Topo
Blog da Lúcia Helena

Blog da Lúcia Helena

Categorias

Histórico

Já fez seu pedido de um infarto naquele app de delivery de comida?

Lúcia Helena

15/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Sinto muito, sobrou para o aplicativo, que entrou de gaiato nesta história. Mas acho que vale a reflexão antes de você adicionar seu próximo pedido na cesta de compras. O estudo fresquinho que li nesta semana, mal saído do forno da Sociedade Europeia de Cardiologia, fala de outra coisa. Eu que ligo uma à outra e entrego para você tudo no mesmo saco. 

O que os cientistas da Universidade de Newcastle, na Austrália, fizeram — eles são parceiros dos médicos europeus, antes que estranhe o detalhe da geografia — , foi um levantamento de quem infartou em seu país, tanto em áreas rurais quanto metropolitanas. Depois, cruzaram o CEP dessas pessoas, que constava no registro de entrada no hospital, com as informações sobre o comércio de alimentos na área onde moravam. Daí, feitas algumas contas, chegaram à conclusão: para cada loja de fast-food aberta em determinada região são quatro infartos a mais em cada 100 mil habitantes. 

Nem vou entrar no mérito se esse crescimento de ataques do coração é pequeno, médio ou grande. Aliás, quer saber? Na minha santa ignorância em matemática acho que, ao espremer os números de qualquer estudo metido a fazer associações, eles acabam contando a historinha que você bem desejar. E esta serviria para apontar o dedo no nariz do palhaço de uma famosa rede, por exemplo. Não é birra, o que ele pode fazer com consumidores frequentes não tem a menor graça.

Os pesquisadores garantem que não forçaram a inimizade com o hambúrguer nem com as fritas que o acompanham. Eles tomaram o cuidado de ajustar outros fatores, sem misturar pessoas com idades nem gêneros diferentes, fumantes com não fumantes, diabéticos com aqueles com glicemia normal… Enfim, compararam apenas gente que era quase igual, tentando deixar que o CEP fosse a única diferença marcante entre os integrantes de subgrupos dos 3.070 pacientes envolvidos — e, claro, consequentemente o número de estabelecimentos de fast-food perto deles.

Por esse caminho, deixaram uma ideia clara: se há um lugar vendendo combos de sanduíche e refri ao seu lado, a probabilidade de você consumir o lanche é um bocado alta. Então, pensando na prevenção das doenças cardiovasculares, todo mundo deveria prestar mais atenção ao, digamos, ambiente alimentar na vizinhança. Esse raciocínio é primo-irmão daquele outro que fala sobre o que os olhos não enxergam e que o coração mais a boca do estômago também não sentiriam. Acho um pensamento bonito na teoria e bem capenga na prática. Pra não dizer antigo — em que planeta vivem esses cientistas, onde moram, o que comem? Sugiro, daria um Globo Repórter!

Ora, eu e você não precisamos passar pela porta de uma lanchonete. Temos todas as hamburguerias da cidade, sem contar aquele chinês na caixinha de papelão e outros tantos cardápios de fast-food no bolso ou na bolsa. Isto é, no celular. O mercado de delivery cresceu mais de 109% só no ano passado, facilitando tanto a nossa vida quanto os entupimentos nas artérias. Se isso é pedir um infarto, a entrega poderá demorar um pouquinho, mas um dia chegará. 

Para saber se existiria um exagero nisso, procurei a nutricionista Marcia Gowdak, que faz o elo entre o prato de comida e o que passa pelo nosso peito como poucos. Pudera. Em sua trajetória, ela soma mais de década de experiência no Instituto do Coração, o InCor, na capital paulista, e faz parte da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo assim como da Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH). "Dos sete principais fatores de risco por trás da doença cardiovascular, a combinação de alimentação e atividade física tem a ver com quatro deles, podendo prevenir ou piorar bastante a situação ", avisa. Ou seja, tem a ver com diabetes, hipertensão, obesidade e com o colesterol ou os triglicérides nas alturas. 

