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Blog da Lúcia Helena

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A hora de alinhar os dentes é muito antes dos 5 anos. Talvez com aparelho

Lúcia Helena

16/10/2018 04h00

Crédito: iStock

A foto de uma criança dormindo com a boquinha aberta me dá aquela vontade de entrar na imagem só pra morder toda aquela fofura. Mas, enquanto eu suspiro um "ownnn", a professora Silvia Chedid dispara um "creeedo!". Referência em odontopediatria no país, doutora em ortodontia e ortopedia funcional dos maxilares, ela ainda completa: "Por que a mãe não fechou a boca desse bebê?!" E fala isso muito a sério, inconformada com as centenas likes nas redes sociais que o pequeno dorminhoco recebe ao sonhar respirando pela boca. Para ela, um pesadelo.

Entenda, a professora tem uma certeza: a idade certa para corrigir os dentes é quando a criança tem, estourando, 5 anos. Quanto mais cedo, melhor, E nunca falta o que corrigir nos chamados respiradores bucais. Ela até já colocou aparelho em muito bebê de 1 ano e meio. É um recurso mais extremo, claro. Antes disso, lança mão de diversos outros: ensina exercícios e massagens no bebê para os pais repetirem em casa e propõe mudanças de hábitos.

Em seus livros para profissionais, que são bestsellers nos cursos de Odontologia, Silvia Chedid defende uma corrente que ganha força: esperar pelos dentes permanentes  ou, pior, pela chegada da adolescência para corrigir a dentição com um aparelho é um erro. Isso porque é olhar só para os dentes, quando um sorriso bonito implica em toda uma harmonia entre os ossos da face, com ênfase nos maxilares.

Essa harmonia tem sérias implicações saúde geral: um monte de coisas ruins acontece quando o recém-nascido respira errado. Para início de conversa, ele irá mamar do jeito errado também, engolindo ar. E eis o efeito-cascata. Engolir ar durante as mamadas, por sua vez, é caminho certeiro para cólicas e, daí, muitas noites mal dormidas de choro.

Mas não só isso: as bochechinhas ficam estiradas e isso tensiona as arcadas, que se tornam pouco a pouco mais estreitas. Já o céu da boca é empurrado para cima, ficando alto demais. É como se tudo saísse do lugar —até a língua, mal acomodada, tende a ficar ligeiramente para fora, criando todas as condições para futuros problemas de dicção.

A arcada estreitada ainda leva os dentes de leite a nascerem desalinhados. E, para toda essa boca em desarranjo, engolir alimentos mais duros será um tanto difícil. Pronto: terreno preparado para dificuldades alimentares, como uma predileção por tudo o que for mais pastoso, que tornarão as coisas cada vez mais complicadas — e os problemas nas arcadas, maiores. Cresce a bola de neve.

Como se fosse pouco, a tendência de um respirador bucal é pender a cabeça um pouco para a frente, porque o eixo do seu corpo se torna diferente. Isso, além de provocar dores de cabeça, desalinha vértebra após vértebra da coluna, em um efeito-dominó. O menino ou a menina pode terminar até mesmo pisando errado, no final dessa cadeia que começa na boca, quem diria!

Às vezes, porém, a encrenca toda se inicia na barriga da mãe, antes mesmo de o bebê tragar o ar — pela boca ou pelo nariz. Por isso, para evitar de problemas digestivos a posturais, de dores de cabeça a distúrbios do sono, um conselho é reparar na própria família, se alguém tem queixo um pouco para frente ou muito para trás ou, quem sabe, se um dos pais é ligeiramente dentuço ou se já foi, antes de usar aparelho na juventude. Pelos exames de ultrassom, os especialistas em ortopedia dos maxilares conseguem antecipar se o pequeno herdou um desses traços. E, aí, eles começam a ser corrigidos no berçário.

O aleitamento no peito, claro, é muito bem-vindo. Exercita a musculatura para ajustar os ossos faciais e, principalmente, obriga a criança a respirar do jeito certo, pelo nariz. Mas, quando a ela passar para o cadeirão, será a hora de ensiná-la a mastigar. Isso mesmo. Segundo a professora Silvia Chedid, ninguém nasce sabendo esse tipo de coisa.

Repare: se a mãe dá um pedaço de pão ou de cenoura para o filho, o certo seria ele cortar o alimento com os dentinhos da frente, que estão lá para isso. Se o bebê rasga a comida meio de lado, com os caninos, está tudo errado. Idem, se mastiga de um lado só, sem a linguinha ficar passeando — e empurrando o bocado de alimento — da direita para esquerda e da esquerda para direita.

Tudo isso vai tirando os dentinhos que mal estão aparecendo do lugar. E como a dentição de leite serve de guia para a permanente, ela romperá anos depois já toda desalinhada.

Sobre o bebezinho dormindo de boca aberta a ordem é, ao notar isso, ir até o berço e fechá-la com delicadeza. Mil vezes se for preciso. Até que ele aprenda. E ele aprende. Não sem antes dar uma canseira, mas que valerá a pena. Provavelmente você não terá um adolescente de sorriso metálico no futuro — e, se tiver, tudo será mais fácil de resolver. Tão ou mais importante, seu filho será mais saudável da boca aos pés, sem cólicas nem outras dores.

Daqui pra frente, já sei: meu "ownnn"  e meus "likes" irão para dorminhocos flagrados com toda a sua irresistível fofura, mas de bico bem fechado.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.