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Blog da Lúcia Helena

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Só pelo seu bafo, o celular diz se você tomou o remédio ou se está doente

Lúcia Helena

08/11/2018 08h55

Crédito: iStock

Não é incrível? E não pense que isso é coisa lá para um futuro distante. Nos Estados Unidos, já tem gente sendo avisada (e até dedurada) quando não toma o remédio direito, usando um sensor de nanopartículas acoplado ao celular, tão discreto que se confunde com o próprio aparelho. Em tempo: uma nanopartícula tem menos de 100 nanômetros, sendo que o nanômetro é 1 bilionésimo de metro.

Esse pode ser só o começo de uma era em que, apostam uns, o teste do bafo será mais preciso do que o da urina, mais simples do que o de sangue (ora, poderá ser feito até entre um alô e uma espiadela na rede social) e, muitas vezes, mais capaz de flagrar doenças precocemente do que sofisticados exames de imagem. Detalhe: o laudo sairá na mesma hora, na telinha do seu smartphone.

Não à toa, o cachorro segue as pegadas do dono usando o focinho. O que exalamos pelos poros e por outros orifícios do corpo, mas principalmente pela respiração, seria comparável a uma impressão digital — e com uma vantagem em relação à identidade que o nosso dedão imprime em qualquer canto onde toca.

A vantangem, por mais paradoxal que seja, é que a nossa marca deixada no ar é parcialmente mutante, porque até 6% do gás que expiramos são substâncias voláteis que se desprendem daquilo que engolimos, absorvemos por qualquer meio (pelo próprio ar tragado inclusive) ou injetamos, além das numerosas reações que acontecem dentro de nós. E — pulo do gato — células doentes têm cheiro próprio. Mais: são donas de um perfume único.

O aroma de um câncer de mama — alvo de um dos primeiros trabalhos focando o diagnóstico pela respiração, publicado ainda em 2004 — não é igual ao de um tumor de pâncreas, por exemplo. Só um sensor de nanopartículas seria capaz de sentir esse cheiro de fumaça, já apontando onde estaria o fogo, isto é, o órgão começando a adoecer. A maior vantagem desse tipo de tecnologia diagnóstica seria justamente fungar e reconhecer aquele cheirinho de um mal recém-nascido, por assim dizer.

Quem me mostrou o dispositivo no celular  foi Raj Ron Reddy, CEO da NGageIT,  empresa de Medicina Digital sediada em Ohio, nos Estados Unidos, pioneira em exames que se valem do ar que a gente expira, interpretados por meio de inteligência artificial e conectados a aplicativos. Ele foi um dos convidados do II Encontro de Empreendedorismo e Inovação em Saúde promovido pela Eretz.Bio, a incubadora do Hospital Israelita Albert Einstein. Mas ali, na NGageIT, tudo começou com a preocupação de Rag Reddy com a falta de aderência dos pacientes aos medicamentos.

Assim, ele criou uma plataforma em que nanopartículas, feito códigos de barras na superfície de cápsulas e comprimidos, são detectadas pelo sensor. O dispositivo então calcula e registra o horário em que o medicamento foi engolido pela última vez e até mesmo se ele foi consumido com outros remédios capazes de interagir com aquela substância. As possibilidades, nesse campo, são enormes. Amanhã ou depois, nanopartículas na medicação farão soar um alarme no celular quando ela estiver para vencer, deixando o paciente esperto em relação ao prazo.

Por enquanto, o sensor informa toda a rotina de tratamento, que fica registrada em uma nuvem e pode ser compartilhada com o médico ou com a família. Para você ter ideia da utilidade disso, segundo a American Heart Association, nada menos do que um terço das pessoas que sofrem de um ataque súbito do coração não estava, nos seis meses anteriores, tomando seus remédios para hipertensão e outros problemas que poderiam culminar em um piripaque conforme a prescrição. 

Reddy citou dados dos americanos: entre eles, metade das pessoas com doenças crônicas graves que dependem de medicação, ou 117 milhões de indivíduos, simplesmente se esquecem ou deixam conscientemente de tomá-la porque acham que não precisam– mas, com frequência, não assumem a decisão diante dos responsáveis pelos seus cuidados.

Mais de 70 milhões de americanos têm, para lhes complicar de vez  a vida, mais de uma doença crônica séria, precisando combinar vários remédios ao mesmo tempo, que às vezes se trombam no organismo em interações perigosas. Daí que a NGageIT, no princípio, também buscou uma solução para esse grupo, prevendo encontrões desastrosos.

Atualmente,  a startup de Ohio está envolvida na fase final de testes para diagnosticar pelo bafo quatro tipos de tumores. Um deles é o de mama. Entre os mais de 1.000 compostos voláteis diferentes que estão no nosso hálito, alguns podem acusar esse câncer que é, de longe, o mais estudado quando os cientistas querem saber se algo na saúde está cheirando esquisito.

Os outros tumores são o de pâncreas, o de cólon e o de pulmão. O desafio é que estamos falando de substâncias que existem na proporção de 1 molécula a cada 1 milhão, 1 bilhão ou até mesmo 1 trilhão de moléculas presentes em uma única baforada. Haja tecnologia para detectá-las de maneira confiável.

Em outras doenças, porém, será mais fácil usar esse tipo de recurso. Por exemplo,  todos sabem que um diabético pode ficar com um hálito avinagrado por causa da produção de substâncias chamadas cetonas. Assim como o paciente renal libera pela boca umas tantas moléculas com um odor que lembra o de peixe. Agora, imagine uma doença dessas bem no comecinho e seu celular avisando antes que qualquer um se dê conta: "opa, algo na sua saúde está cheirando mal, melhor visitar um médico".  E não adiantará fugir da consulta, viu? Seu clínico também será avisado.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.