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8 erros na hora de aprender a meditar (talvez você nem esteja meditando)

Lúcia Helena

16/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Basta eu ouvir "esvazie sua mente!" e pronto: os pensamentos invadem minha cabeça de vez, um querendo falar mais alto do que outro. Acotovelam-se as lembranças de ontem com meus planos para o próximo compromisso. Ficam saltando as contas que preciso pagar ao lado da percepção de que estou com uma coceira besta na ponta do nariz. Feito uma dona doida, tento enxotar essas ideias até uma delas me dizer: "desista, não é para você". Aprender a meditar, então, não seria para aprendizes…Pena, porque motivos para praticar meditação é que não faltam.

Esqueça a imagem do monge, porque para meditar você nem precisa acreditar em Deus. Apague também o hindu de pernocas enlaçadas de tal jeito que faria arder o ciático dos mortais. Enfim, afaste conceitos místicos: a meditação é um tremendo recurso terapêutico. Ela aprimora o foco, alivia o estresse e a ansiedade, deixa  a imunidade tinindo. Diminui a pressão dos hipertensos, poupa o coração de sobressaltos. Por aí afora, melhorando o funcionamento do organismo como um todo, de acordo com pilhas de trabalhos científicos. 

A meditação é… "uma confusão", completa a frase o médico Roberto Cardoso, professor da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, que a pratica "umas 360 vezes pelos 365 dias do ano". Tem esse hábito desde que tinha 17, antes mesmo de entrar na faculdade. Ginecologista e obstetra, ao fazer seu doutorado na Unifesp, vindo de Brasília, ele conheceu colegas do setor de Medicina comportamental interessados em investigar a fundo as práticas meditativas. E, ali, viu que sua vivência, aliada à neurociência, poderia ser bem útil. Assim, há 20 anos faz pesquisas sobre o tema, publica artigos, dá palestras, escreve livros — como o ótimo Medicina e Meditação, Um Médico Ensina a Meditar, pela MG Editores — e já formou, dentro da universidade, mais de 300 instrutores. Que, diga-se, não mandam ninguém esvaziar nada — ufa!

Mas por que confusão, doutor? "Porque muitas vezes as pessoas nem sequer estão meditando. Pedir para esvaziar a mente, por exemplo, é um dos oito erros muito comuns na hora de ensinar alguém a meditar", me disse. Oito?! Para entender um por um, antes vamos desfazer o nó: o que é meditação? Afinal, foi o grupo do professor Roberto Cardoso que, em 2004, criou a definição que já foi usada como critério por cientistas do mundo inteiro, inclusive nos Institutos Nacionais de Saúde, nos Estados Unidos.

Mais técnica e menos poesia

"Meditar é seguir uma receita de bolo", simplifica o professor. Existem inúmeras técnicas — a budista, a vietnamita, a tão em voga mindfulness…Todas podem ser ótimas, desde que a pessoa siga os seus passos sem inventar moda, nem ficar filosofando. Não adianta entrar naquele curso e passar horas ouvindo sobre a importância de encontrarmos a nós mesmos, entende? "O que dá resultado para a saúde é a aplicação caprichada da técnica e não palavras poéticas para descrevê-la", garante Roberto Cardoso.

Soltar a musculatura, sim. Dormir, não.

Qualquer que seja a técnica, a meditação também é definida por um relaxamento muscular que os exames mostram coincidir com um estado de consciência alterado — isto é, diferente da vigília, quando estamos bem acordados —, acompanhado de uma diminuição de todo o metabolismo. Se a fosse um computador, seria o modo descanso de tela. Mas isso não significa cochilar. Para evitar que a gente fique pescando, duas posturas são absolutamente contra-indicadas para o meditador: deitada ou com a cabeça recostada enquanto está sentado.

O relaxamento da lógica

Ele é peça-chave para alguém dizer que está meditando. Relaxar a lógica é não analisar, ou seja, calar o bico daquela vozinha interior que fica narrando tudo o que você está sentindo enquanto procura meditar. É também deixar de julgar, pensando o tempo todo se está fazendo certo ou errado. E, finalmente, é não ter expectativa alguma de sentir isso nem aquilo. Ora, vai lá e faz — respira, solta o ar, não questione. "As pessoas que simplesmente seguem as instruções da técnica sem pensar duas vezes, nem esperar nada, apresentam benefícios mais depressa", observa o médico. Mas é tão difícil que, no início da prática, exames de imagem mostram uma maior atividade do córtex pré-frontal, a região do cérebro na altura da testa, responsável por julgamentos, decisões, planos — ou seja, o endereço do raciocínio lógico, o tal que deveria ficar no modo descanso.

