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O exame que flagra a apneia do sono em casa, sem fios por todo o corpo

Lúcia Helena

2018-12-20T18:04:00

18/12/2018 04h00

Crédito: iStock

Um em cada três moradores da cidade de São Paulo deixa de respirar à noite. Inúmeras vezes. E essas paradinhas — que de "inhas" não têm nada, se a gente pensar na frequência e nos estragos que fazem à saúde — podem ser acompanhadas de estrondos. Melhor, de engasgos e roncos. Mesmo quando as interrupções são quase inaudíveis, fazem o sujeito acordar um bagaço. O descanso, a todo instante interrompido pela falta de ar, acaba não acontecendo como deveria. 

O número de pessoas na noite paulistana com apneia obstrutiva do sono —  esse é o nome da encrenca — pode até ser extrapolado para outros centros urbanos brasileiros. "É uma epidemia", nota o professor Geraldo Lorenzi Filho, que é diretor do Laboratório do Sono da disciplina de pneumologia do Instituto do Coração, o InCor, da Universidade de São Paulo.

São pesquisadores do InCor, aliás, que apontam essa taxa de tirar o nosso sossego — a de que um terço dos brasileiros sofre de apneia. E afirmam isso  depois de terem levado mais de 1.000 indivíduos de 20 a 80 anos para dormir no laboratório, ligados a fios em tudo o quanto é canto. O exame, a tal da polissonografia, é capaz de detectar o problema do qual a maioria dos portadores nem desconfia, porque os micro-despertares não chegam a ser registrados pela consciência. Mas bote fé: acontecem. E é mesmo importante flagrá-los.

A apneia não está apenas ligada à fadiga, mas aumenta demais o risco de infarto e AVC, se nada for feito. As interrupções na respiração jogam a pressão arterial para as alturas e, ainda, dão condições ideais para que o colesterol se deposite nos vasos.

A parada respiratória recorrente acontece porque nós, humanos, evoluímos para causar barulho. Explico. Macacos — queira você ou não queira, nossos tataravós na evolução — têm um queixo mais projetado à frente, por exemplo, favorecendo a passagem do ar na garganta. Nós, não. "Temos uma garganta pequena e uma língua muito grande. Você deita, dorme, relaxa e a casa cai", descreve o professor Lorenzi Filho. E como cai! O ar custa a passar. Respirar, perdão, vira um sufoco.

Tudo vai piorando com a idade, porque — vamos encarar — dos pés à cabeça vamos perdendo o tônus. Despencamos mesmo. Nessa região não é diferente. Embora ninguém esteja enxergando o seu interior, seus tecidos ficam frouxos e flácidos, sacudindo em cada inspiração e fechando a passagem.

A obesidade é outro fator por trás da apneia porque também engordamos por dentro e, então, tudo fica ainda mais estreito. Pior: descobri com o professor Lorenzi Filho que a nossa língua, já grandalhona por natureza, engorda acompanhando a cintura alargada. É mole? É. Mole e, ainda por cima, balofa. Cai para trás quando dormimos e… O resultado você imagina. 

O desafio diante de um problema tão prevalente como a apneia é como levar tanta gente para fazer a polissonografia. Sem dúvida, um exame padrão-ouro, mas com um custo relativamente alto. E, para complicar de vez, exige que a gente saia da rotina, se desloque, durma  fora de casa e  conte carneirinhos entre um emaranhado de fios, o que não é exatamente um sonho.

Um esclarecimento apenas: a polissonografia flagra todo e qualquer distúrbio do sono, não apenas a apneia, e inclui observar madrugada afora as ondas cerebrais. É, sem dúvida, sensacional. Mas o mundo inteiro busca uma solução mais simples só para pegar as paradas respiratórias no pulo e encaminhar as pessoas com apneia ao tratamento — que varia, conforme a gravidade, de perder um pouco de peso a usar dispositivos especiais para evitar os bloqueios à passagem do ar.

Na França e na Espanha, por exemplo, os médicos têm indicado uma espécie de holter: o indivíduo vai para casa com um aparelho portátil capaz de medir a sua oxigenação durante a noite, ou seja, um oxímetro. No entanto,  ainda existem alguns  fios e uma certa complicação.

Daí o sucesso tecnologia criada por pesquisadores do próprio InCor em parceria com a startup Biologix: um sensor colocado na ponta do dedo indicador, conectado ao celular do próprio paciente. O dispositivo foi testado com sucesso em mais de 300 dorminhocos e os resultados não foram nada discrepantes com aqueles apontados pela complexa polissonografia feita no laboratório. Ou seja: dá para confiar.

Enquanto a pessoa examinada dorme, o aparelhinho na ponta do seu dedo mede a variação na quantidade de oxigênio que circula pelos vasos. É uma espécie de oxímetro, que percebe a diferença de oxigenação pela cor do sangue. É que ele fica um vermelho bem vivo quando está cheio de oxigênio e muda para um tom mais escuro quando a presença desse gás diminui na circulação. Na apneia, é uma gangorra: a taxa sobe e depois cai; sobe de novo e cai novamente. 

As informações captadas na ponta do dedo são transmitidas por bluethtooth para o celular. A pessoa só precisa baixar um app que, diga-se, é de graça. E depois de uma noite bem, ou mal, dormida, o programa cria um relatório que segue para a nuvem da web, sendo acessado pelo médico onde quer que ele esteja. 

Melhor eu esclarecer que esse não é um exame que qualquer um pode comprar o sensor, e boa. O que tem valor é a interpretação do especialista, apesar de toda a facilidade para executá-lo. Mas a simplificação, espera-se, fará diferença para muita gente. Até porque 93% das mulheres e 82% dos homens com apneia ainda não foram diagnosticados. 

Aliás, sim, lamento informar que as mulheres sofrem de apneia e — ai, que medo… — depois da menopausa empatam em paradas respiratórias e roncos com os dormidores da ala masculina.

O exame brasileiro — finalista do Prêmio Dasa & Saúde — acaba de ser lançado, no início deste mês, no Congresso Brasileiro do Sono. Muitos especialistas da área começam a adotá-lo, assim laboratórios de análise clínica. Só assim aumentar o número de flagrantes em  quem dorme perigosamente. E com outras vantagens.

Por ser  simples, a nova tecnologia permite que o paciente repita o teste por duas ou três noites, o que pode ser uma boa. Isso porque a apneia, tal qual o ronco que pode acompanhá-la, piora quando a pessoa está muito cansada ou até mesmo quando consumiu alcool, já que a bebida aumenta o relaxamento dos tecidos que revestem a passagem do ar. A repetição, se o médico indicar, pode dar um cenário mais preciso.

Outra possibilidade é a do exame ser usado para acompanhar a eficiência do tratamento prescrito. Lorenzi Filho  dá o exemplo das placas móveis indicadas para alguns pacientes. Elas são colocadas na boca na hora de ir para a cama, com a intenção de puxar o queixo para frente e, digamos, literalmente abrir a passagem. Mas nem sempre uma placa puxa o suficiente. Ou, tanto pior, às vezes puxa demais e desnecessariamente, provocando dores articulares e problemas nas arcadas dentárias. O teste com o dispositivo na ponta do dedo, porém, permitará que os especialistas encontrem a justa medida para que ninguém troque um problema por outro. 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.