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Em um futuro breve, uma única infusão na veia resolverá de vez a hemofilia

Lúcia Helena

2020-06-20T19:04:00

20/06/2019 04h00

Crédito: iStock

Topada, furo, batida, safanão — se, por qualquer motivo, a parede do vaso se rasga, inicia-se uma cascata de reações que faz o sangue, líquido por natureza, formar uma espécie de goma que tampa o buraco ligeiro, sem deixar a circulação escoar pelo rombo. É o coágulo. 

Por segurança, para que esse tampão não surja assim do nada obstruindo o fluxo, são treze proteínas do plasma sanguíneo envolvidas na jogada: quando a primeira entra em ação, ela ativa a segunda, que por sua vez aciona a terceira…Assim vai. Mas, no organismo de cerca de 12 mil brasileiros, esse efeito-dominó é interrompido. Em um de cada 5 mil meninos nascidos, falta o fator de coagulação VIII, o oitavo. E, em um de cada 30 mil bebês do sexo masculino, há a ausência do fator de coagulação IX, o nono. Eles são hemofílicos. Tipo A e tipo B, respectivamente. E é a mesma proporção no mundo inteiro.

Seja qual for a forma, a origem sempre está em um gene no cronomosso X, aquele que as mulheres têm em dose dupla. Como se trata de um gene recessivo, ele se curva diante de um outro X sem a informação da doença. Portanto, no sexo feminino, ela acaba sendo bem rara — ora, há sempre uma boa chance de um X saudável calar o bico do outro ao seu lado. Já nos homens, filhos de mulheres portadoras dessa herança, há um cromossomo Y em vez outro X para fazer o gene da doença capitular e a probabilidade de desenvolverem a hemofilia é de 50%. 

Mas você quer saber de algo espantoso? No Brasil, quase um terço dos casos não são herdados da mãe. Simplesmente acontecem. Surpreendem. E, sem a pista de existirem outros episódios na família, o que deixaria todo mundo esperto, muitas vezes os pais e os próprios médicos demoram mais do que o desejável para desconfiar que essas crianças não têm um daqueles dois fatores de coagulação.

Sem a reação em cadeia chegar no décimo-terceiro fator e nunca se completar, no paciente hemofílico o coágulo não se forma. Daí que, nele, os sangramentos não cessam. Podem  até surgir sem motivo, principalmente em juntas e músculos, provocando deformações com o tempo. Sem contar o risco de um vaso, por menor que seja, arrebentar na cabeça, em um reles encontrão com a quina da mesa.

A saída para sobreviver ou, ao menos, sobreviver sem sequelas, é repor o fator inexistente na veia. Isso pode significar duas, três infusões por semana. Porque aí é que está: no corpo, essas proteínas não duram muito. E acho que nem preciso acrescentar: não é fácil viver tomando picada na veia. Ainda mais se você pensar que a doença se manifesta nos primeiros anos de vida e que, muitas vezes, é percebida quando o bebê arrisca engatinhar e seus joelhos incham. Ocorrem sangramentos espontâneos no interior dessas articulações pelo menor atrito. A picadinha da vacina, para essas crianças, também não tem nada de diminutivo.

Desde 1996, quando terminava a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (a Unicamp), onde hoje é professora, a hematologista Margareth Ozelo se envolveu com as chamadas doenças hemorrágicas. Hoje dirige, ali mesmo, a Unidade de Tratamento de Hemofilia, que há dez anos é reconhecida como um dos principais centros de treinamento internacionais do mundo, recebendo a cada ano médicos e outros profissionais de saúde, principalmente da América Latina, preparando-os para tratar os portadores da doença. 

No Brasil, é nesse centro de referência que se concentram as pesquisas de novos tratamentos, testados ao mesmo tempo em vários países do mundo. Na próxima segunda-feira, dia 24, durante o  1º Juntos pela Hemofilia, evento promovido da Federação Brasileira de Hemofilia em São Paulo, a professora Margareth apresentará um panorama das terapias gênicas, quatro delas testadas pelo seu grupo, sendo que duas já se encontram no que os cientistas chamam de fase 3, uma etapa avançada, reunindo mais de 150 pacientes. As terapias gênicas deverão mudar a cara da hemofilia e, com uma única infusão na veia, ensinar o fígado a produzir o fator de coagulação deficiente. Lição que, se tudo der certo, ele não deverá esquecer.

