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Blog da Lúcia Helena

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Dieta cetogênica faz bem para a cabeça, mas pode ser roubada para emagrecer

Lúcia Helena

30/10/2018 04h01

Crédito: iStock

Ovos, bacon, maionese, muito creme de leite e outros itens bem gordurentos protagonizam uma dieta que, de nova, não tem nada. Na verdade, a dieta cetogênica seria vintage, um verdadeiro clássico revisitado pela ciência.

A sacada que lhe deu origem origem é  quase centenária, quando em 1921 o médico americano Russel Wilder reparou que crianças com epilepsia tinham menos crises se ficavam um tempo razoável em jejum. Foi bisbilhotar e viu que até o velho Hipócrates, uns quatro séculos antes de Cristo, já tinha notado a mesmíssima coisa em qualquer tipo de convulsão.

Como não dava para deixar a criançada epilética  passando fome, Wilder apelou para o prato peso-pesado em matéria de banha.  A troca — do estômago vazio para o toucinho — parece contraditória. Você, como eu, precisa digerir os seus porquês. E, no fundo, nem é tão difícil — ao menos, quando se conta com a ajuda de uma professora como Nágila Damasceno, da Universidade de São Paulo. A nutricionista estuda a dieta cetogênica há cerca de dez anos.

O objetivo é provocar a tal da cetose, que hoje vive na boca de quem busca dietas para um emagrecimento pá-pum — aliás, vive na boca mesmo, porque a cetose deixa um hálito de espantar namorada ou namorado. O processo de cetose ocorre quando falta glicose para abastecer os órgãos e isso pode acontecer quando o indivíduo fica em jejum prolongado ou quando expulsa os carboidratos do prato, privilegiando proteínas e especialmente gorduras para, digamos,  ir direto ao ponto.

É que, como os órgãos vitais precisam de glicose, o corpo se vira. Primeiro, vai buscar seu estoque de glicogênio, as reservas de açúcar dos músculos e do fígado. Quando essa bateria extra acaba, passa a consumir as proteínas que encontrar disponíveis, mas isso ocorre por um tempo bem curto. Na sequência, só lhe resta torrar a gordura guardada nos pneus pelo corpo. Ao queimar esse estoque, surgem os famosos corpos cetônicos. Eles são três substâncias: a acetona, que logo desaparece, o acetoacetato e a beta-hidroxibutirato. Esta dupla pode substituir a glicose e abastecer de energia o cérebro, os rins, os músculos e o próprio fígado, de onde surge.

Segundo a professora Nágila, na massa cinzenta os corpos cetônicos agem de cinco maneiras. pelo menos, que ajudam a controlar os quadros de epilepsia. A principal delas seria modular um neurotransmissor chamado GABA, que inibe as convulsões.

Nos anos 1970, porém, surgiram diversas drogas anticonvulsivas  e, por causa delas, a dieta cetogênica  foi parar no freezer da ciência. Saiu de lá  recentemente porque os médicos jogaram a toalha no chão: por mais que as medicações tenham avançado, elas não fazem tanto efeito em uns  30% dos casos.

Daí que a cetogênica volta com tudo — e, cuidado, porque volta cercada de mitos em outras searas. O mais grave deles é poderia desacelerar o desenvolvimento de um câncer. "Isso não tem qualquer grau de evidência científica", sentencia  Nágila Damasceno. A hipótese é até que bonitinha: tumores são gulosos e o que mais devoram é glicose. Sem ela, poderiam sofrer de inanição. Mas que nada… Uma dieta cetogênica para um paciente com câncer é um disparate, capaz de colocar sua vida em maior risco.

No campo da obesidade, Nágila Damasceno e muitos de nós já sabemos: funciona. Quer dizer…, num primeiro momento. E aí já não estamos falando só da dieta original com seus incríveis 90% de gordura — nutriente que deveria representar de 25% a 35% das calorias da nossa alimentação. Há inúmeras variáveis, girando em torno de 45% de gorduras. Entra nesse pacote a turma das low-carb. Mas cuidado. O perigo vai além do óbvio — sendo o óbvio, nesse caso, aquela história de que ninguém sustenta tanta mesmice à mesa por muitos dias. Há outros senões mais preocupantes.

