Topo
Blog da Lúcia Helena

Blog da Lúcia Helena

Categorias

Histórico

Até os nossos ossos sentem o sabor doce e isso faz refletir sobre adoçantes

Lúcia Helena

2004-06-20T19:04:00

04/06/2019 04h00

Crédito: iStock

Imagine o osso do fêmur tremendo de prazer por um pedaço de chocolate até deixar as pernas bambas. A bexiga competindo com a boca e se enchendo de água diante de um mil-folhas. Ou, ainda, os testículos sentindo o gosto do mel e a gordura na cintura se contentando com uma ou duas gotinhas de adoçante no chá. Claro, estou viajando, mas são as células do nosso corpo que dão asas à minha imaginação. 

Aterrissando no solo firme da ciência: pois não é que, vasculhadas por modernos exames, muitas células distantes das imediações da língua revelam que também possuem receptores para sentir a doçura das coisas?  Esses receptores estão por quase toda parte. Além dos órgãos citados, acrescentaria a uretra, o nariz e os seios para-nasais, o estômago, o cólon e, claro, o próprio cérebro.  Todos eles percebem o que é doce. E não, ainda ninguém sabe direito o porquê.

Mas quem me mostrou isso, em sua visita ao Brasil, foi o professor Richard Mattes, da Universidade Purdue, nos Estados Unidos. Considerado um dos maiores especialistas do mundo na bioquímica sensorial, ele participou do XI Atualidades em Food Safety, evento promovido pelo International Life Sciences Institute, no Brasil. E estava ali, na verdade, para tirar o aspartame de uma fogueira em que foi jogado, sem qualquer distinção, ao lado de outros adoçantes. A acusação de seus inquisidores é de que todo esses produtos favoreceriam o ganho de peso, na contramão das crenças de seus fieis consumidores.

Adianto: ao contrário de muitos edulcorantes que entregam a sensação de dulçor ao paladar, o aspartame ao menos parece não ativar esses receptores distribuídos por diversos órgãos, segundo o professor americano que, no encontro, apresentou um trabalho recém-publicado por seu grupo mostrando que esse adoçante especificamente não aumentaria a fome, nem a insulina, como alguns chegaram a acusar . E entenda: o fato de existirem receptores espalhados pelo organismo reforça na cabeça de muita gente a ideia de que tudo o que é doce, pelo simples atributo da doçura,  mexeria conosco da cabeça aos pés, destrambelhando o apetite. Uma generalização, perdoem, de amargar.

A coisa pegou fogo de vez quando, há quase dois anos, a epidemiologista Meghan Azad e seus colegas da Universidade de Manitoba, no Canadá, se debruçaram sobre os dados de 37 estudos, envolvendo mais de 400 mil indivíduos acompanhados pelo período de dez anos. Os cientistas canadenses notaram o seguinte: aqueles que consumiam adoçantes no dia a dia  tinham mais fome e uma tendência maior a engordar.  Você pode imaginar o alvoroço da notícia.  Até porque, cá entre nós, não foi o primeiro trabalho apontando nessa direção.

Uma das especulações é de que o sabor doce, em uma espécie de condicionamento da nossa fisiologia, mudaria a salivação, a secreção gástrica e, nessa cascata de reações, a produção de hormônios ligados ao apetite. Mas como não haveria açúcar de fato para o corpo processar, essa enganação criaria uma confusão em todo o metabolismo. Algumas das possíveis explicações seguem um caminho mais ou menos por aí. 

Outras falam que o problema seriam as alterações que os adoçantes causariam na microbiota intestinal, facilitando a vida de bactérias que nos levam a engordar. E aqui, de novo, Mattes salva o aspartame da condenação: afinal, sua molécula é quebrada na primeira porção do intestino, antes de chegar à região do cólon, onde essas bactérias se concentram. Portanto, o aspartame não poderia afetá-las.

