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O que tomar sol e a vitamina D têm a ver com o diabetes? Ótima pergunta

Lúcia Helena

11/07/2019 04h00

Crédito: iStock

E a pergunta veio de um leitor do interior paulista, diabético, que ouviu do médico que ele precisava caprichar mais no sol porque seus níveis de vitamina D, ai, ai… A tal da vitamina D, ficou esse senhor sabendo, está cada vez mais enrolada quando o assunto é diabetes. Bem, quem sou eu para tirar da cabeça a resposta para uma dúvida que realmente é importante?  Aliás, como todas quando o assunto é a nossa saúde. Se eu pudesse sacar da cartola o que penso sobre vitamina D… 

Ainda bem que, na busca por informação confiável, liguei para quem realmente poderia dar uma resposta com aval da ciência, o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. E ele — que sorte! — tirou da minha boca o que eu gostaria mesmo de falar para todo mundo, mas que, sem direito a jaleco, me calo. "Olha, Lúcia, a vitamina D anda feito remédio do homem da cobra, não sabe?" 

Pois é, esse médico mineiro, considerado um dos principais pesquisadores do diabetes no país, investigando o seu tratamento com células-tronco, costuma falar de ciência como quem proseia bebericando um café. E assim foi. "Nas pequenas cidades do interior do país, sempre surge um gaiato com um tabuleiro cheio de garrafas, dizendo que o líquido é remédio para artrite, enxaqueca, hemorroida, ferida, dor de estômago, paixão mal resolvida e, se duvidar, diabetes", continua. "Ah, sim, muitas vezes o sujeito, personagem quase folclórico nas praças, termina seu número de marketing arrancando uma cobra de uma caixa. E com a vitamina D está acontecendo quase isso", diz ele.

De fato, não param de surgir trabalhos dizendo que a sua falta tem a ver com doença cardíaca, obesidade, câncer, depressão, um sem-número de males.  Até que se prove o contrário, ninguém vai dizer que é tudo bobagem. Mas há um bocado de exagero e conclusões apressadas.  Aliás, de tanto ler a respeito, já tive vontade de pingar vitamina D até na água do banho! 

Diabetes? Se você olhar hoje mesmo, são mais de 5,7 mil estudos científicos listados no PubMed, a biblioteca de Medicina americana, que reúne tudo o que foi pesquisado ao redor do globo. Mas nada, nada,  até o momento, é muito conclusivo no que diz respeito a diabetes e vitamina D. O elo continua frágil. 

A vitamina D é aquela que o prato de comida não oferece. A pele a produz em contato com raios solares e, diga-se, vai saber o porquê, no ensolarado Brasil as pessoas tendem a apresentar doses um pouco aquém do necessário. Contam diversos fatores, inclusive a nossa bem-vinda miscegenação. É que a pele de pessoas morenas e negras produz um tico menos da substância. E é possível que todos nós, não importando o tom, tenhamos essa herança. Somos todos feitos de todos.

Entre os diabéticos essa falta pode, de fato, parecer até maior. O doutor Couri me lembra: "Ora, não é de hoje que a gente sabe: a pele de pessoas com obesidade produz menos vitamina D. E como a maioria dos diabéticos tipo 2 está acima do peso, é esperado que eles tenham níveis abaixo do recomendado dessa substância." Daí a dizer que a falta dela causa o problema é outra história. Mas muita gente aconselha suplementar, supondo a vitamina seria o caminho para reverter a situação, o que até agora não passa de uma bela hipótese. 

Uma hipótese barulhenta, é verdade. No mês passado, por exemplo, no encontro da American Diabetes Association, foi apresentado o estudo D2d, realizado por diversos centros de pesquisa em colaboração, com 2.423 participantes de 22 localidades dos Estados Unidos. O objetivo foi testar se suplementos da vitamina D, engolidos diariamente, poderiam evitar que essa gente se tornasse diabética. Sim, a preocupação é imensa porque nada menos do que um terço da população americana está, digamos, quase lá, e tem pré-diabetes. Aqui, deveríamos ficar bem preocupados também. Mas parece que não acordamos para a explosão de casos que logo mais acontecerá.

No D2d, os participantes foram divididos entre os que tomaram e os que não tomaram suplementos. Todos fizeram exames de sangue a cada seis meses durante um período que variou de dois a cinco anos, no máximo. Note o seguinte: americanos, ao contrário de nós, têm um organismo que é uma verdadeira fábrica de vitamina D. Portanto, a suplementação fez com que seus níveis fossem parar nas alturas. E mesmo assim… Pode esperar frustração: em geral, não se viu grandes diferenças em matéria de diabetes.

No entanto, os cientistas ficaram alvoroçados com uma parcela dos voluntários — neles, sim, a suplementação pareceu dar um leve resultado.""Mas eram aqueles que tinham hipovitaminose D desde o início do estudo", frisa Barra Couri. Hipovitaminose é o termo médico para a falta de uma vitamina.

Ainda é cedo para alarde. "Em ciência, o resultado encontrado em um subgrupo tem pouco valor, porque o estudo inteiro foi desenhado para avaliar outra coisa, no caso a população inteira, misturando gente de todo tipo", explica o endocrinologista, que falará sobre o assunto no encontro de mais de 600 especialistas que ele organiza mais uma vez em São Paulo no final de julho, o Endodebate . Na minha opinião, um dos mais palpitantes eventos da Medicina, porque faz a ligação da ciência de ponta com a prática clínica. E, na prática, o que se sabe por enquanto sobre vitamina D é que todo diabético tem forte probabilidade de precisar de suplementação mesmo. Não para curar — atenção! —, mas para manter o organismo em ordem, evitando quedas e fraturas. Que são, sinto dizer, o que temos para hoje como provas de benefício.

Justamente por terem uma baixa na vitamina D, as diretrizes para o tratamento do diabetes determinam metas ligeiramente mais ambiciosas para os portadores dessa doença do que para a população em geral — recomendação que, antes que me perguntem qual seria, varia de indivíduo para indivíduo. "Precisamos dosar as vitaminas e os minerais de cada um e dar especificamente aquilo que está faltando. Ainda mais quando se trata da vitamina D, que nem é mais considerada mais uma vitamina pra valer, apesar do nome. Ela é um hormônio."

Isso é sério. Sair tomando vitamina D sem necessidade pode ser tóxico. A substância se acumula nas células da gordura. Por isso, quem usa suplementação — diabéticos incluídos — deve fazer dosagens periódicas e até interromper o comprimido por uns tempos quando os resultados se mostrarem okay. "As pessoas tomam vitamina D como se fosse inócua. Ela não é!", esclarece o doutor Couri. "O excesso gera complicações no fígado e nos rins", exemplifica.

Em relação ao sol, o médico pede cautela. "Para o diabético, já com uma deficiência da vitamina D, o que resolveria seria tomar banhos de sol em horários menos saudáveis, o que decididamente não indico para ninguém", diz ele. O sol é para todos, mas a moderação é palavra de ordem para os diabéticos que, saiba, têm uma pele por natureza mais fragilizada a todo tipo de problema, incluindo nesse pacote o câncer. Abusar  — no sol e nos suplementos — não é mais seguro do que comprar remédio do tal sujeito da cobra.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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