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Chega ao Brasil o robô capaz de desentupir as artérias do coração

Lúcia Helena

06/08/2019 04h00

Crédito: iStock

A equipe de cardiologistas do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, ganhou um novo integrante há pouco mais de um mês. É sua primeira experiência profissional no Hemisfério Sul e, conforme for avaliado pelos médicos brasileiros, no futuro ele também poderá dar expediente no sistema público. Afinal, aterrissou no país em uma parceria de pesquisa do Einstein com o Ministério da Saúde, via Proadi-SUS, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde. E agora estão todos de olho na sua eficiência para, quem sabe, empregá-lo para salvar o coração do povo em várias regiões do país.

Digamos que ele não é lá de muita conversa, mas consegue desobstruir as artérias do coração como quase ninguém. Faz tudo com uma precisão submilimétrica, é o que dizem. E torna a angioplastia, que já era um dos procedimentos dos mais seguros, ainda mais tranquila. Inclusive para os médicos que, no mínimo, ficavam com as costas bem castigadas a cada coronária que desentupiam. 

Agora, os cardiologistas de carne e osso ficam em uma sala ao lado, dando os comandos para o novíssimo "colega", o robô Corindus CorPath GRX, que valeu um investimento de aproximadamente meio milhão de dólares feito pelo hospital paulistano. Já forçando uma amizade do peito, vou chamá-lo simplesmente de Corindus, que na realidade é o nome da fábrica. Na Europa, nos Estados Unidos e em alguns países asiáticos, sua presença já virou rotina em diversos centros especializados em Cardiologia. Aqui, por enquanto, até eu colocar um ponto final neste texto, ele só fez a angioplastia de treze pacientes brasileiros. Todos passam muito bem, obrigado.

Deixar que o procedimento fique aos cuidados de mãos robóticas pode fazer o que era bom ficar ótimo. Na angioplastia, realizada há décadas, a ideia é poupar o tórax de ser rasgado pelo bisturi a fim de liberar a circulação, barrada por uma placa de gordura. Se cirurgias, como a da safena, criam pontes para saltar esse obstáculo, a angioplastia oferece a solução por um outro caminho, infinitamente mais discreto. — e sem causar todo o derramamento de sangue e os riscos inerentes aos grandes cortes cirúrgicos. 

"Na angioplastia, basta um furo em uma artéria da virilha, chamada femural, ou em outro vaso que passa pelo punho, a artéria radial", descreve Pedro Lemos, coordenador da Cardiologia Intervencionista do Einstein.  "É por ali que introduzimos uma sonda, ou cateter, que irá até o coração. Como ela é oca, podemos carregar em seu interior tudo do que precisamos, como balões que inflarão no ponto problemático para esmagar a placa gordurosa e os famosos stents, feito redes, que irão prender essa placa contra a parede e manter o vaso bem aberto, sem deixar que nada ali volte a atrapalhar a passagem do sangue." É assim, basicamente, que acontece uma angioplastia convencional.

No entanto, para saber onde está o cateter em cada instante de sua viagem até o peito, os médicos usam imagens obtidas com raios X . Para o paciente, nada tão grave: ele só será exposto a essa radiação enquanto durar a brincadeira, algo em torno de uma a duas horas, se ele não tiver várias placas distribuídas nas coronárias, por exemplo. Vá lá, então, o procedimento pode se prolongar por três horas naquelas casos muito complexos, como os de gente que tem artérias tão, mas tão tortuosas, que fazem o caminho do cateter lembrar uma serra cheia de curvas, obrigando o médico dirigi-lo lentamente e com atenção redobrada.

"O problema da radiação é para o profissional intervencionista, que afinal pode fazer dois ou três procedimentos desses por dia — e, ora, ele acaba fazendo isso todos os dias", lembra Pedro Lemos. Para não ficar exposto o tempo todo, já que para fazer a angioplastia ele precisa ficar ali do lado, em pé e grudado no paciente, só tem mesmo um jeito: usar um pesado avental de chumbo que vai até o pescoço, para proteger inclusive a tireoide. Essa vestimenta tem aproximadamente 7 quilos. Agora, porém, a roupa peso-pesado poderá ficar no armário. 

