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A psoríase e o seu coração: você vê apenas a camada superficial do problema

Lúcia Helena

2014-05-20T19:04:00

14/05/2019 04h00

Crédito: Istock

Como disfarçar?  A pele, agredida pelo corpo, parece perder toda a sua humanidade. Vermelha, cascuda, tomada por escamas grandes e brancas, nem parece feita do mesmo tecido do resto da gente. Escancara o problema, dor aflorada. Mas o que se vê — o bastante para fazer mais de 90% dos pacientes terem experimentado a repulsa— é somente a superfície do problema. A psoríase é bem mais do que isso. 

Faz uns dez anos, ela deixou de ser encarada apenas como doença cutânea que, nos casos severos — cerca de 30% —, era capaz de atingir dolorosamente as articulações. "O paciente costuma chegar pela porta do dermatologista, mas uma das primeiras coisas que esse especialista precisa checar é o estado das juntas. Se nada for feito, elas poderão ser destruídas", diz a professora Cacilda da Silva Souza, coordenadora do Ambulatório de Psoríase do Hospital das Clinicas da Faculdade de Ribeirão Preto (USP). 

A cientista lidera um estudo, publicado no final do ano passado  e envolvendo oito universidades brasileiras, que é o primeiro realizado em nosso país levantando uma questão na linha ovo e galinha: será que as pessoas que têm obesidade ou diabetes são mesmo mais sujeitas à psoríase, como tem se cogitado de uns tempos pra cá? Ou será que a psoríase viria primeiro e deixaria suas vítimas à mercê de males que fazem, no final das contas, o coração pagar o pato? 

Segundo a médica, a  pele descasca inteira como uma reação aos ataques de citocinas inflamatórias, moléculas que despencam sobre suas células feito mísseis em função de um sistema imunológico completamente destrambelhado. Ah, sim, tem vários genes por trás do sistema imune sem noção. 

E, no caso, se a pele desfolha é porque ela não cabe em si ao pé da letra.  Afinal, fez o que pode para se salvar. Suas células se reproduziram à toa, na tentativa vã de formar uma capa de proteção. Então se amontoaram, tudo ficou espesso, grosso, um casco. Até que se soltaram em escamas no empurra-empurra por espaço.

Isso às vezes acontece nas palmas das mãos, enchendo de dor o mínimo gesto. Se acomete as plantas dos pés, o sujeito mal consegue andar. Mas as placas de psoríase podem aparecer em qualquer canto, especialmente antes dos 30 e depois dos 50 anos, vai saber o porquê… As lesões são comuns, ainda, em joelhos, cotovelos, nuca, unhas e couro cabeludo.

Hoje, no entanto, sabe-se que a pele se descamando  pode refletir a situação de um tecido que está longe dos olhos, mas — perdão — perto do coração. Eu me refiro ao endotélio, a parede interna dos vasos sanguíneos. Quando há a doença, ele pena também. E é isso o que o trabalho brasileiro sugere. 

A síndrome metabólica é um combo que ninguém quer:  gordura abdominal estufando a barriga, pressão nos píncaros,  diabetes tipo 2, obesidade e colesterol  lá no alto. Não há peito que resista. E, nos oito centros especializados em psoríase dentro das universidades que participaram da investigação, metade — exatamente a metade — dos pacientes tinha síndrome metabólica. Em 74,5% dos participantes, o colesterol estava alto demais. Em 61,8%, a pressão se apresentava bem acima do normal. A obesidade foi encontrada em 52% dos indivíduos. O diabetes? Em 30,9%.

O elo explica, em parte,  por que pessoas com psoríase têm uma expectativa de vida menor, se comparadas a gente sem essa doença. "Não podemos nos esquecer que, nelas, encontramos, com maior frequência do que na população em geral, hábitos  que são nocivos à saúde: o tabagismo e o consumo excessivo de álcool, os quais também contribuem para reduzir a longevidade", me disse a professora Cacilda. "Ambos, o cigarro e a bebida alcoólica em demasia, precisam ser cortados, até porque agravam as manifestações na pele. Mas é difícil, porque muitas vezes são usados como válvula de escape para a depressão e outros abalos psicológicos que a psoríase deflagra."

Já sobre a relação com a síndrome metabólica, a cientista esclarece que ela, em si, não é nova. Mas antes se pensava que o caminho era de mão única. "Já estava bem claro que a obesidade produz substâncias inflamatórias que, por sua vez, serviriam de gatilho para a psoríase naquelas pessoas com predisposição genética à doença", explica ao blog.  "No entanto, o que acumulamos de dados nos últimos anos nos permite levantar a suspeita de que as lesões na pele liberam tantas proteínas inflamatórias que elas vão também afetar outros órgãos e tecidos. Quanto maior a área afetada pela psoríase, pior — por ser proporcionalmente maior essa produção. Daí, é o estado inflamatório da pele que pode favorecer, do seu lado, a obesidade." Mão dupla, portanto.

A médica cita outros estudos mostrando que o acometimento de grandes extensões da pele pela psoríase se espelha na parede interna dos vasos — algo retratado por exames como a tomografia de emissão de pósitrons.  Ora, essa inflamação no interior das artérias é o primeiro passo para a formação de placas que, mais tarde, poderão ser o estopim para um infarto ou até mesmo para um acidente vascular cerebral.

"Por isso, o que estamos defendendo é que o portador  de psoríase, mesmo que não aparente ter outros problemas, ou seja, mesmo que não esteja acima do peso nem tenha diabetes,  por exemplo, seja sempre encaminhado para ficar de olho no coração, fazendo exames regulares para checar a saúde cardiovascular", resume a professora.

E a pergunta que precisa ser respondida pela ciência é a seguinte, declarada pela própria professora: "Será que, se a gente tratar os pacientes com psoríase corretamente, diminuindo ou resolvendo as lesões, também reduziríamos as manifestações da síndrome metabólica?". Essa hipótese será, provavelmente, uma próxima etapa de investigação.

A psoríase, diga-se, é tratada com remédios muitas vezes tópicos, que aliviam as lesões de sete em cada dez pacientes. No entanto, para 30% dos casos,  eles não dão conta de diminuir as placas vermelhas e as ˜descamações, que se espalham por uma área maior do que 10% do corpo. Aï, só as drogas de última geração, as imunobiológicas. Elas, por enquanto, permanecem fora dos serviços públicos e inacessíveis para boa parte da população . Até porque ninguém fez a contabilidade de que não amenizam apenas o mal-estar físico e emocional das lesões — o que já não seria pouco — , mas poupam o custo elevadíssimo das doenças cardiovasculares.

Custo-benefício é algo que a Saúde, assim com letra maiúscula, precisa incorporar em suas práticas. Até lá, o remédio que nos cabe é a aceitação do que não é aparentemente belo, lembrando — importante frisar — que não se trata de uma doença contagiosa.  Aliás, nada, nada, nada  pode ser mais feio, contagiante  e brutal  do que o olhar que muitas vezes dirigimos às pessoas com psoríase severa. Somos o pior dos ataques à pele do outro porque não estamos nela.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.