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Blog da Lúcia Helena

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Cardiologistas garantem: a espiritualidade faz um bem enorme ao coração

Lúcia Helena

20/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Médicos religiosos, ateus e agnósticos passaram, lado a lado, uma manhã inteira durante o 73º Congresso Brasileiro de Cardiologia, que terminou no último final de semana em Brasília, discutindo a espiritualidade e a Medicina cardiovascular. E, atenção, eles saíram do céu paradisíaco dos conceitos, digamos, mais filosóficos para aterrissar na terra árdua do paciente nosso de cada dia, isto é, na prática clínica. Será que, além de pedir para esse indivíduo parar de fumar, reduzir o álcool, comer menos gordura e açúcar, maneirar no sal e controlar a pressão, procurar diminuir o maldito estresse…  Enfim, será que dá para recomendar uma dose diária de espiritualidade? Boa questão. E uma questão delicada também.

Não pense que o debate é novíssimo. Fique sabendo que a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mantém desde 2012 o Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular. E essa linha de investigação ganha cada vez mais corpo. Seu ponto de partida foram os trabalhos realizados ainda nos anos 1990 pela médica americana Christina  Puchalski que, na Universidade George Washington, dirige o Institute for Spirituality and Health, um verdadeiro celeiro de artigos científicos sobre o impacto da fé na vida — ou da fé em Deus — na saúde de carne e ossos. Não à toa, os cardiologistas brasileiros tiveram muito o que debater sobre os últimos achados nacionais e internacionais.

"Espiritualidade, nesses estudos, não tem a ver necessariamente com uma religião ou prática específica", faz questão de esclarecer o próprio presidente da SBC, o cardiologista Oscar Dutra. "'É mais um conjunto de valores, uma atitude mental e emocional que norteia, de maneira positiva, os nossos pensamentos e relacionamentos."

Todos nós, no fundo, sabemos do que o médico está falando. É, eu diria, um olhar para a vida com mais leveza, julgando menos e aceitando mais, descobrindo pequenas felicidades no meio do caos e, sobretudo, encontrando um propósito para a própria existência. Será que descompliquei ou compliquei de vez?

Até porque há um ponto importante: assim como só você carrega os seus genes e ninguém mais entre as cerca de 7 bilhões de criaturas do planeta (a não ser que tenha um irmão gêmeo idêntico), a sua relação com Deus, o Universo, o Supremo ou a vida — ah, vida, tão imensa e escrita em letra minúscula… — é só sua também. Dificílimo criar uma definição em que caiba a espiritualidade de todo mundo.

Independementemente disso, segundo o cardiologista gaúcho Mario Borba, vice-presidente do tal grupo de estudos da SBC, muitas descobertas científicas reforçam que a raiva, por exemplo, faz um mal danado ao peito. "Se o rancor, por si, não cria um problema do coração, ele com certeza pode agravá-lo. Até porque intensifica alguns processos inflamatórios que pioram o quadro do paciente cardíaco." Todas as pesquisas apontam que os sujeitos mais irritadiços têm mais angina e mais infarto, o que a gente até intuiria.

Por sua vez, já existem diversas evidências de que, quando as pessoas se relacionam com maior empatia umas com as outras, a expectativa de vida aumenta —assim como se observa um declínio na incidência de ataques cardíacos. Vou lhe dizer mais: vem da Universidade Harvard (EUA) a constatação, observando mais de 90 mil enfermeiras, de que morrem menos do coração as pessoas que frequentam algum culto religioso uma vez por semana. E aqui o estudo envolveu religião mesmo, sem diferenciar se era católica, evangélica, judaica ou qualquer outra.

O interessante é que os cientistas não notaram diferenças entre os participantes mais fervorosos e aqueles que, me perdoem, iam a uma igreja como quem bate o ponto, quase que por rotina, para acompanhar outra pessoa da família talvez, sem nem dar  tanta bola para aquilo tudo. No entanto, pelas evidências, foi como se aquele espaço — sendo ele mais ou menos sagrado conforme as crenças e convicções de cada um —, derramasse água fria para aliviar a cabeça quente, dá para entender?

Entre os pontos mais debatidos pelos nossos cardiologistas está o da anamnese espiritual. Sim, é esse mesmo o nome. A anamnese é aquela série de perguntas que o médico faz para conhecer o seu histórico e ter uma ideia da sua saúde. Imagine-se diante do cardiologista: ele  vai indagar se alguém da sua família já infartou, se você anda estressado, quanto torresminho bota no prato naqueles sábados de feijoada. Agora, como fazer para descobrir quanta raiva guarda em seu coração? Ou quanta gratidão emana do peito?  Como anda o seu papo com Deus ou, que seja, com a sua própria consciência?

Alguns cardiologistas brasileiros já lançam mão de pelo menos dois questionários para investigar questões assim e conhecer mais sobre a espiritualidade do paciente durante a consulta. No entanto, os médicos reunidos no congresso enxergam aspectos a melhorar na anamnese espiritual que começa a virar rotina na Cardiologia. Um desses aspectos: por enquanto, usamos testes gringos e o Brasil… Bem, o Brasil é ecumênico, o país de todos os santos, não é mesmo?

Outro ponto é ainda mais delicado: ensinar o cardiologista a ouvir não só aquilo que lhe contamos do corpo, mas da alma. E, sobretudo, perceber o seu limite. Ele não pode confundir suas próprias crenças ou descrenças com as do outro. Nem pode prescrever doses precisas de espiritualidade. Até porque ela só funciona (este é outro achado da ciência) quando é genuína. Isto é, quando a pessoa adota alguma prática por livre e espontânea vontade. Ou seja, só faz bem à saúde cardiovascular quando vem, por doce ironia, do fundo do coração.

Vale eu lembrar que a própria Organização Mundial da Saúde afirma que, após 2030, o estresse e a depressão devem se tornar, ainda que indiretamente, a principal causa de mortes do planeta. E a fé na vida é um santo antídoto para essa dupla nefasta. Um bom começo para desatar o nó no peito, acredita Mario Borba, principalmente para aqueles indivíduos distanciados de uma postura mais espiritual, é o cardiologista sugerir alguma forma de meditação. Por mais simples que seja. Pode até ser. Porque aí digo eu: se há coisa de que nosso coração precisa para viver saudável, ao pé da letra, é de um pouco de paz.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.