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Quem ouve o que diz a ciência não deixa faltar goiaba na cesta de frutas

Lúcia Helena

01/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Com todo o respeito, nunca vi Jesus na goiabeira, mas hoje enxergo ali maravilhas: seus frutos desbancam de longe o tomate em matéria de licopeno, não fazem feio perto da banana quando pensamos em potássio, botam muita granola no chinelo ao olharmos para as fibras e humilham a laranja com uma quantidade de quatro a cinco vezes maior de vitamina C em cada 100 gramas. Suas fibras, aliás, estão sendo muito badaladas  e, graças a elas,  o consumo para diabéticos é mais tranquilo, porque atrasam a entrada da glicose no sangue durante o processo digestivo e, com isso, o índice glicêmico fica perto do chão de tão baixo. Acabou? Que nada! 

Esqueceu que essa é uma fruta que a gente come com semente e tudo? Pois vou contar: estudos encontram nessas sementinhas compostos fenólicos absurdamente concentrados e ácidos graxos da mesma família do azeite. Tanto que existem diversos testes sendo realizados para ver a ação no organismo da farinha da goiaba, feita a partir delas, sem contar pesquisas na área de cosméticos. Aliás, se eu fizer aqui um apanhado do que os trabalhos científicos afirmam, inclusive no que diz respeito à prevenção do câncer, você sairá correndo até uma feira e a goiaba nunca, mas nunca mais irá faltar em sua fruteira. Tomara: eu a elegi para tentar persuadi-lo a comer mais fruta. Essa é a minha verdadeira intenção (se é que posso me meter na sua vida).

Há uma semana, confesso, fiquei bastante desanimada com o resultado do último Vigitel, o levantamento que o Ministério da Saúde faz para saber a quantas andamos e quais seriam os nossos bons e os nossos maus hábitos. Pois bem, batemos o nosso recorde de obesidade nos últimos treze anos: hoje, 19,8% dos brasileiros são obesos. No entanto, com ar de apesar dos pesares, no lançamento dos resultados o governo comemorou que, ao menos, nossos hábitos alimentares mudaram para melhor. Vitória milimétrica.

Ao pé da letra, pode ser até verdade. Na prática, que diferença faz? Veja, em 2008, só 20% de nós comiam cinco porções frutas ou hortaliças por dia, que é a recomendação da Organização Mundial de Saúde. Tivemos uma década inteira para aprender a encher a fruteira e… Eu, pelo menos, não acho que dê para ficar saltitante porque agora 23% dos brasileiros seguem a recomendação de ingestão de vegetais nesta terra em que, se plantando, tudo dá — ô, desperdício de oportunidade… Ora, ainda que eu considere esse avanço, só uma em cada quatro pessoas no Brasil consome frutas e hortaliças como deveria. Muito pouca gente.

Quer um número mágico? Segundo um estudo parrudo, realizado na Universidade Tufts, nos Estados Unidos, que analisou o consumo de frutas ao redor do mundo, se o brasileiro comesse uma única, só umazinha fruta a mais por dia, reduziria em 12% as mortes por qualquer doença. Esse seria um doce sacrifício para quem pretende viver mais. E melhor, claro.

Por coincidência, quando saiu a "boa notícia" , que eu coloco bem entre aspas, estava em Ribeirão Preto, no interior paulista, conversando com o químico Antonio Roberto Tadiotti. Ex-pesquisador da Universidade de São Paulo — e dos bons! –, depois de mergulhar em trabalhos que renderam novos contrastes para os exames da tireoide, entre outros, ele deu uma guinada na carreira. Longa história. Acabou fundando a Predilecta, indústria que exporta goiabada para todos os cantos do globo, mas nunca perdeu a raiz de cientista e investe em pesquisas em universidades do país inteiro. Inclusive, claro, sobre a goiaba.

Conversa vai, conversa vem, ele solta que, há muitos anos, incentivou estudos para estabelecer o teor de licopeno da fruta, depois de ouvir coisas incríveis sobre o pigmento vermelho dos tomates e o seu poder contra os famigerados radicais livres por trás de doenças, durante um congresso na Itália. Apesar de ele próprio produzir tomates de montão, suspeitou que havia nessa fama uma injustiça. A goiaba  estava sendo ofuscada. E não deu outra: uma xícara inteira de molho de tomate tem 34 miligramas da substância. Agora fique sentado para saber a quantidade de licopeno em 100 gramas de goiaba: 5.204 miligramas.

Embora não exista uma recomendação de consumo diário, o licopeno é um dos carotenoides mais estudados no mundo quando o assunto é afastar diversos males. Vá ao PubMed, a biblioteca americana que registra a produção mundial de pesquisas em Medicina: só nos últimos dez anos, são 498 trabalhos atestando a sua ação para proteger o corpo de tumores, especialmente os de próstata e ovários. E outros 197 estudos mostrando que o consumo regular de licopeno afastaria o risco de infarto.

É bem verdade que, em matéria de goiaba, estamos falando da vermelha. Nativa das Américas Central e do Sul, a Psidium guajava L., que é o nome oficial da goiabeira nos meios acadêmicos, dá ainda frutos amarelos, menos conhecidos entre nós, e a goiaba branca, ligeiramente mais rica em vitamina C do que a vermelha, a dona do pódio no ranking do licopeno. Por isso, também, a branca tem um gosto mais ácido.

Uma curiosidade em matéria de licopeno é que a substância é mais bem absorvida pelo organismo quando passa pela alta temperatura do fogo. Assim, se a gente pensar no tomate, mais vale o al sugo do que a fruta do tomateiro na salada. Será que o mesmo aconteceria com a goiabada? "Como ela é feita no calor do tacho, a biodisponibilidade desse bioativo também se altera", me respondeu a nutricionista Bianca Naves, de São Paulo. Claro, tem o açúcar, pondero.  "Mas, doce por doce, a goiabada é uma opção muito nutritiva e saudável, por ser cheia de bioativos, desde que saboreada na quantidade certa e na hora certa", diz ela.

A ideia  hoje aqui, porém, é focar na fruta. Até porque o mesmo calor que libera mais licopeno para agir no organismo destrói boa parte da vitamina C. "Aí, pelo menos 30% desse nutriente se perdem", explica Bianca. Então, vamos voltar à fruteira. Não é preciso mastigar a goiaba, se  o que busca é a vitamina. O suco está valendo. Mas, sabe como é, aí são as fibras que, em parte, vão para o espaço. Aliás, como a goiaba é generosa nesse quesito! Uma unidade, branca ou vermelhinha, já oferece um quarto de toda a fibra de que você precisa ao longo de um dia.

Portanto, nada contra a maçã, nem a laranja, nem a banana — trio que quase nunca falta na sacola de feira dos brasileiros. Mas eu não entendo por que a goiaba ainda não é tão presente como deveria no nosso dia a dia. Ainda mais quando precisamos comer mais fruta. Pelo resultado do Vigitel 2018, porém, isso, sim, seria um milagre que só Jesus na causa.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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