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Blog da Lúcia Helena

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Por que toda vagina deve viver molhadinha

Lúcia Helena

11/10/2018 04h00

Crédito: Istock

Nem pense em baixaria. O papo aqui é de altíssimo nível — e, sim, é puramente de saúde. Moças e senhoras, safadas e comportadas "do lar", vamos abrir o bico e quebrar logo o tabu: nenhuma mulher merece viver na secura bem ali, quero dizer, ali mesmo, nos esconderijos de sua intimidade, onde todo prazer acontece ou desaparece. Em português claro: na vagina.

Vagina é ou deveria ser um refúgio úmido, todos os dias e até nas horas menos prazerosas. Nos momentos do prazer? Um local, então, mais úmido ainda. Se está seco, seca qualquer clima.

Só que para mais ou menos metade das mulheres que passaram pela menopausa (é muita mulher, minha gente!), a secura vaginal é constante, em menor ou maior grau. E sempre atrapalha um bocado — sem falar só de sexo, meninas. É capaz de fazer arder, coçar, machucar até a zona íntima de senhoras com comportamento de freira. Isso acaba cheirando mal, no sentido figurado e ao pé da letra. Abre portas para infecções chatas e fedorentas.

Mas vou logo avisando que essa aridez às vezes é sentida por jovens— e, nelas, também atrapalha um tantão. Não fique só pensando naquilo, se bem que "aquilo" pode ser uma prática muito saudável e deixada mais de lado quando dói.

Canal vaginal, pequenos e grandes lábios, clitóris, enfim, o aparelho genital feminino inteirinho é revestido de mucosa. E mucosas  — do nariz, da boca e, claro,  dali mesmo — precisam fisiologicamente de umidade. Para garanti-la, a vagina tem seus próprios mecanismos. Um deles é a transudação do plasma sanguíneo. Respeite a mina, porque ela faz isso! Imagine que é uma região das mais vascularizadas do corpo e um pouco da parcela líquida do sangue, o plasma,  escapa, regando  sem parar a área inteira até a entrada do canal vaginal.

Ali também, nessa entrada, há um par de glândulas, as de Bartholin. Graúdas, chegando a ter 0,5, às vezes até 1 centímetro de diâmetro, secretam sem o menor pudor um líquido viscoso, com mais proteínas na composição. É claro que, no calor das paixões, com a excitação nas alturas, tudo se intensifica. As glândulas de Bartholin derramam mais do seu líquido, preparando o terreno para a primeira escorregadela — adentro! E, enquanto a temperatura do desejo sobe, o fluxo  sanguíneo local aumenta  —  logo, a tal transudação também. Umidade só poderia ser um substantivo feminino, penso.

Deixando o sexo pra depois, o fato é que os líquidos que  escorrem da mucosa vaginal arrastam as células descamadas dela mesma. E elas  espalham seu glicogênio por ali. Essa forma de açúcar alimenta um dos grupos das várias bactérias que colonizam o local. São os lactobacilos. E, desse banquete, sobra o ácido lático. Por isso, o pH de uma vagina molhadinha e saudável é mais ácido, o que espanta outros tipos bacterianos, capazes de causar doenças. Eles não toleram tão bem a acidez.

Essa história toda,  que compreendi melhor depois das explicações do ginecologista Luciano Pompei, atual presidente da Associação Brasileira do Climatério, terminaria por aqui. Terminaria se, em um belo dia, o hormônio feminino estrógeno não saísse de cena. Ah, menopausa…

A deficiência de estrógeno deixa a mucosa vaginal fininha, fininha. Pequenos ou grandes, os tais lábios murcham. A fruta, tão cobiçada, se a gente descuida vira passa. Mas atenção: não se prenda só nas aparências Foque na fisiologia.

A mucosa fina é bem menos vascularizada. Portanto, aquela velha irrigação do plasma sanguíneo deixa de ser como antes. As glândulas de Bartholin? Vão precisar de mais, muito mais empenho para produzir suas secreções.

As células da superfície, nessas condições desérticas, se acumulam em vez de se serem lavadas  — daí, o cheiro se altera. E pior: pode faltar glicogênio para os lactobacilos protetores, abrindo as pernas, ops, a vagina para uma temporada de infecções recorrentes.

Mas já disse que o tormento não é exclusividade das mulheres depois da menopausa. O doutor Luciano Pompei me enumerou outras candidatas à mesmíssima situação. Quem acabou de ter um bebê, por exemplo, costuma sofrer de secura vaginal: ora, seu estrógeno também vai temporariamente para as cucuias, daí…

A quimioterapia para tratar um câncer igualmente pode produzir esse efeito adverso, que às vezes é passageiro, outras vezes, não.  Sem contar tratamentos de bloqueio hormonal,  frequentes em casos de tumores de mama.

Há ainda o maldito estresse, que contrai os vasos sanguíneos do pedaço, dificultando a passagem do plasma para fora. E a gente sabe: estresse e ansiedade emperram a excitação na hora do sexo, ou seja, não ajudam em nada o par de glândulas de Bartholin.

Todos esses são bons motivos para perder a vergonha e falar sobre o assunto com o gineco.  Sem medo de ser feliz  — e felicidade, aqui, é umidade. Há, sim, tratamento e não são aqueles conhecidos lubrificantes, ótimos para facilitar o deslizar do pênis ou de qualquer brinquedo vagina adentro na hora "H". O que a mulher precisa é de um hidratante mesmo, especial para uso íntimo, aplicado duas ou três vezes por semana.

Para quem tem ou está com secura vaginal, ele é item obrigatório naqueles cuidados rotineiros. Ouso dizer que tanto quanto pasta de dentes para um sorriso saudável.

A diferença em relação ao lubrificante usado nos instantes prévios do sexo é que, uma vez feita a higiene depois, o tal lubrificante vai embora e a secura vaginal continuará lá. O hidratante, diferentemente, fará as células da mucosa reterem água. Isso aliviará o mal-estar local de cara e dará conta das células descamadas que alimentam os lactobacilos, protegendo os genitais contra infecções — alguns hidratantes contém, inclusive, ácido lático para reforçar esse escudo.

Há tratamentos clínicos também. A aplicação de laser para aumentar a lubrificação vaginal já é realizada por aqui, porém bem mais cara, um tantinho sofrida, e os resultados não são, muitas vezes, tão duradouros. Luciano Pompei diz que podemos esperar novidades, como terapias com o uso de ultrassom. Aguardemos.

Só sei que cuidar disso é preciso. Se antes ninguém falava muito do tema é porque não se associava tanto o ressecamento a infecções ginecológicas. Nem existiam hidratantes vaginais.  Também vivemos mais e — oba! — mulheres na menopausa, agora, não negam fogo.

Vamos combinar: bem  hidratada, a mucosa não se romperá em minúsculas, mas dolorosas, fissuras no rala-e-rola. Para que o prazer aconteça, a mulher precisa, sim, estar molhadinha até mesmo naqueles dias em que irá virar para o lado e dizer: "hoje, não". Todo dia deve ser úmido lá na vagina.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.