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Blog da Lúcia Helena

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O dia em que arranquei de um Prêmio Nobel o seu segredo para uma vida longa

Lúcia Helena

16/05/2019 04h00

Crédito: iStock

O que você vê na imagem é mesmo soja. Se ela é o segredo tão valioso? Bem, talvez parte dele. Sem prolongar o mistério, seria um dos caminhos certeiros para o seu corpo produzir óxido nítrico. Ah, e esse tal do óxido nítrico, vou falar… Se pudesse, eu o colocaria até na água, engoliria cápsulas, pingaria o danado na forma de colírio. Só que minha imaginação fértil logo se dissipa quando lembro que o gás — sim, estamos falando de um gás —não dura nadinha. Enquanto você simplesmente lê o seu nome aqui em velocidade normal — repita comigo, óxido nítrico —, puft,  já era, ele foi para o espaço.

Um dos três cientistas que provaram que, dentro do corpo, o óxido nítrico seria a molécula-chave para garantir uma vida mais longa e saudável, em especial ao cérebro e ao coração, foi o químico farmacêutico nova-iorquino Louis J. Ignarro, que na época desenvolvia suas pesquisas na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. 

Por causa delas, em 1998, ele subiu ao palco do auditório do Instituto Karolinska, na Suécia, levando para casa "só" o Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia. E agora estava eu, para o blog, prestes a conversar olho no olho com um legítimo Nobel. Olho no olho, mas não ao vivo e em cores…Coisas da modernidade.

Liga, desliga, reconecta. Nada. Sinto todo o óxido nítrico se evaporando em minhas veias. Já conectado, me esperando para uma conferência online, o laureado com o Nobel. E eu? Apanhando de 7 a 0 do computador. Enxergava na tela o cientista ora olhando para o teto, ora franzindo o cenho, sem me ver nem me ouvir — Alfred Nobel, diga-se, o que nos deixou de herança o tal prêmio, foi o inventor da dinamite. Se eu tivesse sua invenção comigo, mandaria o computador para os ares. Apelei. "Professor, vai ser pelo celular. Então desculpa a imagem esquisita e, mais ainda, a espera…".

Sem um pingo de ansiedade, ele me contou que estava diante de um janelão debruçado sobre o mar do Rio de Janeiro, cidade que visitava a convite da empresa Herbalife, da qual virou membro do comitê científico. Portanto, com os olhos pousados naquele azul, teria tempo para me contar o que eu quisesse. Sorte nossa.

Abusada, avisei que só queria entender quarenta anos de pesquisa sobre o óxido nítrico e, claro, qual o segredo para eu e você termos um bocado dele. Por que óxido nítrico? Aí começa pra valer a história.

Ignarro já estava de olho na substância quando deu seus primeiros passos na ciência. "Era fascinante tentar entender como uma molécula simples fazia parte de tantos processos fisiológicos", justificou. O óxido nítrico ajuda na comunicação entre as 50 trilhões de células do seu corpo, só para início de conversa. Mas vamos nos ater aos vasos sanguíneos. Ele consegue relaxá-los, o que de cara diminui a pressão, já que a passagem para o sangue se alarga. Mantém suas paredes elásticas como em uma eterna juventude, tornando-os mais resilientes a momentos como os que eu tinha acabado de passar diante do computador.

"Tudo flui também, melhorando a irrigação e o funcionamento dos mais diversos órgãos do corpo, porque o óxido nítrico diminui o colesterol nocivo na circulação, por mecanismos que ainda não compreendemos muito bem, e evita coágulos", completa o professor Ignarro. E coágulo, minha gente, só é ótimo quando chega em boa hora — quando nos machucamos e ele tampa a ferida, evitando que o sangue escoe até a última gota. Já um coágulo à toa, sem razão de ser, é encrenca com nomes definidos: infarto ou AVC, para dar dois deles.

A lista de boas ações do óxido nítrico no organismo humano é maior hoje do que esta que você acabou de ver, já conhecida nos anos 1970, quando Ignarro foi tomado pela vontade de investigá-lo. Agora se nota que o gás influencia positivamente na cognição e na memória, melhora a qualidade do sono agindo no sistema nervoso central e dá mais disposição para qualquer atividade física. Enfim, não faz pouco.

"Se uma substância aprontava tantas coisas, não seria lógico que o próprio corpo humano pudesse produzi-la, garantindo os seus estoques? Mas onde?", era o questionamento que Ignarro e seus colegas se faziam. Pois bem: em 1986, eles provaram que, sim, o nosso organismo produz moléculas de óxido nítrico o tempo inteiro. A fábrica são as células do endotélio, o revestimento interno dos vasos sanguíneos.