Se, em um primeiro momento que dura umas três semanas, o corpo reage bem, obrigado, a coisa toda,  depois,  às vezes muda de figura. No início, além do emagrecimento ligeiro, uma vantagem é o aumento da sensibilidade à insulina. Outra é a maior saciedade, causada pelos próprios corpos cetônicos e pelo fato de que o estômago demora para se esvaziar quando você come itens nada leves, como um hambúrguer coberto de maionese (sem o pão, claro!).

Porém, com o passar do tempo, as encrencas superam qualquer efeito na balança. Colesterol e triglicerídeos  vão se acumulando. E as porções fartas de gorduras saturadas provocam inflamações pelo corpo. "Não se trata de uma inflamação aguda, como a de uma amigdalite", esclarece Nágila ao blog. "São inflamações subclínicas, constantes o suficiente para terem um impacto bem negativo à saúde."  Elas estão por trás de muita rebordosa, do  câncer ao infarto, passando por um leque de doenças degenerativas. Não que uma dieta cetogênica seja capaz de causá-las sozinha, mas faz o perigo disparar.

Os corpos cetônicos  também geram uma quantidade fabulosa de radicais livres que nenhum organismo dá conta de neutralizar. E, de quebra, leva à falta de vitaminas e minerais. É preciso entrar com suplementação desde o primeiríssimo dia.

Acabou? Ntz, ntz, ntz…Os rins podem penar com cálculos. O mais importante, porém, é o risco de acetoacidose, a queda do pH do sangue provocada pelos tais corpos cetônicos. Aquele bafo de onça em regime indica a tal cetoacidose. Fique esperto: o pH sanguíneo é 7,4.  Se o sangue fica com pH 7,3 ou 7,2 por causa da dieta cetogênica, isso já pode provocar alterações na membrana do miocárdio e, pronto, para alguns isso resultará em um  infarto. 

Tremendamente arriscado, portanto, dar ouvidos a quem sugere uma estratégia dessas nas redes sociais, mesmo que seja — sinto dizer — nutricionista ou nutrólogo. Dieta cetogênica é uma alternativa de tratamento seríssima e que deve ser bem avaliada, além de acompanhada de perto.

O grupo de Nágila Damasceno na USP e de outros pesquisadores no mundo examinam se uma versão mais leve — com 60% da energia proveniente de gorduras — traria os benefícios consagrados sem tantos malefícios. Ela e seus colegas também andam trocando toucinho e companhia por fontes ricas em gorduras boas, como o azeite de oliva e as castanhas. Eles agora iniciam testes com essa nova versão em mulheres obesas e muito deprimidas. Sim, há fortes evidências de que a cetogênica ajude um bocado no tratamento da depressão e dos distúrbios de imagem.

Aliás, Nágila me conta que alguns dados mostrando que a cetogênica  retardaria o avanço do Alzheimer, especialmente quando há muito ômega-3 entre as gorduras que dominam o prato. Também avança a discussão se não valeria a pena recomendá-la para pacientes com epilepsia que não são refratários aos remédios, a fim de diminuir suas doses e aumentar ainda mais os intervalos entre as crises.

Isso tudo porque, para a cabeça, os corpos cetônicos podem, sim, ser muito benéficos. No entanto, como ela não está descolada do restante do corpo,  é preciso achar  um profissional que conheça profundamente o assunto — que só voltou a ser ensinado na faculdade nos últimos seis anos, por aí —, para avaliar a relação entre os riscos e o benefício. Para quem tem 100 crises epiléticas por dia ou uma depressão profunda pode ser uma coisa. Já se é para derreter a cintura, creio, a dupla vegetais e tênis deve ganhar de lavada da dupla ovo e bacon.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.