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Blog da Lúcia Helena

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Não precisa mais fazer jejum antes da maioria dos exames de sangue, sabia?

Lúcia Helena

2010-01-20T19:04:00

10/01/2019 04h00

Crédito: iStock

Noutro dia, encontrei o patologista Gustavo Campana que, além de vice-presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial (SBPC/ML), é diretor médico da Dasa. Conversa vai, conversa vem, comentei que tenho o hábito de fazer testes laboratoriais à tarde, fugindo da superlotação das salas de espera. Bem, o problema, pensava, era ficar sem almoçar por por causa do exame de sangue…  E ele arregalou os olhos: "Por quê?!". 

Foi assim que descobri: a necessidade de jejum  praticamente caiu há dois anos. Daquela imensa lista de possibilidades — hemograma, teste de HIV, dosagem de hormônios… —, ele só é necessário em nove exames. Entre eles, o de glicemia de jejum (e, se o nome é esse, acho que nem tenho de explicar o porquê). Os outros testes em que ficar oito horas sem comer é uma exigência são muito pouco solicitados, diga-se de passagem.

Tentei dar uma de esperta, disfarçando a ignorância, o que é uma tentadora bobagem. Dissimulei: "ah, não, doutor, mas tinha o exame de colesterol no meio". Pra quê! O mico se completou. Pois saiba que há quem diga o seguinte: é até melhor dosar o colesterol quando você seguiu sua rotina normal, comeu como sempre, nem mais, nem menos, nem nada de muito diferente. Você já estava por dentro disso e eu fui mesmo a última a saber? Me diga! Então, entenda o que está por trás do que os especialistas chamam de flexibilização do jejum.

O primeiro motivo aposto que adivinha: a bendita evolução tecnológica. Antes, os laboratórios se valiam de reagentes capazes de provocar alterações na amostras, que então se tornavam mais ou menos turvas, sofriam alterações de cor ou a luz se dispersava de outra maneira quando incidia sobre elas. E eram essas mudanças na aparência, digamos, que entregavam de um jeito ou de outro aquilo que se pretendia analisar. Daí o problemaço de comer e estender o braço, poucas horas depois, para tirar o sangue. 

Dentro do tubinho, ele ia logo parar em uma poderosa centrífuga. Depois de o equipamento girar e girar — feito! —, os famosos glóbulos brancos e vermelhos se separavam da porção líquida, o soro. E se esperava que esse soro fosse transparente. Aí é que está:  pouco tempo depois de um café da manhã ou de um almoço, esse líquido ficava cheio de gordura e leitoso. Leitoso de tal jeito que não dava para confiar demais nos métodos antigos. Mas agora, tanto faz. 

As novas tecnologias se valem de anticorpos monoclonais e enzimas que, como se teleguiadas a um alvo específico, se ligam à molécula a ser examinada, fazendo-a emitir uma luminescência, por exemplo, como se fossem microscópicos faróis apontando a equipamentos ultra-modernos o que precisa ser visto e, depois, contabilizado.

Aliás, no que diz respeito ao colesterol e outros lipídeos, a situação hoje é quase o contrário da anterior. No finalzinho de 2016, a Associação Europeia de Cardiologia publicou um amplo estudo, comparando quem, doze horas antes de fazer o exame de perfil lipídico, tinha mantido sua alimentação normal e quem passou esse mesmo período em completo de boca fechada . 

Os autores notaram, assim, que o resultado do LDL, do HDL e de  partículas afins era muito mais fidedigno na turma que tinha comido. Para Gustavo Campana, faz total sentido: "o jejum falseava os níveis dessas gorduras e não mostrava realmente o que acontecia no momento de maior risco de circularem pelo sangue, ou seja, após as refeições."

Tudo se encaixa na minha cabeça também: na vida real, ninguém passa o dia sem comer nada. O retrato do exame não deixava de dar uma roubadinha leve, modo de dizer. Por falar em resultado, ele agora aponta uma faixa conforme o perfil de cada paciente: a dosagem que está "ok" para quem não tem histórico de problemas cardiovasculares claro que não deve ser a mesma de quem teve um pai infartado e já levou algum susto no peito.

Gustavo Campana, a propósito, é um dos três autores da nova recomendação de flexibilização do jejum da Sociedade Brasileira de Cardiologia em parceria com a SBPC/ML. "Na verdade, essa discussão se o jejum podia ser abandonado ou não já vinha acontecendo há algum tempo", contou ele ao blog. "A única dúvida que restava  era se isso era possível no teste do perfil lipídico e, como ele é muito solicitado ao lado de outros exames, não fazia sentido liberar o jejum do resto e ainda ser necessário  ficar sem comer para dosar o colesterol, por exemplo" De fato, a pessoa teria de colher sangue em dois dias diferentes ou isso daria uma confusão danada.

Por que flexibilização? Porque só libera a pessoa para comer quem quer. Existem laboratórios que ainda pedem jejum, talvez mais receosos. E médicos que também ainda o solicitam. Campana acha que isso é questão de tempo, por ser algo relativamente novo.

Importante: se o profissional de saúde solicita que a pessoa passe fome por algumas horas, o laboratório de análise clínicas deve respeitar estritamente o que está escrito na prescrição. Ou seja, mesmo que lá o jejum não seja condição para fazer o teste, mandará o sujeito de volta para casa se ele tiver comido algumas horas antes, obedecendo ao pedido médico.

Caso contrário, a flexibilização beneficia muita gente. Por exemplo, a população de diabéticos, que corre o risco de uma hipoglicemia após ter jejuado. Assim como gestantes, crianças e idosos — lembrando que as pessoas dessa faixa etária realizam, segundo Campana, 3,5 vezes mais exames laboratoriais do que pessoas mais jovens. E fazer um lanchinho é sempre um conforto.

Sem contar que agora, como eu, qualquer um poderá escolher um horário mais calmo e, logo, de rápido atendimento para ir ao laboratório, comendo o de sempre duas  horinhas  antes no caso maioria dos testes— conforme o exame, como o de hormônios tireoidianos,  quatro horas de antecedência, mas nada, nada além disso. 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.