A qualidade das refeições só não impacta diretamente o estresse, o tabagismo e a genética, ops, quer dizer… Até isso está mudando, porque hoje se sabe que DNA não é destino. Nosso estilo de vida pode, sim, fazer com que aqueles genes ligados a doenças do coração, herdados de pais que infartaram, não se expressem ao longo da vida. "No entanto, dois grupos de nutrientes pesam desfavoravelmente nesse contexto: o das gorduras e o dos carboidratos, especialmente os simples", diz Marcia. "Quando são consumidos em excesso, eles afetam o metabolismo de tal modo que isso vira o estopim de problemas cardíacos. E não há dúvida de que o cardápio dos fast-food capricha em gorduras e carboidratos", observa. 

Isso me fez lembrar outro estudo, publicado em fevereiro deste ano, assinado por cientistas da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Eles analisaram o cardápio oferecido pelas dez maiores redes de fast-food daquele país nos últimos trinta anos. Não deve ser muito diferente pelas nossas bandas, penso. Em resumo, constataram que, depois de pressionadas por campanhas de combate à obesidade, todas as redes incluíram itens mais saudáveis em suas ofertas. Mas, de certa forma, eles serviram de cortina de fumaça, atrás da qual a quantidade média de sódio, gordura e açúcares dos outros alimentos no menu só cresceu. Aliás, o tamanho das porções também aumentou 24 gramas, em média, por década.

Sejamos honestos, nos tais aplicativos, o que está com desconto, entrega grátis ou aparece entre campeões em pedidos quase nunca é o arroz com feijão, nem o grelhado com a salada."Até porque, no Brasil, a comida com ingredientes mais saudáveis é muito mais cara do que o resto", nota Marcia Gowdak. "Para complicar, em geral  o indivíduo apela para o app quando está com pressa e muita fome. Fisiologicamente, o apetite faz o organismo salivar por tudo o que oferece energia mais ligeiro. Daí a tendência maior a pedir uma comida calórica e cheia de gordura."

Culpa da tecnologia, dos apps, dos motoboys com caixas de entrega cruzando os nossos caminhos? Simplista demais essa acusação. Marcia Gowdak, aliás, tem uma experiência ótima em um dos mais conhecidos colégios paulistanos, o Vera Cruz. Ele implantou, em 2008, um programa nutricional aplicado à criancinha que entra na pré-escola com 1 ano  e pouco de idade até ao jovem no quinto ano do ensino fundamental. Os alunos não podem levar lanche de casa. A equipe do Vera é que prepara as refeições no período das aulas, caprichando nas frutas e nas hortaliças. No sexto ano, porém, vem a liberdade — não só para o adolescente carregar na mochila o lanche que quiser como para sair no intervalo e comer na padaria da esquina.

Pois bem: no ano retrasado, Marcia foi checar com os próprios alunos do quinto ano o que aconteceu com a turma que, ao longo dos dez anos desse trabalho, se acostumou a consumir vegetais. A venda de sanduíches pesados, frituras e refris despencou na padoca. Outro estabelecimento, especializado em cachorro-quente, também viu seu faturamento diminuir com a nova geração de consumidores. Já quem saiu lucrando foi o vendedor água de coco na praça em frente ao Vera. Tudo isso foi documentado. 

"Essa experiência prova algo que vale também para adultos e aplicativos: não é a proximidade ou a facilidade que cria o consumo excessivo do fast-food, mas a falta de educação alimentar e do hábito de ingerir outros alimentos desde sempre", diz ela que, em outra frente, em parceria com a SBH, ajudou a desenvolver um aplicativo, disponível para Android e, logo mais, para IOS. Não é de entrega, mas de orientação na hora da compra.

Chamado Escolha Certa, o app avalia a gordura, o sódio e a lista de ingredientes do que se encontra no supermercado, dando uma nota de zero a 100 no final. Tomara que as pessoas usem e que, fazendo boas opções de compra, preparem as suas refeições com mais frequência. Afinal, é uma delícia pedir a pizza no domingo, mas  é bem estranho comer em casa e, ao mesmo tempo, quase nunca comer a comida de casa. Desse jeito, o que você está pedindo é um piripaque.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.