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Blog da Lúcia Helena

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Afinal, quem é diabético pode tomar bebida alcoólica de vez em quando?

Lúcia Helena

28/08/2018 04h00

Crédito: iStock

O tema é tabu. Afinal, a ingestão de álcool aumenta a ameaça de uma hipoglicemia, a queda brusca da glicose no sangue, que pode ser catastrófica nos diabéticos, tão ou mais perigosa do que a elevação desse açúcar na circulação. Isso porque sempre se traduz em uma emergência. O cérebro depende de glicose até o último neurônio. Não aceita nenhuma outra forma de energia em troca. E, se nada for feito no período de escassez no abastecimento, ele pifa. Uma vez que já dei o susto, descrevendo a vida do diabético (que não se cuida) como ela é, vamos a um brinde: não, o álcool não é proibido. 

O assunto foi debatido por diversos especialistas e portadores da doença durante um evento pioneiro que aconteceu no Rio de Janeiro no último sábado: O Meu Diabetes, criado pela endocrinologista carioca Solange Travassos, ela mesma diabética desde os 14 anos de idade. Sua ideia foi reunir alguns dos grandes especialistas no problema diante de uma plateia de mais de 600 diabéticos e seus familiares, trazendo o que há de novo e tirando dúvidas do dia a dia.

Claro, existem exceções — casos em que, por exemplo, a doença está descontrolada e não é momento para fazer qualquer tim tim. Ou pacientes que apresentam complicações, como neuropatias, porque a bebida alcoolica, ainda que bebericada com moderação, piora as coisas para os nervos. Por isso, se você é diabético, antes de botar uma bebida para gelar, converse com seu médico para receber todas as orientações sobre, por exemplo, o uso de insulina, já que a dose e o tipo mais indicado  variam de organismo para organismo quando se bebe.

Mas é importante, entenda, falar do assunto, que muitos pacientes nem levam ao consultório com o medo de um pito. E, pior, muitas vezes bebem às escondidas do clínico, sem terem recebido qualquer dica. Aí, sim, a dor de cabeça pode ser pior do que a de uma mera ressaca. No mais, se for maior de idade, souber conjugar direitinho o verbo maneirar, não tiver complicações e ficar de olho no glicosímetro — o equipamento que mede as  taxas de glicose — é quase certo de que receberá o sinal verde para algumas happy hours. Não tem por que negá-las.

Por falar em glicose, ela precisa ser monitorada antes, durante e depois do brinde. Vale chamar a atenção: suas taxas podem cair até mesmo várias horas depois do consumo da bebida. Então, é mesmo para ficar de olho. Os sintomas desse quadro são, em um primeiro instante, parecidos com os da embriaguez para muita gente. O estômago pode embrulhar completamente, por exemplo. Um diabético às vezes acha que está apenas altinho quando, na realidade, é a sua glicose que  está perigosamente à beira de um precipício.

Em relação ao limite saudável de consumo, ele é igual para diabéticos e não diabéticos: uma dose para mulheres e duas doses para homens. Sim, há um machismo na fisiologia: o corpo deles dá conta de mais álcool do que o delas. Para ter ideia do que seria uma dose: ela corresponderia a um copo de chope ou a uma lata de cerveja de 330 mililitros ou a uma taça com 100 mililitros de vinho (portanto, se a taça for grande, verta a bebida como gente fina, até aproximadamente a metade e nunca até a boca) ou, ainda, a 30 mililitros de qualquer destilado. Nem uma gota a mais.

Preste atenção no teor de álcool indicado no rótulo. Faz diferença. Siga o princípio do quanto menor, melhor. Uma pena é que, em qualquer bebida alcoolica, não dá para encontrar outras informações  sobre os nutrientes ali presentes, nem o valor calórico. Facilitaria.

Há escolhas e escolhas. A cerveja, por exemplo, está longe de ser a melhor delas, porque é cheia de carboidratos —não existe até quem a apelide de pão líquido? Daí, a glicose dispara. Se a bebida for consumida com petiscos de botequim, então, ela voa para o alto. Para quem é diabético tipo 1 ou mesmo tipo 2, mas usuário de insulina, o jeito é repor esse hormônio para compensar. Só que horas depois, como expliquei, quando o álcool estiver sendo metabolizado, pode surgir o revertério de o açúcar despencar na mesma velocidade com que subiu.

O whisky, por sua vez, não é carregado de carboidratos e pode ser uma opção mais adequada. Nesse aspecto, destilados caem melhor do que fermentados. Mas uma dose de vinho é até aceitável, porque a taça contém em torno de 5 gramas de carboidrato. E pode ser, esta sim, uma boa ideia, no lugar de caipirinhas, caipiroskas e toda sorte de coquetéis que, mesmo se forem preparados com adoçantes, acabam com carboidratos extras de frutas e que tais. Além de oferecem uma quantidade imensa de calorias. Não se iluda: conforme o que o barman inventar de colocar na coqueteleira, aquele copo todo enfeitado pode ser páreo para um sanduíche com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles… já sabe.

Não custa dar um recado aos que tentam  usar matemática para bancar a esperteza: a dose limite diária não se acumula. Não adianta ser abstêmio de segunda à quinta para uma desforra na balada de sexta. O excesso, além de provocar um mal-estar mais intenso em quem sofre de diabetes, tem consequências que, para esse paciente, podem ser mais graves do que para a população em geral. Não me refiro só à hipoglicemia. Afinal, como pode ocorrer com qualquer cidadão que bebe demais, a atenção e a tomada de decisões ficam comprometidas. Assim, vamos imaginar, o diabético pode perder o aparelho de medir a glicose e, se passar mal, não ter como monitorar seu organismo.

E, mesmo  dentro da dose limite e longe de ficar embriagado, a obediência à lei do se beber não dirija deve ser estrita. Porque, se o açúcar cair quando estiver ao volante, o risco de acidentes se tornará imenso. Repito: isso pode acontecer algumas horas depois do consumo. E, cá entre nós, qualquer dose de álcool não cai bem na direção.

Talvez uns se perguntem se vale a pena tanto cuidado para tomar uma taça aqui, uma cerveja acolá. Pode valer, por que não? A vida dos diabéticos não é diferente: às vezes, de tão boa, pede um brinde. E, para quem se cuida, ele é mais do que merecido. Saúde!

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.