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Blog da Lúcia Helena

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Vírus, bactérias e outros seres invisíveis que podem interferir no câncer

Lúcia Helena

13/09/2018 04h00

Esta é a H. pylori, bactéria acusada de envolvimento com o câncer de estômago | Crédito: iStock

Há um universo paralelo, invisível, maior que o nosso, formado por um número incalculável de vírus, bactérias, fungos e outros seres microscópicos que perambulam por tudo o quanto é canto. Estamos expostos a eles, que nos invadem sem trégua, do mesmo modo como espalhamos micro-organismos por onde andamos. Alguns estabelecem moradia dentro de nosso corpo — como as famosas bactérias que habitam o intestino. Outros vivem em nossas superfícies. E, no meio das intricadas relações estabelecidas entre nós — algumas muito positivas e outras, ao contrário, bem agressivas —, um dos territórios mais quentes e promissores para a ciência estudá-las é o do câncer.

Foi ainda no ano 2000, no calor do Projeto Genoma Humano, que os cientistas se depararam com algo estranho. Mais especificamente, no  meio do DNA de células tumorais, pequeníssimas porções de um material genético que não tinha nada a ver com o nosso, ou seja, não seriam pedaços de genes de gente como a gente. Foi assim com o câncer de colo útero, porque lá estavam rastros genéticos do papilomavírus humano, o HPV, misturados entre as células doentes. O tempo provou que esse vírus, no caso, era o causador da doença. E, já naquela época, isso chamou a atenção do curioso biólogo mineiro Emmanuel Dias-Neto, hoje chefe de um dos mais efervescentes laboratórios do A. C. Camargo Cancer Center, em São Paulo.

Dando um salto no tempo dessa história cheia de peripécias — daria para eu escrever um post sem fim! —, uma década depois, em 2010, Dias-Neto se deparou com diferenças importantes ao sequenciar os genes de bactérias na boca de quem bebia e fumava, dois comportamentos de risco para o câncer de boca, com o sequenciamento de micro-organismos na cavidade oral de quem não fazia nada disso. Ele já tinha encontrado, afinal, tipinhos bacterianos em amostras desse tipo de tumor e, ao lado dos colegas, coçava a cabeça intrigado. Até então, os pesquisadores não tinham como saber como aqueles genes "ETs" foram parar ali. Poderia ser simplesmente uma contaminação. Ou talvez não.

A comparação entre fumantes e não fumantes, bebedores assíduos de álcool e não bebedores levou a um achado surpreendente. Sim, há bactérias envolvidas no câncer de boca. Elas não provocam o tumor diretamente. O estrago é indireto.

O cigarro e o consumo de álcool não apenas arrasam as mucosas da cavidade oral, disparam inflamações que transformariam células benignas em malignas e coisas do gênero, como se pensava. Tudo isso, de fato, pode até acontecer. Mas o mais importante é a alteração que tanto a fumaceira quanto a bebida provocam nas bactérias que estabelecem moradia na boca.

As primeiras a desaparecerem seriam aquelas que poderiam, de alguma maneira, nos proteger. Fariam isso ao impedir a proliferação de outras, que gostam de um álcool como fonte de energia. Mas, ao consumi-lo, essas bactérias bebuns excretam uma substância altamente cancerígena. É o acetaldeído, a mesma molécula por trás da maldita ressaca.  E ela nunca poupa os tecidos da boca. Pior: Dias-Neto lembra que o acetaldeído liberado aos montes por essas bactérias são engolidos com a saliva e, com isso, deslizam por todo o trato digestório, podendo causar o câncer em outros órgãos nesse passeio goela abaixo.

Nem sempre os micro-organismos causam um tumor. Há outros tipos de interferência. Alguns metabolizam drogas, por exemplo. E, assim, são capazes de torná-las mais ou menos ativas. Outros atraem feito imãs uma determinada resposta do sistema imunológico e saber quais são eles, prevendo direitinho sua ação sobre as defesas, poderá ser muito útil. Será possível usá-los como aliados para aniquilar um câncer. Ou até prever que, infelizmente, a imunoterapia — um dos recursos dos oncologistas em certos cânceres — estará fadada ao fracasso porque, no fundo, necessita da presença deles no corpo para agir como esperado.

Uma das linhas de pesquisa de Emmanuel Dias Neto e do seu time é com o câncer gástrico — uma investigação fascinante, para falar bem a verdade. Os cientistas observam tudo nos pacientes, de aspectos nas células de defesa ao que comem, como vivem, onde vivem. E pretendem relacionar esse tanto de informações sobre seu meio e seus hábitos com os micro-organismos encontrados em seu organismo — a bactéria H.pylori, por exemplo, acusada de favorecer o tumor —, assim como com a resposta ao tratamento.

Desde 2015, Dias-Neto faz parte do Metasub, o ambicioso consórcio internacional sediado em Nova York, nos Estados Unidos, que pretende mapear os micro-organismos nos mais diversos cantos do planeta. Aliás, até fora dele, já que os cientistas se preparam para observar o que acontece com as bactérias do corpo humano em uma longa jornada até Marte. Mas, no campo do câncer, as ideias são tão ou mais promissoras.

No futuro, será possível saber em que lugares a H. pylori está mais presente, por exemplo, porque deixamos rastros dos seres que existem nós o tempo todo — na sola de sapato, no banco da praça… E, com esse conhecimento, estabelecer políticas públicas de prevenção, sabendo que ali, naquela cidade, o risco de tumores de estômago é mais alto, não será incrível?

A ambição é enorme: querem também chegar para os médicos e afirmar que determinada droga será menos eficaz do que outra para derrubar  o tumor por causa desses bichinhos que habitam na gente. Hoje já existem trabalhos sobre vírus, fungos e bactérias que interferem no resultado do tratamento do melanoma, do câncer de pulmão, de intestino e até de pâncreas. No caso deste, conhecer a microbiota do intestino passa a ser fundamental, porque alguns integrantes ali podem simplesmente quebrar parte dos quimioterápicos usados para combater o tumor pancreático.

É um mundo novo — e admirável. Até porque mostra que a ciência precisa sair com maior frequência  da sua caixinha. Não dá para estudar uma célula cancerosa apenas em um vidrinho de laboratório, sem imaginar que,no corpo humano, ela conviva com tantos vizinhos, uns bem cordiais e outros loucos para destruir o condomínio.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.