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Os fungos que podem estar por trás da obesidade: Candida, agora até tu?

Lúcia Helena

27/12/2018 04h00

Esta é a imagem de fungos do gênero Candida, mais comuns no intestino dos obesos. Crédito: iStock

Que, lá no intestino, existem  bactérias mais presentes em gordos e  bactérias mais frequentes em magros, isso já é bem conhecido. Mas outros seres microscópicos resolveram botar o seu pezinho na balança e aqui eu lhes apresento o admirável mundo novo da micobiota. Ah, sim, você leu certo. Aqui é "mico" mesmo, como na palavra micose. Micobiota.

Não é da micro, a microbiota intestinal, que estou falando,  que seria o conjunto inteiro dos mais diferentes micro-organismos  habitantes desse espaço, diria, tão cosmopolita — superlotado não só pelas famosas bactérias, mas por vírus, arqueas, parasitas e, sim, fungos. E o papo agora é focado nestes inquilinos, a nossa tal de micobiota.

Dizer que são poucos os estudos questionando o seu papel na obesidade seria um gigantesco exagero. Isso porque até o momento só existem dois — dois! —  trabalhos relacionando fungos e excesso de peso. Um deles foi realizado no México. O outro, mineirinho e recém concluído, é assinado por um time da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), para a gente fechar o ano com mais esta: por fora corpo rechonchudo, por dentro intestino bolorento.

No trabalho liderado pela farmacêutica bioquímica Francis Borges, professora da UFJF, foi comparada a micobiota de três grupos: 24 indivíduos obesos, 24 pessoas ligeiramente gordas ou com sobrepeso e, para completar, 24 criaturas magras. Todos foram pesados, medidos, preencheram questionários e contaram tintim por tintim como era o seu dia a dia, incluindo, claro, o que costumavam comer e beliscar por aí.

Também fizeram exames de sangue  para que Francis Borges e sua equipe checassem a quantas andavam o colesterol, os triglicérides, a glicemia… O ponto alto da batelada de testes foi deixar, óbvio, amostras de fezes para o escrutínio dos pesquisadores.

Nessas amostras, existiam 854  unidades formadoras de colônias  — cada pontinho na lâmina, uma verdadeira comunidade desses "micos" pronta para se expandir. Impossível saber quão numerosas cada uma delas e contar fungos um por um para fazer um censo. Eu explico. 

O que os cientistas conseguem contabilizar com os equipamentos de seus laboratórios de microbiologia são células e, nessa turma dos fungos em especial, existem as chamadas leveduras, que são unicelulares, e os  filamentosos que, para complicar a vida, são pluricelulares. Ou seja, pela contagem de células nunca dá para saber quantos fungos são.

Nas amostras colhidas em Juiz de Fora, como no fundo a professora Francis esperava, os fungos mais prevalentes em uns não eram os mais frequentes em outros.

Sua suspeita era motivada pelo fato de que a única coisa que a medicina já tinha como aposta certeira era do envolvimento dos fungos com as doenças inflamatórias intestinais. E como a obesidade não deixa de ser uma doença inflamatória…

Nos participantes magros, a bioquímica encontrou a predominância de uns tipinhos conhecidos Paecylomyces — e, parece, eles são muito associados ao tão sonhado equilíbrio da microbiota como um todo. Nos obesos, porém, dois outros gêneros de fungos dominavam o pedaço  intestinal — o dos Penicillium e o dos Candida.

Pinicillium, quem diria…  O  mesmo fungo do bolor dos pães e dos queijos. O mesmíssimo, diga-se, que o cientista Alexander Fleming observou, sem querer, matando bactérias nas lâminas de seu laboratório em 1928 e — tchan, tchan, tchan, tchan — assim surgiu o primeiríssimo antibiótico da história, a penicilina.

Já a Candida, uma levedura, tem um representante ilustre, atordoante e famigerado, o albicans, provocador de  coceiras e ardores lá, lá mesmo, onde esse bicho pega e inferniza a vida de mulheres com a tal da candidíase. E ele atormenta os genitais de homens também, viu?

O curioso é que o consumo de carboidratos parece ser diretamente proporcional à população dessa dupla Penicillium e Candida em quem está bem acima do peso ideal. Segundo a conversa que tive com Francis Borges, quando o obeso preferia se encher de frituras e outras fontes de gorduras em vez de atacar sobremesas, esses fungos não cresciam tanto. Sim, eles gostam de doces, pães e massas.

Aproveitei o papo e perguntei sobre os participantes com sobrepeso — e como seria então a micobiota dessa gente? Ouvi que assim como no IMC — que, neles,  não é nem de magro e nem de obesos —, o que se encontrou no intestino foi uma combinação de fungos no meio do caminho, em que os Paecylomyces  dos magros praticamente empatavam com as Candida e os Penicillium dos gordos.

Mas a pergunta que vale ouro é aquela que será feita em uma nova etapa de estudo: como será que esses fungos agem no que diz respeito à obesidade? Note o seguinte: no caso das bactérias, as numerosas bacteroidetes do intestino de quem está em dia com a balança ajudam a controlar o apetite, enquanto as firmicutes dos obesos favorecem o acúmulo da energia obtida pelos alimentos.

Será que os fungos apenas reagem ao nosso estilo de vida crescendo mais ou crescendo menos conforme o que comemos, por exemplo,  ou será que, feito as bactérias em sua vizinhança, também fazem alguma coisa para piorar a situação de quem pena para emagrecer? "É a resposta que, adiante, pretendo buscar", avisa Francis Borges.

E, cá entre nós, provavelmente ela e seus colegas encontrarão alguma coisa nesse sentido. Afinal, a presença muito forte da candida nas fezes também se relacionou a taxas piores de gordura no sangue e a maior resistência à insulina. É, aí tem…

Se há alguma lição que já podemos tirar de cara é a de maneirar no açúcar e em outros carboidratos simples. No que diz respeito à micobiota pelo menos, em exagero eles é que fazem o sonho de um corpo em forma ficar mofando ano após ano. E ninguém quer uma promessa de Ano Novo criando mofo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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