O cientista descobriu mais: recém-nascidos, proporcionalmente para o tamanho do corpo, descarregam na circulação uma quantidade muito maior de óxido nítrico do que crianças maiores  ou adultos. Na verdade, a linha de produção tende a declinar com o tempo. E ainda: não importa a idade, algumas condições diminuem o óxido nítrico disponível na circulação. "Pessoas com diabetes e com obesidade têm dosagens dessa substância notoriamente menores do que indivíduos sem essas doenças", exemplifica. "É bem provável que os problemas cardiovasculares aos que estão mais sujeitas tenham a ver, lá no fundo, com isso"

Para garantir o abastecimento, as células do vasos sanguíneos promovem uma metamorfose: elas usam a arginina, um dos 23 aminiácidos presentes nos alimentos, e a transformam direto em óxido nítrico. Essa conversão faz sobrar outra substância, a citrulina. Sem problemas, porque nesse caso o corpo utiliza as sobras, zerando o desperdício. Ele pega a citrulina acumulada para fazer mais óxido nítrico.

Mas será que algo poderia ser feito para turbinar essa produção, já que ela tende a ser derrubada pelo passar do tempo e por certas condições de saúde? O que ele próprio, Louis Ignarro, faz? Ouço então: "Faço atividade física regular e tenho uma dieta balanceada". Decepção. Eu querendo um óxido nítrico na água ou outra solução pá-pum e ele me vem com a velha fórmula!  

"Com mais estudos, já depois do Nobel, eu e outros cientistas provamos que o exercício regular aumenta os níveis de produção do óxido nítrico", explica. "Em relação à dieta, alguns elementos trabalham contra. O excesso de comida é um deles, mesmo que o indivíduo não ganhe tanto peso. Então, se existe um caminho, seu primeiro passo é a moderação à mesa."

Outra praga para o óxido nítrico são alimentos repletos de açúcar ou de gordura saturada, esta acima de tudo. Além de evitá-los, o indicado — ele calcula — seria garantir um aporte mínimo de 3 gramas de arginina por dia. "E isso seria relativamente simples, comendo boas fontes de proteínas como peixes, carnes, aves, leguminosas e oleaginosas", disse.

Aperto um pouco mais: só isso mesmo? Ignarro me conta que ele e a esposa não comem carne vermelha ou de aves mais do que duas ou três vezes por ano e olhe lá, em festas e ocasiões muito especiais. "Ainda assim, experimentamos só uma fatia. São fontes de proteína, sim, mas carregam a gordura saturada junto, o que puxa o óxido nítrico para baixo."

O cientista, se quer saber, gosta mesmo é da soja, olha aí! Ela tem mais de 4,5 gramas do aminoácido precursor do óxido nítrico em uma xícara. Outras fontes excelentes são as sementes de abóbora, o grão se bico, a lentilha…

Não importa se a sua produção de óxido nítrico tende a ser menor do que a do vizinho — como tudo em saúde, varia de um organismo para outro –, ela sempre aumenta quando tem arginina e citrulina dando sopa no sangue. Então, atenção: aqueles 3 gramas seriam a recomendação mínima e tudo bem, parece, se você ultrapassar. Nem por isso encha o prato só de fontes proteicas. Indiretamente, outros vegetais, como folhas escuras e frutas ricas em vitamina C, entram na receita da longevidade, em matéria de óxido nítrico.

"Não vale só caprichar nas proteínas. Ter  uma dieta que privilegia os vegetais é igualmente importante", frisou Ignarro para mim. "Isso porque não adianta aumentar a produção, se o organismo não consegue deixar os níveis de óxido nítrico estáveis", continua.  Segundo ele, diante de uma quantidade elevada de radicais livres, a molécula do gás some quase que instantaneamente. Não dura nem sequer aquele ínfimo segundo. É aí que os antioxidantes dos vegetais fazem a diferença.

Pergunto se ele teria se tornando vegetariano diante de tudo isso que observou em seu laboratório. Ouço que não, nada disso. Arranco, aí, mais um segredo: "Como peixes ricos em ômega-3, três ou quatro vezes por semana", diz, declarando outro detalhe dessa espécie de auto-prescrição. De acordo com o pesquisador, esse ácido graxo dos pescados tem se revelado tão importante quanto o óxido nítrico. "Muitas vezes age em dupla com ele, especialmente no cérebro."

Mas Ignarro nota meu desapontamento. Afinal, não iria oferecer aos leitores nada tão novo: apenas mais da tal dieta equilibrada e do exercício de três a cinco vezes por semana. "Conte para eles que sempre soubemos que isso, a combinação de exercício e alimentação em equilíbrio, fazia bem. Só não entedíamos o motivo. E descobrimos fazem bem justamente  porque ajudam — ou pelo menos não atrapalham — o óxido nítrico." Foi por isso que ganhou um Nobel, afinal.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.