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Blog da Lúcia Helena

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Mulheres, quem foi que disse que o derrame sempre provoca dor de cabeça?

Lúcia Helena

25/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Peguem de jeito quem contou essa lorota. Ninguém? Foi pura dedução? De qualquer modo, tirem essa ideia da cabeça — que, por sinal, nem sempre grita de dor ao sofrer um acidente vascular cerebral.

Uma noção mais clara sobre os sintomas deve ser passada aos homens também, vítimas do mesmo engano. No entanto, eu reforço o recado às mulheres por um motivo simples e nada bom: ao contrário dos homens, que ainda morrem muito mais de infarto do coração, no sexo feminino há mais perdas de vida pelo que popularmente as pessoas chamam de derrame, como foi divulgado neste mês, no último Congresso Brasileiro de Cardiologia, em Brasília.

Ao longo de 2016, 51.198 mulheres morreram vítimas de AVC, enquanto 48.104 se foram por causa de um infarto. Nos dois problemas, um agravante em comum: o total desconhecimento dos sintomas iniciais, perdendo minutos, ou horas, vitais. No caso do coração, vá lá, o prenúncio da encrenca pode confundir uma mulher. Ora, a maioria das infartadas não sente dor no peito e, sim, um aperto enjoado na boca do estômago. Em vez do famoso braço esquerdo dormente, pode experimentar uma dorzinha chata nas costas. E vai levando  —às vezes por tanto tempo que, ao pedir socorro, já é tarde demais.

No AVC, porém, o que as mulheres sentem não é diferente dos homens. E uma coisa é certa: se doeu, é  improvável que seja um acidente desses, como me explicou o médico Miguel Antonio Moretti, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia. A dor, segundo ele, é bem mais rara do que a gente imagina  e, se aparece sozinha, não quer dizer quase nada. "Ela nunca foi o marco divisório para o diagnóstico", me garantiu o médico.

O AVC, bom lembrar, pode ser de dois tipos. Um deles é o isquêmico, quando uma artéria entope —ah, essas malditas placas… — e deixa de irrigar um pedaço da massa cinzenta. O outro é o hemorrágico, quando um vaso estoura, por exemplo, pela pressão nas alturas — e, aí sim, há um derramamento de sangue na massa cinzenta.

Ambos os tipos não avisam que estão para acontecer. E aqui, de novo, é diferente dos problemas no coração, que podem começar com uma angina, a dor no peito. Ao sentir  algum dos sinais que vou explicar logo mais, qualquer que seja o acidente vascular cerebral—digo, um acidente hemorrágico ou isquêmico —, aposte que já está rolando na massa cinzenta. Um AVC não costuma ter trailer.

Conforme a região cerebral afetada, a combinação de sinais tende ser diferente, mais ou menos intensa. Algumas vítimas, por exemplo, apresentam alterações de comportamento. Podem se tornar verdadeiras feras irritadiças ou confusas demais. Bem mais comum é a paralisia de parte do corpo. Ela pode ser leve e só no rosto e então, sem sentir nadinha, a criatura  se dá conta de algo estranho ao se olhar no espelho e notar uma assimetria, como um olho bem mais arregalado do que outro. Ou um sorriso mais de lado, quem sabe. Mas, acredite: antes de se ver refletida ou de alguém comentar, a pessoa  talvez nem se dê conta de algo das mudanças na expressão da face. Há aqueles episódios em que o indivíduo vai mexer o braço para alcançar uma caneta na mesa de trabalho e, para o seu próprio espanto, não consegue estendê-lo para agarrá-la.

Outro sintoma é a perda de força. É o caso de quem está de boa sentado e, na hora de se levantar cai. Simplesmente porque faltou força em uma perna. Opa, atenção, essa perda de força, por algumas horas, vai e volta. Se duvidar, a pessoa aparece no pronto-socorro reclamando de um pinçamento no nervo ou alguma bobagem assim.

Há também dormência e, quando ela surge, geralmente é contra-lateral — isto é, de um lado do pescoço para cima e de outro do pescoço para baixo Por exemplo, na face esquerda e no braço e perna direitos. Ou vice-versa.

Finalmente a fala fica picada e grossa. Aí a sensação relatada por algumas mulheres é de que a língua está ficando grossa. E as pacientes logo pensam em quê?!  Em alergia, ave, Maria. Tomam um anti-histamínico e vão levando. Até que…

No caso do AVC isquêmico o limite para homens ou mulheres serem socorridos é de três horas, no máximo, estourando. Aí os médicos têm a chance de desobstruir a artéria problemática. E, se o atendimento acontecer até antes disso, será possível reverter algum comprometimento, conforme o doutor Moretti me explicou.

Já o tratamento do tipo  hemorrágico, como dizem os médicos, é realizado "pelas bordas". Eles não têm nada a fazer no local do acidente vascular em si para diminuir o mal que já está feito. No entanto, dão condições para o cérebro extravazar o sangue derramado, controlam a pressão arterial para minimizar um jorro mais forte, também medicam o inchaço da massa cinzenta para evitar que seus neurônios, confinados na caixa craniana, fiquem comprimidos.

Bom  lembrar que, mais do que negliciar os sintomas, as mulheres metabolizam o colesterol de uma maneira ligeramente diferente do que o sexo oposto e, também, têm a parede interna dos vasos um pouco diferente . Isso tornaria os delicados vasos do seu cérebro ainda mais sensíveis à fumaça, ao excesso de peso, ao estresse, à alimentação desbalanceada e cheia de gordura saturada, enfim, aos fatores de risco clássicos. E será que preciso dizer? Ao sentir qualquer coisa diferente, nem tentem bancar as fortes. Na cabeça, meninas, vamos assumir: do ponto de vista vascular, somos frágeis mesmo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.