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Blog da Lúcia Helena

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Vive lacrimejando? Esse é um dos sinais de um problema sério: olhos secos

Lúcia Helena

04/12/2018 04h00

Crédito: iStock

Se passou os olhos pelo título e não viu o menor sentido, vou deixar o recado ainda mais nítido: o olhar marejado pode entregar uma secura de dar dó. E, se o oftalmologista prescrever algo para garantir a umidade dos globos oculares, acredite que o doutor estará enxergando longe, evitando que, lá no futuro, você sofra leões graves na córnea. A síndrome do olho seco não é mero desconforto e não deve ser tratada num piscar, com duas gotinhas de um colírio qualquer, muito de vez em quando, e boa.  É algo mais sério — abra seus olhos.

À primeira vista, tudo confunde. Tem quem não derrame lágrima à toa, como no exemplo que dei, mas sinta ardência ou coceira por qualquer bobagem ou fique com duas bolas de fogo nas órbitas, especialmente de manhã cedinho. Tem também quem de vez em quando cisme que o mundo está meio fosco.

Existe outro sintoma que os médicos chamam de flutuação da visão: as imagens parecem embalharar e, depois de piscar algumas vezes, tudo melhora um pouco. É quando você está no meio de um livro e, de repente, o esforço para avançar mais alguns parágrafos parece insuportável. Ou, no final do dia de trabalho, quando já não lê mais nada sem aquela impressão de fazer força. Há também aqueles olhos que só reclamam quando estão em um local com ar-condicionado. Varia. Cada um manifesta de um jeito.

O fato é que nada é muito específico — o que deixa essa condição do olho seco meio embaçada. Afinal, o lacrimejar pode ser provocado por um cisco. Uma conjuntivite também deixa os olhos vermelhos e coçando. Um problema na córnea pode queimar de ardor…

No entanto, segundo a oftalmologista Monica Alves, professora da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, não há um exame que deixe claro e declare: você tem ou não tem olhos secos. O jeito para diagnosticar a síndrome é aplicar um questionário de sintomas como esses, analisar até que ponto são frequentes e se melhoram se o indivíduo fecha e abre as pálpebras.

Monica Alves, aliás, foi um dos cinco oftalmos brasileiros que, no ano passado, participou de uma reunião com 150 especialistas de todo o mundo para revisar o consenso sobre a síndrome, criado dez anos antes.  "Ela é provocada por uma alteração na quantidade ou na qualidade do filme lacrimal que protege toda a superfície dos olhos", definiu a médica ao blog. Se a gente pensar na córnea, a lente mais importante para a gente enxergar, bom lembrar que ela é também nutrida pela lágrima. E, por aí, você já começa a vislumbrar o tamanho da encrenca.

A doutora Monica  e seus colegas da Unicamp publicaram neste ano o primeiro estudo epidemiológico sobre o problema no país: em média, 12% dos brasileiros acima dos 40 anos têm olhos secos. E a ideia, agora, é saber a prevalência nos jovens. A suspeita, aqui e lá fora, é que seja cada vez mais alta, pelas mudanças de clima e pela mania que a moçada tem de não descolar os olhos de telas, telinhas, telões.

É bem verdade que a capacidade de produzir lágrima diminui com a idade. E que, no caso das mulheres, a menopausa contribui ainda mais para a aridez do olhar. Mas o problema está longe de se restringir ao pessoal maduro.

Para que enxergue a situação, entenda que o filme lacrimal possui três camadas. A mais espessa delas é a do meio, preenchida pelo líquido que flui das nossas glândulas lacrimais.  Ele está longe de ser uma aguinha salgada. Seus componentes são fundamentais para a saúde ocular. Já a camada mais externa é gordurosa e fica ali justamente para que a parte aquosa não evapore.

A fração oleosa é secretada pelas glândulas de meibomius. Existem de 20 a 30 delas no lado de dentro de cada pálpebra. A terceira camada do filme lacrimal, abaixo da aquosa,  é composta de mucina, uma proteína que faz todo o filme se aderir à superfície dos olhos.

E existem três formas de olho seco.  Primeira delas: quando a produção lacrimal fica aquém da necessidade. Segunda: as tais glândulas de meibomius não formam direito a película gordurosa e, daí, a lágrima vira vapor em um instante. Se isso ocorre, a superfície dos olhos, que é a área mais inervada do corpo humano, pede socorro ao cérebro e este manda as glândulas lacrimais produzirem mais líquido. Eis a razão dos olhos lacrimejantes — e, paradoxalmente, secos.

Em muita gente, porém, a síndrome do olho seco esconde os dois fatores por trás, tudo junto e misturado, sem que ninguém conheça o mecanismo. O diagnóstico correto é uma arte, até para saber remediar: o indivíduo precisa repor a lágrima ou só a película gordurosa? Precisa das duas coisas? Qualquer derrapada piora o desequilíbrio entre as camadas. É necessário, ainda, sarar alguma lesão na superfície ocular? Bem lembrado: viver assim machuca perigosamente os olhos.

A falta de proteção favorece estragos, como ceratites, e infecções na superfície ocular. No caso da córnea, ela passa literalmente fome, fragilizando-se ainda mais. Em casos extremos, a visão fica turva. Podem aparecer úlceras e até perfurações nessa lente. Não dá para fazer vista grossa e ficar suportando por um tempo enorme a chatice, como se fosse normal — por causa do frio, do calor, do vento, do ar-condicionado, entre outras histórias que nos contamos….

Quem apresenta algum sintoma cedo, merece tratamento e orientação, pois a tendência é piorar com os anos. Algumas doenças servem de estopim — entre elas,  as reumatológicas e outros males inflamatórios. O diabetes também e, no caso, porque arrasa com os delicados nervos da superfície ocular. Então, eles deixam de informar ao cérebro quando é necessário produzir mais lágrima.

Certos medicamentos agravam o ressecamento, como os antialérgicos, os antidepressivos e os diuréticos. Sem contar colírios para glaucoma e — pasme! — aqueles com função lubrificante. A doutora Monica Alves explica que eles precisam ter conservantes para evitar contaminações depois de o frasco ser aberto, tais quais substâncias fungicidas. Só que você pode ser sensível a esses componentes e, daí, as glândulas fazem greve.

Não se pode descartar os fatores ambientais, como o clima seco, a poluição, aquele ar-condicionado sempre citado… Muitos menos dá para a gente fechar os olhos para hábitos, como ficar horas diante do computador. Normalmente, piscamos de oito a dez vezes por minuto,  renovando o filme lacrimal. Mas, diante do monitor, fazemos isso só umas três vezes no mesmo período e, ainda, por reflexo, arregalamos os olhos.

Como não há cura, o jeito é olhar para isso tudo. Monica Alves dá uma dica: deixar a tela do computador um pouco abaixo da linha do olhar, o que o obrigará a manter as pálpebras levemente cerradas. "Nunca a deixe bem de frente aos olhos, muito menos acima", avisa a médica.

Quem vive em ambientes secos pode providenciar umidificadores de ar. No trabalho, vale sentar-se longe da saída do ar-condicionado. Ajuda, ainda, caprichar em porções de alimentos com ácidos graxos ômega — peixes de água fria, linhaça, castanhas.  O fundamental, porém, é visitar o oftalmologista se, vira e volta, seus olhos arderem, coçaram, acordarem vermelhos ou lacrimejarem — e, veja bem, sem empurrar esse compromisso com a barriga.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.