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Blog da Lúcia Helena

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Você acredita mesmo que o açúcar provoca violência? Não force a barra

Lúcia Helena

13/11/2018 04h00

Crédito: iStock

Antes, vamos deixar claro: não sou dona de canaviais, nem vendo a alma por uma caixa de bombons (na maioria dos dias). Também acho que o açúcar precisa ser consumido com muito mais moderação, já que a Organização Mundial de Saúde (OMS) fala em um limite de 25 gramas por dia ou 6 colheres de chá. No entanto, nós, brasileiros de qualquer idade, ingerimos fácil mais do que o dobro do recomendado. Aliás, o Brasil é o quarto maior consumidor de açúcar do planeta.

Mas daí a sair dizendo que o ingrediente dispararia a agressividade, deixando a garotada mais suscetível a fumar, a beber demais, a comprar briga na rua, a fazer bullying no colega e a assumir outros comportamentos de risco me parece um enorme disparate.

Gente, menos, bem menos, por favor. Ouso bancar minha opinião, apesar de o achado ser de um estudo robusto, endossado pela própria OMS, feito com mais de 137 mil adolescentes de 26 países industrializados, sendo 25 deles europeus, mais o Canadá. Podem dizer que estou maluca de vez e que talvez tenha comido uns chocolates a mais na infância. Mas eu bato o pé e peço a chance de explicar o porquê.

Publicado há poucas semanas na revista Social Science & Medicine, o trabalho está fazendo o esperado estardalhaço, ao mostrar o seguinte:  adolescentes entre 11 e 15 anos que adoram balas, chocolates, refrigerantes convencionais e outros itens açucarados  seriam até 69% mais sujeitos a humilhar seus colegas. O açúcar, lançam a hipótese, seria um ingrediente do bullying. Se confiar nos resultados sem pestanejar, como andaram fazendo por aí, e olhar de perto as probabilidades, o filme dos jovens "formiguinhas" ficará ainda mais queimado.

Entre eles, o risco de ingestão precoce de álcool seria 72% maior e, analisando os que já tinham provado bebida alcoólica, 95% chegaram a ficar embriagados. Já a ameaça de se tornar tabagista seria 89% maior entre os maníacos por um doce, diz o levantamento feito por pesquisadores israelenses e italianos ligados à Unicef.  Mas, teimosa, questiono: será mesmo? Sei não…

Para começo de conversa, vou colocar um pontinho nos "is" do brigadeiro: ao contrário do que alguns veículos divulgaram, a pesquisa enfocou apenas adolescentes e não adolescentes e crianças. Não se trata de mero preciosismo fazer a distinção. Se o mesmo resultado fosse apontado em meninos e meninas pequenos, poderíamos dar asas à imaginação e especular a respeito de um efeito no desenvolvimento do sistema nervoso  capaz de tornar a criançada mais agressiva, qualquer coisa assim.

Porém, como se tratam de adolescentes, a influência do ambiente nas atitudes pesa um bocado. Todo mundo sabe disso. E aí é que está: os jovens que mais consumiam açúcar, no levantamento, eram justamente aqueles em uma situação social menos favorecida. Coincidência? Ora, é  assim quase no mundo inteiro: quando faltam proteína e vegetais na panela ou fruta em cima da mesa, em geral o copo de refri é maior, assim como os pacotes de bolachas recheadas.

Outra coisa: os investigadores falam o tempo todo de consumo de açúcar, mas na hora do vamos-ver, lendo o trabalho, noto que levantaram apenas  frequência de consumo (se o adolescente bebia refrigerante todos os dias, por exemplo) e não a quantidade de açúcar ingerida na rotina. Isso é esquisito. Em tese, um garoto pode consumir barras gigantes de chocolate três vezes por semana que corresponderiam a uma quantidade bem maior de açúcar do que a engolida por aquela garota que degusta um pequeno bombom todo santo dia. Enfim…

"Os próprios autores não conseguem explicar biologicamente a associação entre açúcar e comportamentos de risco", nos lembra a nutricionista Marcia Regina Vitolo, professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.  Aí mesmo é que deito a cabeça no travesseiro depois de fazer a minha crítica, porque não existe profissional de saúde no Brasil que erga mais alto a bandeira para proibir qualquer colherzinha de açúcar nos primeiros dois anos de vida.

Marcia Vitolo nos chama  a atenção ainda que esse é aquele tipo de estudo que os cientistas chamam de transversal, isto é, que observa populações, sem que a gente possa garantir que "A" leva necessariamente a B. No caso, ninguém pode sair afirmando taxativamente que o açúcar provoca violência, a não ser com colheradas cheias de irresponsabilidade.

Nesse tipo de trabalho, claro, dá para deduzir uma probabilidade maior disso ou daquilo. Mas, cá entre nós, será que em famílias que vivem com menos recursos e estrutura, em que os jovens passam mais tempo nas ruas com a sua turma do que em casa ou na escola, à mercê de condições adversas, enfim, será que a culpa da violência e do uso de substâncias pode ser atribuída ao açucareiro?

É preciso ter muito cuidado ao ler qualquer trabalho científico. Aqueles com números gigantes como este — wow, foram 137 mil jovens! — costumam impressionar e levar a interpretações equivocadas porque ninguém os questiona tanto.

"Todo mundo sabe que sou a maior incentivadora de que não se ofereça, de maneira alguma, açúcar para crianças com menos de 2 anos de idade, mas nem por isso aproveitaria a deixa de uma publicação de que tenho dúvidas para fortalecer a minha proposta", declarou Marcia Vitolo.

A mesma coisa vale para este blog: já existe motivo de sobra para diminuir a oferta de açúcar para crianças e adolescentes e recusar, você mesmo, aquela segunda porção da sobremesa, bem como a presença do açucareiro à mesa e aquela balinha cortesia do táxi. Existem comprovações científicas de que o açúcar em excesso é a bomba-relógio que explodirá no coração das novas gerações e elas já têm uma tendência a infartar muito antes que a nossa, citando um exemplo palpitante. Para que, então, ficar dando bola para uma dedução tão  forçada? Eu não enxergo outra razão a não ser o péssimo hábito de terceirizar a culpa por nossas mazelas pessoais e sociais.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.