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Um único dente de alho por dia afasta o risco de câncer e de outras doenças

Lúcia Helena

2021-02-20T19:04:00

21/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Não sei quantos alhos seriam necessários para espantar os vampiros da Transilvânia de acordo com a lenda, mas uma coisa eu garanto: um único dente já afugenta muita doença. É o que basta.  Noutro dia, confesso, estava refletindo sobre essa história de alçar alimentos a superalimentos, título que damos para enaltecer um ingrediente quando sai um novo estudo sobre uma de suas propriedades em prol da saúde. Aponto o dedo para o meu próprio nariz: no entusiasmo, talvez já tenha exagerado e feito isso, mas não vou render assunto para ir direto ao alho. Talvez  ele, sim, seja um legítimo merecedor do apelido. 

Tenho os meus argumentos. O primeiro é a porção: um dente de alho, tempero tão difundido em nossa cozinha, me parece viável. Tem muito "superalimento" por aí que, na prática, teria de ocupar todo o seu prato para fazer algum efeito. Segundo, o respaldo científico: dei uma olhadinha há pouco no PubMed, a biblioteca do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos, e foram 1.507 estudos só nos últimos cinco anos sobre o poder do Allium sativum sobre a saúde, algo já relatado há  mais de 4 milênios pelos egípcios. 

Encontrei nas palavras da fundadora da Associação Paulista de Fitoterapia, Vanderlí Marchiori, outra razão para achar que o alho é mesmo super: "Ele abaixa, sim, o LDL, que seria o colesterol ruim, e reduz a ameaça de trombos na circulação", começou ela a me listar. "Auxilia, sim, a controlar a glicemia e a insulina", enfatizou. "É extremamente bactericida, ajudando a matar bactérias gram-positivas e gram-negativas. É um ótimo fungicida também, com ação comprovada inclusive em fungos que são muito comuns em diabéticos. E, como se não bastasse, há diversos achados apontando que age contra o vírus da gripe. São só exemplos." Deixo registrado que estamos falando de ações demonstradas pela ciência. Não se trata de receita da vovó.

Pedi uma entrevista à Vanderlí porque ela já escreveu um livro sobre o tema, hoje esgotado. Aliás, curioso: Vanderlí é nutricionista e também fitoterapeuta, uma combinação, eu diria, bem com o sabor do alho, que é um condimento à mesa e, na farmácia, uma das espécies reconhecidas como remédio fitoterápico pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Aliás, quando o escritor irlandês Bram Stoker fez uma de suas personagens usar um colar de alhos para enxotar o Conde Drácula, no clássico que publicou em 1897, ele criou a releitura de um mito antigo: em tempos nos quais as doenças eram tidas como obra do diabo, as propriedades medicinais da erva, cujo bulbo ardido a gente come,  eram encaradas feito um feitiço contra o Mal —  assim, com letra maiúscula. Nem tanto… Talvez, modestamente, contra males tão mundanos.

Mas preciso contar que, entre as últimas do alho está ser o melhor tempero contra o câncer. A primeira evidência mais parruda veio da China. Lá, há pouco mais de cinco anos, os pesquisadores analisaram o hábito alimentar de cerca de 6 mil pessoas. Cruzando os dados sobre a  saúde delas,  concluíram que o hábito de comer alho diariamente derrubaria em 44% o risco de câncer nos pulmões. Entre os fumantes espeficamente, que castigam esses órgãos com suas baforadas, a diminuição da ameaça foi perto de 30%.

De lá para cá, surgem trabalhos que apontam como a alicina, princípio ativo da espécie, atua no DNA das células evitando mutações genéticas, um dos gatilhos para os tumores. E esse não seria o único mecanismo. Aliás, voltando ao PubMed, de dezembro do ano passado até a véspera da publicação deste texto, foram 14 pesquisas sobre os efeitos do alho nas células malignas.

Vou dar um aperitivo: chineses (eles de novo, mas agora da Universidade de Beijing) ao lado de pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, mostraram que a alicina suprime mutações que levariam uma célula do estômago a iniciar um belo câncer gástrico. O trabalho foi publicado agora, em fevereiro, no mesmo dia em que  pesquisadores da Universidade Livre de Berlim e de mais três instituições alemãs demostraram que a substância do alho age em 332 proteínas presentes em diversos tumores, ajudando a conter a doença.

Além de evitar mutações que disparariam o câncer e atrapalhar o crescimento de tumores já existentes, a alicina impulsionaria as defesas, cooperando para que o sistema imune reconheça e destrua células doentes. No fígado, por sua vez, ela turbina moléculas — as de glutationa S-transferase, pra quem faz questão do nome — que ajudam o órgão a lidar com substâncias tóxicas.

Claro que nenhum "superalimento" é 100%  de garantia de que uma pessoa não ficará doente. É um hábito a mais temperando o dia a dia para afastar a probabilidade encrencas. Quem escreve promessas superlativas está mentindo — eis minha crítica ao rótulo "superalimento".  Só que tudo na vida tem um preço, certo?  No caso do alho, aqui vai a fatura: o ideal é aguentá-lo cru.

O processado comprado como tempero pronto deixa a desejar — além de ser cheio de conservantes, como o sódio, boa parte do potencial da alicina vai para o brejo.  Alho frito? Esqueça também. Botou no óleo quente e, na melhor das hipóteses, 90% da alicina desaparecem. Cozido? Bem, só se a temperatura não ultrapassar 60 graus Celsius, o que é distante do ponto de fervura e, mesmo assim, com a comida sem borbulhar, tem de ser por pouco tempo.

A dica então seria acrescentar o dente no final do preparo e, cá entre nós, aí você  irá comê-lo não tão cozido. Assado? Só se não ficar mais de 10 minutinhos no forno médio e olhe lá — um bocado da alicina também se perde. Ah, tem mais, melhor esmagar do que picar, para diminuir a área na superfície do dente que entraria em contato com o oxigênio, elemento capaz de mandar parte das propriedades para o espaço. 

Qualquer que seja a forma de consumo, porém, mais do que o sabor picante, o que pega todo mundo — até os adoradores de alho como eu —  é o bafo inconfundível. Pode tentar hortelã, menta, pasta de dente, chiclete — tudo ajuda e nada resolve. Por quê? Porque a alicina vai parar no sangue e perambula por ali durante horas a fio. Portanto, aquele hálito típico também é exalado pela mucosa irrigada de sua boca, de dentro para fora, entende? Já foi comprovado que o cheiro sai até pelo suor. Ele e o chulé ficam mais… ardidos?

A alternativa seria engolir uma cápsula diariamente, segundo Vanderlí Marchiori, com 900 a 1,3 miligramas de extrato ou óleo de alho desodorizado, porque muitos laboratórios usam um processo que mantém a atividade da alicina e tira parte do seu odor forte. Ou continue como eu, que prefiro  usá-lo na cozinha, comendo alho feliz da vida naqueles dias sem namoro e só amizade.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.