Cada um por si

Para ser meditação pra valer, você consegue praticar sozinho, em qualquer canto, concentrando toda a sua atenção em um ponto único, que os especialistas chamam de âncora. Ele pode variar conforme a técnica. Prestar atenção no ar entrando e saindo pelas narinas é um exemplo de âncora. Focar apenas nos movimentos do abdômen enquanto respira é outro.

Erro 1: "pense que você está em um  lago azul…"

Ora, a imaginação de quem manda a gente imaginar alguma coisa  ao meditar é que costuma ser fértil! Se não pinta cenários paradisíacos, diz para você criar asas e sair voando por aí. "Só que, para o cérebro, dá uma trabalheira danada enxergar o lago inexistente e, quem sabe, um patinho branco nadando por ali… A lógica, que deveria estar relaxada, deduzirá que a água então seria agitada pelo tal patinho… ", descreve o professor Cardoso. Na prática, isso é o que os especialistas chamam de indução de imaginação criativa — uma técnica que também leva a um estado alterado de consciência e que, como terapêutica, se mostra útil para, entre outras indicações, reforçar a imunidade. É quando o paciente imagina seu organismo vencendo uma doença, por exemplo. Mas não é meditação. O cérebro se comporta diferente e os benefícios são outros.

Erro 2: " pouco a pouco, seus pensamentos vão embora…"

Estudos mostram que, quando instrutor fala esse tipo de coisa no instante de guiar a prática, até dois terços dos indivíduos chegam a um transe hipnótico. Assim como uma legítima meditação, o sono o uso de certas drogas ou de bebida,  este é mais um estado alterado de consciência. Com uma grande diferença em relação ao meditativo: na hipnose, há sempre um objetivo definido. No exemplo, o instrutor cria a intenção de os pensamentos desaparecerem aos poucos. "Só pelo fato de ter uma intenção, já ativa a lógica, mexe em um circuito neuronal completamente diferente e provoca outras reações fisiológicas", explica o professor Cardoso. 

Erro 3:  esvaziar a mente que nada!

"Para o cérebro, procurar não pensar é um esforço hercúleo", consola-me o professor. Ou seja, o tal do estado meditativo vai para o brejo. O certo é só observar os pensamentos que surgem, sem parar para entender nenhum deles, nem julgar, deixando o bendito córtex pré-frontal atrás de sua testa bem sossegado.

Erro 4:  "meditar é encontrar a paz" e outros bla-bla-blás

Quando o instrutor chega com esse papo, ele está confundindo os possíveis efeitos — sensações e impressões que variam de pessoa para pessoa— com a técnica em si. Isso gera expectativa: e se você não encontrar a bendita paz?!  Eis outro caminho que ativa a lógica, porque a mente fica checando se aquilo está acontecendo ou não. 

Erro 5:  "seus pensamentos são como nuvens no céu"

Bonitinha essa a metáfora usada para explicar que a pessoa só deve observar seus pensamentos, deixando-os passar sem julgamento. Mas cai na indução da imaginação de novo… Meditar não é momento para pensar em paisagem, ok?

Erro 6:  "basta ficar parado"

Tem a turma que vai para o outro extremo e não ensina especificamente nenhuma técnica. Sem uma receita de bolo, nada feito.

Erro 7:  "meditar é controlar a mente"

O doutor Roberto Cardoso dá a dica: verbos como controlar, dominar, matar, destruir, subjulgar e outros do gênero sempre incitam a lógica. Abra os ouvidos: o bom instrutor usa expressões como soltar os pensamentos, largar, abandonar, deixar ir… 

Erro 8:  propor técnicas avançadas  (e eu acrescentaria posturas dolorosas)

A técnica escolhida precisa ter passos claros, como respire assim ou assado, conte tantas vezes…  Em relação à postura, não importa se você está no beabá da meditação ou se é um meditador de carteirinha, ela precisa ser confortável. Se não gosta ou não consegue sentar-se no chão, vá para uma cadeira. As costas podem se apoiar no encosto. A coluna deve ficar ereta, mas não como cabo de vassoura, justamente para não tensionar nem doer. "A dor sempre tira a atenção da âncora e exige controle. É boa para o treinamento de um faquir, mas não para quem medita."  Pergunto, por fim, como saber se estou meditando direito. A resposta é direta: "É só não cair em nenhum destes erros". 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.