A sequência de DNA, que traz a informação correta de como produzir o fator VIII ou o fator IX, é introduzida em um vírus muito comum, que não causa doença alguma — o adenovírus AAV. Então, é feita uma infusão na veia, como se fosse mais uma sessão do tratamento normal. Injetado no corpo, o AAV logo se dirige às células hepáticas e, uma vez lá dentro, é como se transferisse a receita da proteína. Com o tempo, ela começa a ser liberada na circulação.

Não é qualquer um, porém, que se beneficiará da terapia gênica. Hoje, ela é estudada em pacientes adultos acima de 18 anos. Claro, primeiro, por questões se segurança. Mas não é só isso. "O  tratamento não deverá ser aplicado em crianças menores de 8 anos, por mais que se mostre seguro ao ser aprovado", conta a professora Margareth. A razão é simples: até por volta dessa idade, o fígado ainda cresce. E, nesse projeto de expansão, quando suas células se dividem em duas, uma delas fica com a receita e outra, não. "Ou seja, a produção do fator de coagulação vai diminuindo cada vez mais, como se a terapia fosse perdendo o efeito até o fígado parar de crescer." Vale, então, esperar.

Também deixa de ser candidato à terapia aquele indivíduo que, por azar, já entrou em contato com o vírus. O AVV, repito, é bem comum. Isso tem uma vantagem: ele não nos faz mal. E uma desvantagem para o paciente hemofílico, se, por acaso, sem se dar conta, ele já foi infectado por esse tipinho no passado. Aí, na certa, seu sistema imunológico aprendeu a fazer anticorpos contra o intruso. Resultado: quando os pesquisadores injetam o AVV com a receita do fator de coagulação, ele termina arrasado antes mesmo de alcançar seu alvo, que são as células hepáticas.

"Hoje testamos vetores diferentes justamente para criarmos alternativas diante desse tipo de situação", explica Margareth Ozelo ao blog. Aliás, aí está mais um motivo para aguardar uma idade mais madura — leia-se, um fígado crescidinho — para optar pera terapia gênica. Se o efeito sumir com idade, não adiantará refazer tudo. Em uma segunda tentativa, o vírus será recebido com uma saraivada de anticorpos. "Isso também é algo que buscamos contornar, para permitir uma segunda vez, mas os estudos nessa linha ainda estão bem no início", avisa a médica.

Tirando isso, a prioridade  será sempre dos pacientes graves, aqueles com menos de 1% do fator de coagulação VIII ou IX. Nos casos moderados, que têm de 1% a 5% da proteína, as infusões não são tão frequentes, já que as hemorragias espontâneas são menos frequentes — geralmente, eles sangram muito só quando se machucam pra valer. Existem, ainda, os hemofílicos classificados como leves, com mais de 5% do fator de coagulação envolvido. Esses levam uma vida praticamente normal, merecendo mais atenção em caso de acidentes ou cirurgias, por exemplo. O tratamento, hoje, quase nem é feito mais com derivados sanguíneos e, sim, com fatores de coagulação recombinados, criados em laboratórios, que duram mais no organismo.

Outra terapia promissora é a com anticorpos monoclonais, também criados em laboratórios. Eles substituem os fatores de coagulação. Com uma vantagem: a aplicação é subcutânea, como a da insulina dos diabéticos, e feita em dias alternados.

Quanto à terapia gênica, que resolverá tudo de uma vez, ela não deve demorar tanto: a estimativa é de que em dois ou três anos as primeiras delas sejam aprovadas. A batalha agora de Margareth Ozelo e de outros cientistas da Federação Mundial de Hemofilia é para que sejam acessíveis ao maior número de pacientes. A batalha final para evitar mais derramamento de sangue.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.