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Por que, nos exames de rotina, ninguém checava se havia um tumor no pulmão

Lúcia Helena

08/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Na hora do check-up, os médicos escrevem linhas e mais linhas no receituário solicitando para vasculharem o seu sangue. É um tal de contar células brancas e vermelhas em cada gota, pesquisar gorduras de todo tipo, caçar vitaminas e substâncias de nomes estranhos, capazes de entregar como andam as coisas no fígado, no coração, em tudo o quanto é canto. Às moças, os garranchos podem ainda se traduzir em ultrassom, mamografia, papanicolau. Aos moços, PSA, toque retal. Um teste de urina, quem sabe, irá completar a lista. Ah, sim, fezes no potinho também — sem constrangimento, quem nunca? Colonoscopia, talvez. No entanto, será que alguém aí já saiu de uma consulta de rotina, dessas só pra ver se tudo está em ordem, com um pedido para dar uma espiadela nos pulmões? Comigo, pelo menos, jamais aconteceu. E hoje entendo por quê.

Não é por nada, não, que fiquei encanada: o tumor de pulmão é o segundo tipo de câncer mais comum no sexo masculino e o quarto, no sexo feminino. Daí minha estranheza. Mas acabo de descobrir o motivo de os pulmões ficarem de fora. Quem me contou a razão foi o doutor Fernando Santini, oncologista do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo: "Até há pouquíssimo tempo, ninguém via benefício em fazer um rastreamento para flagrar os casos desse tumor na população", ele me disse. Aviso importante: isso agora mudou. Só que muita gente ainda ignora a mudança.

Para que exista a recomendação de se fazer determinado exame a partir de certa idade a fim de pegar um tumor recém-nascido no pulo, os benefícios dessa medida precisam ficar bem claros. "E, decididamente, mandar todo mundo sair fazendo raio X do tórax não seria o caso", garantiu o doutor Santini. Se isso acontecesse, seria um caos à toa, com gente enchendo as salas de biópsia e passando pelo risco de procedimentos invasivos a troco de nada. É que, respire com calma, todos nós tivemos, temos ou teremos nódulos pulmonares observados nos exames de imagem. Bobeou e o pulmão forma um deles. 

Pode ser a lembrança perene de uma tuberculose que você contraiu e nem se deu conta. Uma gripe recente? A mesma coisa e, aí, a alteração que o vírus provoca no tecido costuma desaparecer mais dia, menos dia. A fumaça — do cigarro, das chaminés, dos carros — idem, faz a mesma coisa. Moral: se todo nódulo no pulmão fosse sinal de câncer, estaríamos lascados. O que não nos falta é nódulo. Quando essa bolota — geralmente é uma bolotinha —tem menos do que 6 milímetros, ela costuma benigna. Mas, claro, na multidão sempre existe gente com nódulos minúsculos que são o estopim do mal. E como achar esses indivíduos?

Em 2011, surgiu o primeiro estudo sugerindo que, se determinados grupos de pessoas fizessem uma tomografia para checar os pulmões, a chance de flagrar uma encrenca maligna mais cedo seria enorme, diminuindo então a mortalidade pela doença. No ano passado, um estudo internacional colocou um ponto final no zunzunzum de quem queria discutir se isso valeria mesmo a pena. Pronto: "Hoje, quem tem entre 55 e 80 anos, fuma demasiadamente ou já foi um fumante inveterado e interrompeu as tragadas há menos de quinze anos deveria fazer a tomografia", alerta Fernando Santini. 

O que seria fumar demais? Seria fumar um maço por dia ao longo de trinta anos ou tragar dois maços por dia em metade desse período, isto é, durante quinze anos. Não que fumar menos deixe de ser algo perigoso, mas essa quantidade seria a linha separando os indivíduos de altíssimo risco, digamos. "A tomografia de baixa radiação, nessas pessoas, poderá flagrar nódulos malignos tão iniciais que bastará arrancá-los fora. A cirurgia então já será curativa", conta o médico, que é também membro do comitê científico do Instituto Lado a Lado pela Vida. 

