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Blog da Lúcia Helena

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A neurociência prevê: estas eleições nos deixarão doentes e emburrecidos

Lúcia Helena

25/10/2018 04h00

Crédito: iStock

Não importa quem saia do vitorioso nas urnas neste domingo: algum estrago já está feito. A raiva dominou o cenário político nos embates entre adversários, candidatos ou eleitores. E, para a saúde, quando constante e desmedida, ela cobra uma fatura alta. Pra não ficar no bla-bla-blá filosófico, fui atrás do conhecimento de quem já estudou um bocado a respeito de ataques de fúria, o neurocientista R. Douglas Fields, professor da Universidade de Maryland e pesquisador do National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos. Além de conhecimento, ele tem experiência: "quando os americanos elegeram Donald Trump, em 2016, foi assim, com os dois lados assumindo um comportamento de tribos em guerra".

As emoções —e não a razão, como se ilude aquele que se autodenominou "homem sábio" ou "Homo sapiens" — são as principais molas impulsionando nossas atitudes. E, entre elas, a raiva é talvez a que mais embaralha as ideias. A raiva tem pressa e exige que você aja ligeiro, passando por cima dos outros, sim, mas também do seu corpo e de sua inteligência muitas vezes.

Na sua cabeça, ela leva exatos 2 segundos para explodir, me disse o neurocientista, e você tem mais ou menos mais uns 10 segundos para desarmar essa bomba. Há, portanto, um bocado de valor naquele conselho de contar até 10 antes de tomar qualquer atitute —  contra-atacar quem o xinga na rua, responder um e-mail, comentar nas redes sociais…

No miolo da massa cinzenta, em sua área mais primitiva, uma estrutura chamada amígdala se enche de cólera muito antes de que você tenha qualquer consciência. Viu o número do seu adversário na tela do celular? Pronto. Você mal tinha compreendido se aquilo era um 17 ou um 13 e a amígdala já havia liberado sua fúria. Melhor, havia liberado sinais para a região do hipotálamo, o qual imediatamente ordenou a glândula hipófise, ali mesmo, a mandar mensagens para as glândulas supra-renais, sobre os rins, secretarem doses generosas de hormônios do estresse — o famoso trio adrenalina, noradrenalina e cortisol. O excesso deste último, em especial, pode levar de vez a um caos.

Com a substância abundante, os neurônios se tornam mais permeáveis ao cálcio. E hoje exames modernos mostram que a região pré-frontal do cérebro, aquela atrás da testa, parece ser a mais vulnerável. A entrada excessiva de cálcio ali aumenta demais a velocidade de troca de informações até que… esses neurônios pifam. Não à toa, diversos estudos mostram que, de todas as emoções, a raiva exacerbada ou moderada, mas constante, é a que mais atrapalha a tomada de decisões.

Tem mais: esse curto-circuito provoca morte neuronal. Os exames de imagem realizados na Universidade do Sul da Califórnia revelam algo assustador: pessoas com transtornos mentais e que, por causa deles, vivem surtando de fúria, chegam a ter 11% menos neurônios em áreas nobres do cérebro, ligadas à cognição. Sim, podemos dizer que, com o tempo, a raiva até emburrece. Não sei dizer quantos neurônios perdemos nos últimos meses em cada espiadela nas redes sociais, passada de olhos no noticiário ou assistindo (ou por não estar assistindo) a um debate. Mas alguns neurônios perdemos. Para sempre.

Por outro lado, se a emoção se repete e pelo mesmo gatilho — por exemplo, por um 17 ou por um 13, pelos brancos ou pelos nulos, mais tudo o que nos espera depois do dia 28 de outubro — R. Douglas Fields diz que a tendência é a formação de sinapses na região cerebral do sistema límbico para, digamos, favorecer novas explosões de cólera. Daí, por qualquer motivo, como se o sistema nervoso entendesse que aquele comportamento, por ser frequente, é importante para a nossa sobrevivência. Sim, de momento de raiva em momento de raiva, criamos a barbárie.

