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Beterraba é ótima para hipertensos e atletas, mas não após escovar o dente

Lúcia Helena

18/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Parece até de propósito o tom ser assim tão sanguinolento. Mas é mera coincidência. Betalaína é como se chama o pigmento que enrubesce a Beta vulgaris, a popular beterraba. Mas o que mexe pra valer com nossas veias e artérias é outro componente dessa raiz. O que interfere na nossa circulação não tem essa cor — é o nitrato. E, por causa dele, a beterraba dá no que falar em clubes, academias e até mesmo em centros especializados em cardiologia. No esporte, porém, há um empate entre os que a defendem e os que a atacam, não vendo nela muito valor como ingrediente para melhorar a performance. Mas esse não é exatamente um empate justo. E o motivo de tanta confusão é curioso. 

Uma vez absorvido, em contato com o endotélio, que é o revestimento interno dos vasos, o nitrato,  já então transformado em nitrito, libera um fator capaz de relaxar os músculos de suas paredes. Imagine então: a passagem se alarga como uma grande avenida para o sangue correr e isso, claro, aumenta o volume de oxigênio chegando aos músculos. Para atletas, poderia significar promessas de pódio, certo? Só que não. Quer dizer, só que nem sempre. A diferença está na boca. 

 "A beterraba pode, sim, melhorar o desempenho de atletas. Mas tem um detalhe: para que o nitrato presente nela seja convertido em nitrito, ela depende totalmente das bactérias orais",  foi o que me contou o Antonio Herbert Lancha Junior, professor de nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. A escala na boca, portanto, faz toda a diferença e explica um gostinho, nem tão doce, de polêmica.

Cá entre nós, quando vi que era um tal de "beterraba funciona" e "beterraba não funciona" na literatura científica, liguei logo para o professor Lancha Júnior, como quem consulta o VAR. Por sorte, eu o peguei no pulo, quer dizer, na sala de embarque, voltando da França para o Brasil. Mas deu tempo para ele colocar os pingos nos "is" de nitritos, nitratos, da história toda. Porque tem atleta tomando suco de beterraba, tem esportista colocando o pó feito da raiz na água e tem gente não vendo vantagem em nada disso. "'É o seguinte: se a pessoa acorda de manhã, escova os dentes, faz bochecho e, na sequência, toma o seu suco de beterraba para ir treinar, a bebida não vai agir", diz ele. "Não haverá bactérias o suficiente para fazer a conversão do nitrato". 

Estudos apontam que a formulação de alguns cremes dentais reduz a população bacteriana da cavidade oral por três horas ou mais. "Quando a pessoa faz bochechos com certos enxaguatórios que são altamente bactericidas, aí nem se fala! Não adiantará ficar cinco horas com a beterraba na boca, porque não haverá micro-organismo para converter seus componentes em nitrato", diz o professor. "Logo, não surtirá efeito."

Pela mesma razão, usar comprimidos de suplementos à base dessa raiz pode dar quase na mesma do que tomar pílula de farinha. Ora, parece lógico: eles praticamente escorregam direto para a garganta, sem a menor chance de muito contato com as tais bactérias. Aliás, além do fator higiene bucal — que, fique claro, é melhor deixar para depois —, um maior tempo para o encontro da beterraba com a microbiota oral também ajuda a  aumentar a taxa de conversão. Daí que — mais esta! — o suco vermelho que anda em voga na nutrição esportiva até tem o seu valor. No entanto, em tese valeria muito mais a pena comer a própria beterraba do que beber um squeeze inteiro de suco no gute-gute. Pense que a necessidade de mastigação dá um prazo com folga para a formação de mais e mais nitrato.

Agora tem uma coisa: não adiantaria eu, por exemplo, me entupir de beterraba até ficar cor-de-vinho por dentro. Ninguém ganha fôlego nem força, isto é, nenhuma vantagem perceptível se passa apenas uma ou duas horas na academia naquele projeto verão 2020. O professor Lancha Junior explica o motivo: "Só um atleta de alto rendimento entra em fadiga por causa de questões circulatórias. Então, para um ciclista se preparando para os jogos olímpicos ou para um ultramaratonista, o nitrato da beterraba faz diferença", exemplifica. "Já para o restante do pessoal que se exercita, o cansaço costuma chegar por outros caminhos. Pode faltar o aporte de nutrientes para o músculo, como a creatina. Ou pode ser que as fibras musculares, que não passaram por treinos intensos como os de um atleta, não tenham mitocôndrias o bastante para aproveitar o gás extra". Mitocôndrias — está lembrado?— são aquelas benditas organelas que transformam o oxigênio da respiração em energia. 

Outro aspecto que dificultaria a vida de nós, malhadores ocasionais e mortais: a quantidade. Em sua aula durante o Ganepão, congresso que aconteceu há cerca de um mês em São Paulo, a nutricionista Tania Rodrigues, da RG Nutri, foi clara: "Para obter efeito, a pessoa precisaria beber pelo menos 1/2 litro do suco extraído só da beterraba todos os dias. E todos os dias mesmo", frisou. Porção que, no final de uma semana, talvez enjoe quem não corre atrás de medalha.

Fora do campo esportivo, a regularidade também é importante, mas aí para pessoas, inclusive sedentárias, que penam com a pressão alta. Há sete anos, surgiu o primeiro estudo, assinado por britânicos da Universidade Queen Mary, mostrando que o consumo de um único copo do suco de beterraba diariamente ajudaria a aliviar a hipertensão. Com o hábito, depois de poucos meses, a pressão sistólica chega a despencar, em média, 10mmHg. O que isso significa: que alguém com pressão 14 por 9 até pode ficar com 13 por 9 depois desse refresco. 

Hoje, porém, conhecendo mais papel da microbiota oral na jogada, os cientistas que seguem nessa linha já experimentam colocar mais beterraba no prato do que no copo dos pacientes. E, sim, sempre que a gente pensar em nitrato — pois, de novo, é ele agindo —, escovar os dentes antes de consumir a beterraba é diminuir o benefício ou até fazê-lo sumir.

Além do bendito nitrato, a beterraba tem porções consideráveis de fibras, potássio — que também contribui para o controle da pressão —, magnésio e cálcio. Os botânicos, não à toa, a definem como uma raiz tuberosa, nominho que dão aos vegetais que fazem de suas raízes um verdadeiro estoque de energia. E, sim, tem açúcar ali — não aquele que vive nos açucareiros dos europeus. Esse vem da beterraba branca (existe!). A gente nem encontra esse tipo pálido por aqui. 

Ferro? A própria Tânia Rodrigues lembrou que sua mãe, quando ela era criança, a fazia comer beterraba para espantar a anemia. Que mãe nunca? Mas, sinto dizer, a beterraba tem só um nadica do mineral. Não sei que mania que a gente tem de associar o ferro ao tom vermelho. Essa ideia, sim, é um embuste nutricional.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.