De qualquer modo, preciso fazer uma ressalva, sem querer que ninguém se entupa de pozinhos e gotinhas para substituir as calorias do açúcar: 30 dos 37 trabalhos escarafunchados pelos canadenses são estudos observacionais. Ora, imagine uma pessoa olhando para um vestido vermelho na vitrine e tropeçando em um buraco na rua. Não dá para sair dizendo que vestidos vermelhos causam torções nos tornozelos.  Ou seja, impossível estabelecer uma relação de causa e efeito. Mas também não dá para descartar que olhar para a vitrine sem prestar atenção na calçada favoreceria acidentes. Em suma, um estudo observacional coloca pulgas atrás da orelha — não afirma nada (cuidado, precipitados!), tampouco deve ser desprezado por gente esperta. Um estudo observacional deixa a ciência assim: em cima do muro.

No entanto, para entender mais um dos supostos motivos pelos quais os adoçantes "engordam", deixando esse verbo bem entre aspas, nem é preciso descer ao nível das moléculas. Eu mesma tive uma tia-avó demasiadamente fofa que, depois de se refestelar na sobremesa  dos almoços em família,  pedia adoçante para o cafezinho. Essa mania só servia para diminuir um peso, o da consciência. Mas agora me diga: quem nunca?

No trabalho apresentado por Richard Mattes, para tirar de vez o aspartame da berlinda, o professor dividiu 100 adultos magros e saudáveis em três grupos. Um consumiu placebo — no caso, outro adoçante, pensando que estava engolindo aspartame. Outro usou 350 miligramas da substância diariamente por 12 semanas. Já o terceiro grupo consumiu, durante o mesmo período, a incrível quantidade de 1050 miligramas de aspartame por dia. Quer ter uma ideia do que seria isso? O equivalente a 81 saquinhos do adoçante. 

Mesmo assim, o pessoal dessa turma, assim como o das outras duas, não ganhou peso, não teve alterações na glicemia nem apresentou qualquer diferença nas taxas de hormônios, como o GLP1 e a leptina, que regulam a fome e a saciedade. "Isso não quer dizer que não sejam necessários mais estudos", afirmou Mattes, ponderado. "E nem significa que outros adoçantes não possam interferir indiretamente no ganho de peso", me disse. Ou seja, cada um é cada um.

Voltamos então aos receptores espalhados pelo corpo. "A sacarina pode ativá-los tanto quanto o açúcar normal e não sabemos ainda ao certo o que isso desencadearia", falou o professor, me dando o exemplo. "É possível que, embora tenham baixíssimas calorias, nem todos os adoçantes contribuam do mesmo jeito para a perda ou para a manutenção do peso." 

De fato, se olhamos para as substâncias mais consumidas no mundo para adoçar a comida com menos calorias — além do aspartame, a sacarina, a sucralose, a estévia e o acesulfame —, enxergamos moléculas muito diferentes entre si, que são digeridas de modos diversos, absorvidas cada qual em um canto, com maior ou menor potencial de ativar áreas de recompensa no cérebro — aquelas que nos fazem pedir um doce nas horas difíceis — e, finalmente, são moléculas que se encaixam em pontos distintos dos tais receptores do sabor adocicado, disparando sinais próprios.

Então, a lição que fica é nunca generalizar, colocando todos os adoçantes na mesma polêmica.  Mattes brincou lembrando que o cloreto de sódio e o cloreto de lítio têm exatamente o mesmo gosto salgado. Só que um é o sal de cozinha e outro é um medicamento para transtorno bipolar. 

Onde o professor quis chegar: ter o mesmo gosto não significa que algo terá a mesma ação no corpo. E eu dou outro exemplo: o triptofano, substância encontrada no leite e reconhecida como matéria-prima para a famosa serotonina que, na cabeça, nos dá o barato do bem-estar, se encaixa no mesmíssimo receptor do gosto amargo da estricnina. Mas a segunda é um veneno. Não estou  dizendo que tem adoçante venenoso por aí. Até que se prove o contrário, aliás, todos são seguros para consumo. Mas talvez nem todos nos ajudem no "projeto verão 2020", se forem sentidos até nos ossos.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.