Desde 2017, o instituto realiza a campanha Respire Agosto, para disseminar o conhecimento sobre a doença. "Vamos levar um pulmão gigante para estádios de futebol e pontos de grande circulação nas cidades, entre outras coisas", conta Marlene Oliveira, presidente do Lado a Lado.

Falar de câncer, claro, não é como mostrar ginástica no parque ou apresentar uma fruta doce. Há pautas mais saborosas, mas esta é a que precisamos encarar. Até porque, se o sujeito não está acima dos 55 anos, nem soltou tantas baforadas de cigarro, ele está fora da nova recomendação — que, para complicar, ainda não é aplicada na rede pública como forma de rastreamento, nem é muito conhecida até mesmo em consultórios privados. Sem qualquer exame para detectá-lo, o câncer de pulmão segue em frente sorrateiro. A maioria dos casos vem à tona quando estão avançados.

Embora oito em cada dez tumores apareçam nos pulmões de fumantes, o que dizer dos 20% que nunca colocaram um cigarro na boca? "Aí a doença pode ter a ver com a emissão natural do gás radônio, muito presente em regiões do planeta onde há urânio. Ou, ainda, com o tabagismo passivo e até mesmo com a poluição ambiental, da qual não estamos conseguindo escapar", enumera o doutor  Santini. Aliás, o ar poluído é o principal acusado pelo fenômeno estarrecedor: os tumores em quem nunca fumou crescem sem parar. E eles surgem em adultos jovens e até mesmo em adolescentes, o que antes era inimaginável.

Se a pessoa, ao tossir, enxerga sangue, ela logo fica preocupada. O problema é que outros sinais costumam ser jogados sob o tapete — o que não dá. Uma tossinha chata e persistente? O cidadão reclama do tempo seco, do ar-condicionado do escritório… Outro sintoma importante é a falta de fôlego. Ela não indica necessariamente um caso avançado. "Às vezes, um tumor pequeno está localizado bem na entrada do ar nos pulmões, disparando essa sensação", descreve Santini.

Quando o câncer é confirmado, os médicos fazem exames no corpo inteiro para, antes, saber se ele já se espalhou. Isso, infelizmente, é comum. Olham com especial atenção o cérebro, os ossos, as glândulas adrenais e o fígado, órgãos para onde esse tumor costuma se dirigir com maior facilidade. O tratamento, porém, vai depender muito mais do tipo da doença. "Antes, colocávamos tudo em um saco só e isso também mudou de uns dez anos para cá", revela o oncologista. Existem, para começo de conversa, dois grupos de tumores pulmonares. 

Os tumores de pequenas células representam 15% dos casos. São mais agressivos e geralmente tratados com quimioterapia aliada à imunoterapia. Já em um câncer de não pequenas células, os médicos agora olham muito mais para eventuais moléculas alteradas em sua superfície. Afinal, elas podem se tornar um alvo no tratamento. 

Quando esses alvos são detectados, é possível lançar mão de comprimidos capazes de bloquear aquela alteração em cheio. Cerca de 75% dos pacientes tratados com combinações drogas que agem assim, bloqueando moléculas, estão vivos há mais de cinco anos. Esse tipo de terapia para o câncer de pulmão está disponível no país desde o ano passado.

A questão, porém, é o que fazer para prevenir novos casos e nunca chegar a esse ponto. Além do óbvio — apagar o cigarro —, o que tenho para dizer é o batido. Isto é, nós precisamos ter uma boa alimentação, dormir direito, praticar atividade física com regularidade. Enfim, fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance para afastar um câncer. "No caso do pulmão, torna-se cada vez mais fundamental evitar ainda a exposição excessiva a poluentes, escolhendo lugares e horários em que a qualidade da atmosfera esteja melhor para, aí sim, praticar esporte ao ar livre", exemplifica Santini. Só desse jeito, mantendo distância de tanta agressão que está no ar, para respirar mais aliviado.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.