Na angioplastia robótica, quem conduz o catéter pelos vasos são os braços do Corindus. Pedro Lemos, como seus colegas, fica do lado de fora da sala, coordenando o robô, sentado de boa diante de um painel de comando e de telas que permitem a visualização perfeita do paciente. 

Pergunto a ele se é fácil realizar o procedimento dessa maneira ou se foi preciso passar por um longo treinamento como em outras cirugias robóticas, feito aquelas realizadas pelo famoso Da Vinci — o robô que, já há alguns anos, opera próstatas no mesmo hospital. "São situações completamente diferentes", ele responde. "O Da Vinci tem um instrumental próprio, carrega pinças e bisturis que são só dele", explica. "No nosso caso, o robô usa os mesmos instrumentos de sempre, ou seja, não precisamos aprender algo diferente daquilo que já fazíamos. Para quem é experiente em angioplastias, basta realizar três ou quatro procedimentos com o Corindus para adquirir habilidade nos comandos. Para mim, ao menos, foi uma surpresa agradabilíssima", conta, com voz de entusiasmo. Isso, se a tecnologia realmente seguir para a rede pública,  será um baita facilitador.

Minha principal dúvida, porém, era outra: ora, que vantagem leva o paciente enquanto o médico manda e desmanda no robô no conforto de uma cadeira? "O fato de o médico não se cansar tanto, nem sentir dor nas costas pelo peso do avental, em tese, faz com que ele tenha um foco ainda maior no cateter", defende Pedro Lemos. "Tudo bem que estamos falando de um procedimento, a angioplastia, que já oferecia 98% de segurança. O uso do robô faz a gente ganhar, talvez, só 1% a mais nesse quesito. No entanto, em Medicina 1% a mais de segurança é sempre bastante relevante e vale consideração."

Há mais duas vantagens que são tremendas. Primeira: o  robô consegue calcular o ponto exato onde deixar o stent dentro da artéria. O stent —  já viu um? — é uma rede em formato de cilindro que pode ter de 1,5 a 4 milímetros de comprimento. Só que, sem a mesma precisão da máquina, o melhor dos cirurgiões às vezes usa mais de um desses dispositivos, um atrás do outro, quando encontra uma placa muito extensa. Ou seja, o robô gera uma economia porque instala uma quantidade menor, acertando em cheio na placa por mais comprida que ela seja. Estima-se, assim, que ele coloque um número 10% menor de stents. Na prática, isso economiza um bom dinheiro e  — ponto para o paciente — torna tudo mais ligeiro.

Finalmente, a pessoa recebe uma dose menor de contraste. "Isso porque, na angioplastia convencional, precisamos filmar o que está acontecendo dentro do paciente várias vezes para saber a localização do cateter, se ele está um pouquinho mais à frente ou mais atrás. E, sempre que surge essa necessidade, usamos mais contraste", explica Pedro Lemos. O robô, porém, costuma saber exatamente onde essa sonda está.

Todos esses aspectos começam a ser analisados e quantificados na parceria entre o Einstein e o governo. O robô ainda está sendo usado de forma experimental. A meta é realizar de 80 a 90 procedimentos — o que, pela estimativa de Pedro Lemos, deve consumir uns seis meses. Se a segurança e o custo-benefício ficarem comprovados, a tecnologia poderá, sim, ser implantada na rede pública.  

Em uma segunda fase, Pedro Lemos e seus colegas intervencionistas do Einstein vão fazer queda de braço com o robô para ver quem leva a melhor naqueles pacientes com complicações, como os vasos muito tortuosos já citados, artérias extremamente calcificadas que dificultam a passagem da sonda ou, ainda, placas em zonas de bifurcação, quando o trabalho do médico é literalmente em dobro. Tudo indica que a nova tecnologia seja ainda mais interessante em casos, digamos, cabeludos. Mas é preciso fazer todas as comparações antes de sair promovendo o Corindus.

Então, depois de aprovado na angioplastia, o robô poderá testar suas habilidades em outros campos. Realizar outros procedimentos vasculares, mas nas pernas, por exemplo. Lá fora, ele já provou que, assim como faz no peito, consegue desobstruir até mesmo os estreitos vasos da cabeça em casos de acidentes isquêmicos. Outra boa possibilidade é de se intrometer também na equipe de oncologia, entregando drogas quiometerápicas em vasos bem próximos ao tumor. Com certeza, não vai faltar trabalho para o novo integrante das equipes médicas.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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