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Irisina: entenda de uma vez o elo entre os seus músculos e o Alzheimer

Lúcia Helena

2015-01-20T19:04:00

15/01/2019 04h00

Crédito: iStock

 

Quando, em 2012, cientistas de Harvard, nos Estados Unidos, descobriram que as fibras dos músculos esqueléticos, ao se deslizarem umas sobre as outras e movimentarem os ossos, produziam um hormônio, era só o início de um tremendo rebuliço. A musculatura, que até então fazia parte apenas do aparelho locomotor, passou a ser considerada mais uma integrante do sistema endócrino, começa por aí. 

A substância liberada pelas fibras em ação — isto é, só quando trabalham às custas do nosso suor, viu? — é uma mensageira. Daí o nome irisina, que vem de Íris, a deusa grega que vivia para cima e para baixo levando os recados de Zeus e de Hera aos pobres mortais.

De cara se descobriu que a irisina transmitia ordens para os nossos pneus  se transformarem em gordura marrom, tipinho que aumenta o gasto de calorias, torra a sua vizinhança e explica, em boa parte, por que a ginástica ajuda a emagrecer ou, no mínimo, a manter o peso.

Mas não demorou muito para se levantar a hipótese, hoje confirmada, de que a baixa produção de irisina estava envolvida com o diabetes tipo 2. E foi o que bastou para colocar uma pulga atrás da orelha da pesquisadora Fernanda de Felice, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Há algum tempo, a cientista já investigava por que raios pessoas com essa forma de diabetes, tremendamente ligada ao sedentarismo, tinham maior risco de desenvolver Alzheimer, doença à qual ela sempre dedicou seus estudos. Sensível, costuma dizer: "Não consigo pensar em nada mais cruel do que algo capaz nos roubar as lembranças do que vivemos com pessoas queridas".

Se a falta  irisina estava envolvida com o diabetes 2, raciocinou Fernanda sete anos atrás, quem sabe ela também não teria um efeito protetor da memória?  A especulação em sua cabeça deu a largada de uma pesquisa que, na semana passada, deixou o mundo de queixo caído, depois de ser publicada no periódico britânico Nature Medicine.

O esforço científico contou com  25 cientistas. Além de brasileiros da UFRJ,  da Fiocruz e do Instituto D'Or, no Rio, pesquidadores das universidades americanas de Columbia e de Kentucky, e das canadenses Queen's University e Universidade do Oeste de Ontário. A união de forças se justifica: o Alzheimer passa uma borracha nas recordações de 35 milhões de indivíduos ao redor do mundo, sendo aproximadamente 1 milhão deles brasileiros.

O trabalho prova que pacientes com a doença têm mesmo, como era a suspeita inicial,  menos irisina na massa cinzenta. Mostra ainda que esse hormônio produzido com o exercício físico ajuda o sistema nervoso a gravar tudo o que acontece. Mas o ponto inesquecível da empreitada científica é este: feita uma reposição hormonal de irisina, os camundongos com Alzheimer usados na investigação recuperaram a sua memória. Faz ideia do que isso pode significar?

Tudo bem, somos homens e não, camundongos. Calcula-se que ainda exista o chão de uns três, quatro anos para a ciência caminhar, até que finalmente  doses de reposição de irisina comecem ser testadas em seres humanos com Alzheimer. O fato é que a descoberta atual abre a possibilidade de um tratamento capaz até de curar a doença — ou, vá lá, sendo menos otimista, estancar o seu avanço.

Possível vantagem: em teoria, a reposição de irisina não teria muitos efeitos colaterais, já que se trata de uma substância que o organismo produz naturalmente cada vez que nadamos, corremos, andamos de bicicleta ou damos umas belas voltas no quarteirão do bairro.

Para entender como a investigação chegou a tantas conclusões interessantes, queria contar um pouco sobre como foi realizada — eu, pelo menos, adoro essas aventuras da ciência.

Em laboratórios de pesquisa, deduzir o quanto os  camundongos se lembram ou deixam de se lembrar das coisas é na base de observar o tempo que eles ficam fuçando um objeto qualquer. Por isso, os animais foram deixados em caixas com alguns itens. Porém, parte do que havia na decoração do ambiente foi trocada depois.

O esperado de um bichinho com boa memória era que, feita a troca, ele só desse bola para as novidades do lugar. Os camundongos desmemoriados, no entanto, continuaram prestando a maior atenção em objetos que deveriam ser velhos  conhecidos na caixa, como se dissessem: "muito prazer, o que está fazendo aqui?". Mas… opa! Quando recebiam irisina, voltavam a se lembrar de tudo. A prova? Daí só ficavam bisbilhotando as novidades no seu pedaço.

Outra experiência foi colocar camundongos com ótima memória e camundongos com Alzheimer em um labirinto cheio de água. Para que descansassem, sem a obrigação de ficar nadando o tempo inteiro, tinham de alcançar uma plataforma.  Passado um dia, ambos os grupos tiveram de repetir esse exercício de perder o fôlego. Os camundongos saudáveis se lembraram de algumas pistas visuais e logo acharam o caminho para a plataforma. Mas os coitados com Alzheimer…. 

Os camundongos com Alzheimer  demoraram um tempo imenso para encontrar o lugar de descanso. E isso, olhe lá, quando conseguiram descobrir o caminho. Mas, de novo, palmas para a irisina: feita a experiência uma terceira vez, agora com o hormônio do exercício circulando no corpo, os animais com Alzheimer se equiparam à turma sem a doença e deram suas braçadas (para não dizer patadas) rapidinho para a plataforma.

Em uma terceira etapa, todos foram deixados em caixas onde levavam pequenos choques.  No dia seguinte, voltaram para lá. Os camundongos normais, que se lembravam bem do que tinham sofrido ali dentro, ficaram paralisados de medo. Mas aqueles com Alzheimer circularam felizes da vida, sem a menor recordação do choque que logo viria. De novo, a irisina foi a salvação e, graças a ela, quando receberam a reposição ou se exercitaram, lembraram de não se mover naquele espaço, evitando a descarga elétrica.

Mas, ok, como será o efeito na irisina em gente como a gente? Além de o trabalho ter sido em camundongos, há outro senão: ninguém sabe se a irisina recupera as lembranças por toda a vida ou se o efeito é fugidio. Mas as revelações feitas pela ciência brasileira já criam uma baita expectativa. Só uma pena: por falta de infra-estrutura, o mais provável é que as etapas com seres humanos sigam  fora do país.

Um detalhe não pode passar despercebido, como alertam os autores: os camundongos recuperaram suas memórias tanto quando produziram irisina naturalmente, fazendo exercícios em suas gaiolas, como quando receberam a reposição desse hormônio.

 Essa reposição, diga-se, foi em doses equivalentes à da ginástica, mimetizando a atividade física, nada extraordinário. É a pista de que o simples exercício realmente faz efeito para evitar ou retardar o surgimento do Alzheimer.

Na linha do recordar é viver, tiro do meu baú de memórias uma série de suspeitas do que poderia estar por trás desse apagão no cérebro, incluindo teorias conspiratórias ligando o Alzheimer a substâncias químicas e a determinados alimentos.  Talvez existam mesmo outros responsáveis pela doença e ao menos parte do que se falou não seja mera especulação. Mas, seja como for, agora tudo indica que o maior fator de risco é o hábito, tão moderno e tão nefasto à cabeça, de se largar no sofá.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.