela adiante.

Ao engravidar, o que acontece no corpo é uma reviravolta que vai muito além da barriga despontando, das mamas estufando, dos quilos a mais e de alguém se mexendo dentro de você. Sem contar as piruetas hormonais — só quem rodou no ritmo delas sabe. Para começo de conversa, a oxigenação aumenta de 15% a 20%, o volume sanguíneo salta 50%, mas o número de glóbulos vermelhos, que fazem a pronta-entrega do oxigênio para cima e para baixo, não se eleva na mesma proporção.  Fica um sangue  — como dizer? — mais diluído e que tem de dar conta, mesmo assim, do serviço. Este é apenas um fator que faz esses nove meses desafiadores irem minguando qualquer reservinha de micronutrientes. E, na hora de repor tudo isso, alguns deles já não são absorvidos do mesmo modo como eram antes da gravidez. Daí que…

O médico Corintio Mariani Neto foi quem me fez o alerta durante um evento do Ilsi Brasil, o braço brasileiro do  International Life Sciences Institute: "É sempre necessário prescrever  suplementação para as grávidas". Futuras mamães, não há prato cheio que forneça tudo o que precisam. Aliás, se o prato for cheio demais, pode até piorar as coisas.

Diretor do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, ele citou uma revisão recente publicada na Biblioteca Cochrane, que conta com uma rede de 37 mil cientistas de bom quilate, oriundos de centenas países, encarregados de revisar e relacionar estudos para apontar o que pode funcionar mais ou funcionar menos em matéria de saúde. Em uma dessas análises, em cima de pesquisas que, ao todo, juntaram mais de 130 mil grávidas, eles compararam aquelas que tomavam apenas ferro e ácido fólico e aquelas que consumiam polivitamínicos que incluíam esses nutrientes ao lado de muitos outros. Opa, sempre com orientação do obstetra, bem entendido. Conclusão: nas mulheres que engoliam um comprimido polivitamínico, a incidiência de recém-nascidos com baixo peso foi 10% menor, para dar um único exemplo de vantagem.

Mas, talvez, o maior benefício de estar em dia com todos os micronutrientes é garantir o desenvolvimento normal do pequeno. Por isso, resolvi ressaltar algumas informações dadas pelo doutor Corintio Mariani Neto. E começo pelo básico.

Ácido fólico

Ele faz parte da prescrição clássica. Se fica em falta, sobra para o bebê a consequência: um risco alto de malformações. Dois detalhes, no entanto, são menos comentados: mulheres que passaram por cirurgia bariátrica costumam ter uma bela deficiência desse nutriente. Por isso, se engravidam, precisam de uma atenção muito, mas muito mais especial.

E, segundo, todos falam que a ingestão do suplemento deve começar trinta dias antes de qualquer criatura engravidar. Mas eu pergunto: qual mulher tem bola de cristal para saber que, dali a exato um mês, estará grávida? Ok, você pode me dizer: se alguém planeja um filho, melhor consumir ácido fólico antes da primeira tentativa de engravidar, certo? Seria mesmo lindo se, no Brasil, mais de 50% das gestações não fossem no susto. O melhor, portanto, seria toda mulher em idade fértil tomar a dose recomendada de ácido fólico. Mal não iria fazer, então…

Ferro

Vale lembrar que ele não é fundamental apenas para transportar o oxigênio, mas para formar a famosa bainha de mielina do feto, a capa que reveste os neurônios e sem a qual não há conversa entre eles.

Aliás, quando a preocupação é com o ferro, não adianta a grávida comer pratos e pratos de folhas em tom verde escuro ou conchas de feijão. Sinto dizer: só 10% do ferro oferecido pelos vegetais são aproveitados. "Há uma mulher anêmica em cada quatro grávidas no planeta, independentemente da classe social", avisa Mariani Neto.  Portanto, futura mamãe, pela sua saúde (viu o que acontece com o seu sangue, não é?) e pela do seu bebê, nem arrisque e lembre que a necessidade de ferro é quase multiplicada por dez no terceiro trimestre de gestação em relação aos primeiros três meses.

Iodo

Iodo, em si, não é essencial para o sistema nervoso do bebê. Mas a tiroxina, um dos hormônios produzidos pela tireóide, sim. E, nos meses iniciais da gestação, o filho depende totalmente da tiroxina da mãe, que não será grande coisa sem um aporte adequado desse nutriente no organismo dela.

Provavelmente você pensará que nós, brasileiros, já consumimos um bocado de iodo adicionado ao sal de cozinha. Mas repare: o sal é sempre uma das primeiras coisas que o médico manda a grávida diminuir no dia a dia. Muitas vezes, ele também pede para ela passar longe do restaurante japonês, com medo de intoxicações — as algas e o peixe cru seriam boas fontes. Assim, pode até não ocorrer uma deficiência importante pra valer, que levaria a um déficit cognitivo grave, o cretinismo. Ainda bem.

No entanto, segundo Mariani Neto, hoje se sabe que muito antes de se chegar a esse ponto dramático, qualquer leve desafasagem de iodo na grávida comprometerá a cognição da criança lá adiante. Sabe aquele menino que tem dificuldade na escola? Pois bem, não pode ser descartado o fator falta de iodo na mãe — que, aliás, de acordo com um trabalho realizado com 200 grávidas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, ocorre em 57% das mulheres brasileiras. E, lamento, não adianta dar iodo para o filho depois para melhorar o boletim.

Cálcio e vitamina D

O cálcio é pra lá de necessário, entre outras coisas, para a formação do esqueleto do bebê e dos dentes.  Ele exigirá doses consideráveis do mineral especialmente no terceiro trimestre de gestação. A dúvida de muito médico é se seria necessário suplementar com vitamina D também. Há estudos apontando que essa suplementação, independentemente da boa dupla que faz com o cálcio na questão dos ossos, poderia reduzir a incidência de partos prematuros.

Ômega-3

Entre as suas formas, aquela chamada DHA é a que mais faz diferença para o feto, por ser um componente da membrana celular. E, claro, você deve imaginar a velocidade com que ele produz novas células, precisando de boa matéria-prima para isso. A ingestão mínima da grávida deveria ser de 200 a 300 miligramas por dia. E, na comunidade científica, se discute: como é difícil consumir tudo isso de DHA dia após dia, a suplementação de ômega-3 seria mais do que bem indicada. Ou haja atum, sardinha e salmão.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.