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Blog da Lúcia Helena

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Adeus às nossas ilusões: nem dieta, nem suplementos acabam com a celulite

Lúcia Helena

04/10/2018 04h00

Crédito: iStock

E lá fui eu, cheia de esperança, ouvir o que a dermatologista Lilia Guadanhim tinha para contar. E só pensando enquanto aguardava: celulite, sua maldita, chegou a sua vez. Fora!  Estava, sendo honesta, quase pronta pra postar um "hashtag-ela-nunca-mais", mas segurei o dedo no tecladinho. Qualquer mulher entenderia o meu estado de euforia: a médica, da Unidade de Cosmiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi a responsável pela palestra a respeito das evidências científicas do resultado de engolir nutracêuticos para combater essa inimiga que toma posse do nosso corpo — e toma mesmo, porque ele tem estrógeno e esse hormônio feminino, ai, ai…A apresentação aconteceu no congresso da Associação Brasileira de Nutrologia, a ABRAN, na semana passada, em São Paulo.

Mas… adeus às minhas ilusões. De cara, Lilia sacou um estudo feito na própria Unifesp, do qual ela  foi co-autora. Antes, preciso dizer: um de seus traços marcantes é ir atrás de números, provas, análises e medidas. Não espere que da sua boca saia aquele discurso de bula de cosmético prometendo mundos e fundos, pernas lisinhas e firmes. Se ela falasse que jiló no café da manhã funcionaria para acabar com os amaldiçoados furinhos, fiel à ciência e rigorosa como é, eu acreditaria e providenciaria esse desjejum (entende então a minha expectativa?).

No trabalho mencionado, um grupo de 32 mulheres escolhidas a dedo, entre 25 a 40 anos, todas exibindo celulite (e quem nunca?), fez aquilo que eu, você e a torcida feminina do Timão já ouvimos falar que seria capaz de melhorar a situação: além de todas as participantes praticarem atividade física moderada regularmente, elas fecharam a boca para tudo o quanto é porcaria e seguiram por três meses uma dieta como manda o figurino. 

O acompanhamento das moças foi cuidadoso. Muita fruta, muita verdura, gorduras boas, fibras, farinhas brancas trocadas pelas integrais. Um mínimo de açúcar, nadica de álcool. Ultraprocessados expulsos da mesa. Ah, claro, calorias controladas, porções e horários também. Tudo lindo.

Noventa dias depois, chegou a hora da encarar a dura realidade. Peso? Perdido. Ponto para as meninas! Medidas? Perdidas também, eba!. Mais um ponto para as garotas. Composição corporal? Menos gordura e mais músculo, mudança digna de estrelinhas no boletim. E –tchan, tchan, tchan, tchan… — celulite? Inabalável, decepcionantemente i-na-ba-lá-vel. Ah, sua bandida!

Lilia Guadanhim diz que os pesquisadores queriam mesmo tirar essa prova, embora não tivessem a intenção de desapontar pessoas como eu.  Justifica que a gente ouve o tempo inteiro que uma alimentação equilibrada ajudaria a melhorar a aparência dos furinhos famigerados, aquela amarga casca de laranja esparramada em nossas curvas. Faltavam, porém, trabalhos científicos bem conduzidos para checar se esse não seria apenas um discurso que soa correto na voz de blogueiras da beleza, sendo na prática clínica um tanto ineficaz.  O estudo da Unifesp procurou preencher essa lacuna.

Mas eu continuei bem encafifada. Entendi que a dieta toda certinha ajudou em tudo, menos no quesito amaldiçoado da celulite, quando septos fibrosos da camada gordurosa nas profundezas da pele, verticalizados por causa dos hormônios femininos (os tais septos fibrosos dos homens são diagonais, sortudos) repuxam o tecido . E eu só  matutando:  as mulheres do trabalho não emagreceram, afinal? Ora, ora, a gente sempre escuta que a perda de peso também ajuda…

Por telefone, resolvi insistir:  doutora, mas e aí? "E aí", me disse ela, "que emagrecer, conforme o caso, até piora a situação". Ah, não, isso não! Ela assim decretou, serenamente, o fim de um dos nossos maiores sonhos de belezura. Mas justificou sua resposta cruel e a informação fez todo o sentido: em algumas mulheres, por características  da pele ou por uma perda de peso mais rápida e acentuada, o emagrecimento leva à flacidez. E, senhoras, a flacidez anda de mãos dadas com a celulite. Quer dizer, faz com que ela apareça mais, muito mais. Daí, a impressão é de que a danada até se agravou.

Quis saber mais dos tais nutracêuticos  então — aquelas cápsulas maravihosas, cheias de nutrientes e promessas de felicidade diante do espelho, anunciando em cada dose beleza de dentro para fora. Descobri que podem até funcionar, porém não para aquilo que interessava à minha pauta no momento.  E a nossa dermatologista  citou mais e mais estudos.

O principal deles foi realizado na Alemanha, com  105 mulheres entre 25 e 50 anos. Testou-se  tudo o quanto era nutracêutico, com variadas formulações de nutrientes e bioativos. Os pesquisadores alemães ainda compararam a ação deles com a de cápsulas de placebo. No entanto, mais um balde de água fria, nada funcionou na celulite, essa indestrutível.

Contudo, uma frestinha de esperança foi aberta pelo colágeno hidrolisado, justamente a substância que, hoje, a doutora Lilia investiga para tratar a fragilidade da pele de idosos. É que , em parte da mulherada, a proteína administrada dessa forma,  quebrada em pedacinhos ou peptídeos, melhorou a flacidez pelo corpo. Não que a pele use os tais peptídeos. Aliás, aprendi: nunca mais vamos falar em "repor colágeno", está bem? A gente não o repõe engolindo suplementos. O que acontece é que o organismo, ao receber peptídeos, entende que o seu próprio colágeno está despedaçado. E aí ordena as células a produzirem mais dessa proteína para compensar a safra defeituosa. É, portanto, um gatilho para aumentar a produção própria, entende?

Friso para terminar:  o  colágeno hidrolisado  não ataca a miserável da celulite em si, essa usurpadora da auto-estima, mas ao tornar o tecido cutâneo ligeiramente mais espesso, como  os exames de ultrassom demonstraram, cria um efeito capaz de enganar os olhos. E só nesse caso, por favor, engane mesmo, que a gente gosta.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.