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Blog da Lúcia Helena

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Espinafre: a novíssima promessa para controlar o apetite e emagrecer

Lúcia Helena

04/09/2018 04h00

Crédito: iStock

 

Eu sei, uma promessa dessas aparece todo santo dia. Reconheço. E, se todas cumprissem o que afiançam, a epidemia de obesidade não estaria correndo solta. Mas escute aqui: e se eu lhe contar que estudos sobre o consumo da Spinacia oleracea no controle da gula desenfreada pipocam pelo mundo? Se fuçar, achará na web um primeiro trabalho falando de espinafre e apetite, publicado por suecos da Universidade de Lund há quatro anos. Mas ele não foi o único e a onda ganhou força mais recentemente, até bater na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Ali, a bióloga e geneticista Ivana da Cruz, uma das mais competentes pesquisadoras em alimentos funcionais do país,  começou a investigar a espécie depois de notar o zunzunzum a respeito de sua ação contra a obesidade, acirrada com a revisão sistemática produzida na Universidade Emory, nos Estados Unidos, que cruzou achados de nada menos do que 102 pesquisas realizadas sobre o espinafre ao redor do planeta. Algumas delas, verdade, sobre a sua potente e já aclamada ação anti-inflamatória e o seu papel na prevenção de tumores, em especial de mama e de cólon — mas essa seria outra história.

Como eu, a professora Ivana fixou o olhar no frescor da novidade: o efeito no peso corporal. Não que essa seja a sua principal linha de pesquisa. Na realidade, o papo da cientista é cabeça: "As doenças psiquiátricas são a grande caixa-preta da Medicina, para as quais, por enquanto, ela só encontrou remédios capazes controlar os sintomas, mas que nem sempre trazem o resultado desejado", afirma. E, segundo ela, até se adaptar ao medicamento ou encontrar a droga ideal para o seu caso, muito paciente desiste ou piora a autoestima em função do ganho de peso, efeito colateral de alguns dos medicamentos usados em casos de depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e outros.

Para driblar essa adversidade, a pesquisadora e seu time, primeiro, apostaram no guaraná. Só que, nas palavras dela, "o fruto amazônico apresenta resultados bem ambíguos por causa da cafeína em sua composição". Em matéria de emagrecimento — atenção, turma que toma suplemento de guaraná sonhando em afinar a cintura —, funciona para uns e não funciona para outros, o que depende muito de cada organismo, do hábito alimentar, da dosagem… E, de qualquer maneira, no caso dos indivíduos com transtornos psiquiátricos, a cafeína não caía bem. Inquieta, Ivana da Cruz foi buscar alternativas e daí começa o seu envolvimento com o espinafre.

De cara, ficou espantada com a quantidade de substâncias benéficas nessa verdura de provável origem persa. Além de ter muita vitamina, com destaque para a C e a K, um bocado de luteína e esnobar em minerais, o espinafre tem 17 flavonoides que são praticamente só dele. Espinacetina, espinatosídeo e outros nominhos tão difíceis de engolir que o velho marinheiro Popeye, se soubesse, cuspiria as folhas que lhe davam aquele muque de arrasar o coração da Olivia Palito (ah, perdão, impossível falar de espinafre sem cair na tentação de citar as personagens criadas em 1929 pelo americano Elzie Crisler Segar).

Nos trabalhos sobre obesidade, o segredo está guardado nos tilacoides. E — suporte algumas linhas rememorando as aulas de Botânica para entender direito do que estou falando — os tais tilacoides são membranas bem dobradinhas dentro dos cloroplastos. Opa, cloroplasto, por sua vez, é uma organela dentro das células das plantas, encarregada de transformar luz em energia na famosa fotossíntese. Fim da lição e moral da história: não adianta dar aquela mastigada básica para aproveitar os tilacoides do espinafre. Melhor triturar ou centifrugar as folhas cruas. Ou, no futuro, engolir um suplemento, como o que Ivana da Cruz e sua equipe da UFSM buscam desenvolver.

A julgar pela revisão de Emory, os tilacoides do espinafre começam a agir impedindo a absorção de parte da gordura das refeições ao se juntar à lipase, enzima que funciona como uma espécie de  tesourinha natural, quebrando as moléculas gordurosas para que fiquem pequenas o suficiente para atravessarem as paredes do intestino.

Em estudos com seres humanos, o consumo de 25 gramas de tilacoides junto às refeições promoveu uma maior produção nas seis horas seguintes de CCK, de  GLP-1 e de leptina, três hormônios que, cada um à sua maneira, contribuem para a sensação de saciedade. Ao mesmo tempo, cairam os níveis da grelina, o hormônio que dispara a fome.

Ivana da Cruz ressalta que todos os trabalhos  usaram suplementos, com uma bela concentração de tilacoides e de outros bioativos das folhas. Enquanto o tal suplemento não chega, a saída é simples: a pesquisadora sugere acrescentar folhas de espinafre no suco da manhã. Para quem tem o hábito de usar a couve em vitaminas, a ideia é trocá-la por essa verdura.

No entanto, se os ataques de fome costumam ser noturnos, pode valer muito mais a pena sorver o suco em um lanche no final da tarde, de preferência com uma proteína — vale até bater com whey protein, por exemplo, como anda fazendo a própria professora Ivana à noitinha. É saciedade na certa e por um bom tempo. Claro, quem quer perder peso precisa de mais do que um suco de espinafre. Na receita entram orientação médica e nutricional e boas pitadas de atividade física. Mas o espinafre pode mesmo dar uma bela força e, por essa, nem Popeye esperava. Fico até imaginando se a Olivia não era um palito  por dividir as refeições com ele. Será?

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.