A impressão, muitas vezes, é que falta inteligência na mesma hora em que o sentimento raivoso aflora. As neurociências mostram que não se trata de preconceito, de acordo com Fields novamente: "A raiva é uma emoção em que o cérebro usa atalhos, sentindo a urgência de um contra-ataque. É por isso que o indivíduo não elabora direito o raciocínio e apela com frequência para esteriótipos simplistas e infantis". Ou acredita em fake news piamente. Tem mais esta então: quem encara qualquer discussão com raiva geralmente cai no ridículo. A raiva constante nos deixa mesmo toscos.

Ao tomar atalhos neuronais,  o sistema nervoso prioriza o ataque mais do que qualquer reflexão —reflexão que seria a mãe da cautela. Há duas reações curiosas na massa cinzenta: ela não gasta um tempo ínfimo, mas precioso, para o sujeito tomar com a consciência de si mesmo. Diga-lhe: "você está gritando". E ele —provavelmente com a maior sinceridade do mundo — dirá que não. Não mente. Sua massa cinzenta não perdeu tempo com o registro do tom de voz nem das expressões faciais grotescas.

Tampouco espere que o hipocampo guarde motivo para arrependimentos. O banho de cortisol  afeta a memória recente, porque impede a formação de novas sinapses ali. Resultado: muitas vezes a pessoa também nega o que disse ao outro durante uma agressão. Quem nunca passou por isso discutindo a relação após uma briga feia? Não tome o raivoso por mentiroso. Mais provável é que realmente mal se lembre do que disse.

Os efeitos continuam pelo corpo. A pressão aumenta e o coração acelera — se, na calmaria,  passavam por ele cerca de 4 litros de sangue por minuto, na fúria o músculo cardíaco pode bombear até 20 litros. A pressão, ao mesmo tempo, se eleva. Há três anos, o cardiologista Geoffrey Tofler publicou no Jornal Europeu de Cardiologia que o risco de infarto multiplica 8,5 vezes na hora da raiva e a ameaça de um derrame aumenta três vezes nas duas horas seguintes. Então, já viu: se você não está perdendo uma briga para defender seu candidato, (algo em) sua cabeça poderá explodir e não estou usando sentido figurado.

O açúcar tende a subir no sangue também, o que não é nada bom, especialmente para diabéticos. Já o sistema imune entra em derrocada. Defensoras como as células natural killers morrem em vez de matar intrusos. A diminuição das taxas pode chegar temporariamente a 10%, elevando —após uma temporada de ataques reais e virtuais  — o risco de infecções e de uma célula cancerosa escapar incólume para formar um tumor.

Ah, sim, a digestão fica mais lenta, porque o aparelho digestivo se torna menos irrigado. A boca, mais seca.  A tireoide é outra afetada e o metabolismo fica mais lento —quem nunca se sentiu uma carcaça depois de algumas horas de mensagens agressivas na timeline do Facebook, me diga? 

A salvação, nos garante R. Douglas Fields, pode ser uma pequena área do sistema nervoso, na altura da sobrancelha esquerda, que seria uma espécie de freio — o lobo orbicular frontal. Mas ela precisa de alguns segundos a mais para desligar todos os mecanismos bélicos do corpo humano.

O ideal seria fugir de tudo aquilo que dispara esse tipo de reação, diminuindo as horas diante do computador ou acessando bem menos o WhatsApp. Mas, se acontecer, antes de reagir, além de contar até 10 para dar o tempo adequado a essa estrutura à esquerda de sua cabeça,  a velha dica do respirar fundo está valendo. O ritmo da respiração por si só comprovadamente acalma os ânimos e dá o intervalo necessário, segundo a neurociência, para você agir como um Homo sapiens em favor da sua saúde e das decisões sobre política. Até porque, como li noutro dia por aí,  duvido que alguns políticos briguem por nós como andamos brigando por eles para a gente sair do sufoco depois.

PS: como aqui é o VivaBem, comentários raivosos serão bem-vindos como todos, mas não serão respondidos em nome da nossa saúde. E da nossa inteligência.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.