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Doença de Peyronie: pau que fica torto nunca se endireita?

Lúcia Helena

03/09/2019 04h00

Crédito: iStock

Será que algo poderá desentortá-lo ou será que, sozinho, esse pedaço do corpo masculino irá, um dia, recuperar um sentido mais reto quando ereto? Será que virou — para cima ou para baixo, para um lado ou para outro — e não voltará nunca mais a ser o mesmo? Essas são perguntas que muita gente se faz. De um a oito homens em cada 100 correm atrás de respostas. Parceiras e parceiros também. E isso é uma média geral, porque varia bastante conforme a faixa etária, a genética, a etnia e uma série de fatores. Note o caso dos diabéticos, para eu ficar em um único exemplo. Entre eles, até 20% dos pênis fazem uma bela curva quando entram em ação— para uns, perigosa, por ser muito acentuada e eventualmente provocar desastres na vida sexual. 

Se a situação é capaz de se endireitar ou não, só o tempo dirá. Nem adianta ficar zangado ou zangada comigo, que não posso dar um jeito no texto quando a própria Medicina não dá jeito — ou, vá lá, quando ela nem sempre consegue uma solução satisfatória para todos. Só tento explicar por que essa deveria ser chamada a doença da paciência. Mas é Peyronie que se fala.

O francês François Gigot de La Peyronie (1678-1747) foi um cientista e tanto. Criou escolas de Medicina, doou seu dinheiro a estudos e chegou a ser o Primeiro Cirurgião do rei Luís XV, uma espécie de Ministro da Saúde para a época. Em 1743, usou sua pena para duas coisas importantes. Proibiu, na França, que os barbeiros continuassem realizando operações — eles que usassem suas lâminas apenas em barbas e bigodes. E, naquele mesmo ano, descreveu essa deformidade peniana adquirida — isto é, não confundir com meninos que já nascem com uma curvatura extraordinária no órgão  —, a qual levaria seu nome. 

Há quem diga que o doutor Peyronie enxergava o problema em si próprio ou especule que o rei é que andava meio torto… Isso tudo, porém, pode não passar de lorota. O que a História nos assegura é que ele descreveu perfeitamente essa condição. Mas, segundo o urologista Bruno Chiesa Gouveia Nascimento, "séculos depois, ainda não avançamos tanto em sua compreensão", como mostrou no Congresso Brasileiro de Urologia, na semana passada, em Curitiba. 

Médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, doutor Bruno se especializou em Medicina Sexual no Memorial Sloan Ketteting Cancer Center, em Nova York, nos Estados Unidos. Calma, o pênis torto não é vítima de um tumor — apesar de essa ser uma das ideias que logo assombram os homens quando sentem o membro dolorido e palpam um caroço bem ali. Mas um susto maior surge na ereção: excitado, o bicho começa a envergar. Pode ser algo sutil, em um ângulo de 10 graus. Mas ele também pode continuar se encurvando a 15 graus, a 20 graus, a 30 graus…. "Tudo é capaz mudar nos primeiros seis meses", avisa o médico. Passado esse período é que a curva, mais aberta ou mais fechada, tende a se estabilizar e a dor, a sumir.

O que está por trás é uma cicatrização exagerada da túnica albugínea, uma capa elástica que circunda os corpos cavernosos. Na ereção, quando eles são preenchidos por sangue, essa túnica se distende. Alonga-se tanto que, invariavelmente termina com microtraumas ao longo da vida. O corpo trata de recuperá-los, mas pode ir longe demais nesse afã. "A túnica albugínea funciona como uma estrutura feita telhas que se sobrepõem umas às outras e que deslizam na medida em que o pênis aumenta de tamanho na ereção", descreve Bruno Nascimento. Na doença de Peyronie, ao reparar aqueles danos causados pelo uso, o organismo forma uma cicatriz fibrosa fazendo com que algumas telhas fiquem grudadas entre si. Então, o homem sente uma placa endurecida. Mais a dorzinha chata do processo inflamatório.

Por que essa cicatriz entorta tudo? Porque o seu pedaço não mais se estica. Doutor Bruno compara com uma daquelas bexigas feito salsichas, usadas para fazer esculturas em festas infantis: "Coloque um quadradinho de fita crepe nela quando estiver vazia", propõe. "Onde está o adesivo, o material não irá se esticar enquanto você assopra. Portanto, o balão irá se encher dobrando-se para esse lado. É a mesma coisa com o pênis", diz ele.

Não tem muito como prevenir, até porque ninguém deixa de transar para evitar os microtraumas. "'E é uma doença multifatorial", afirma o médico, apontando como exemplo a presença do gene HLAB 27, associado às fibroses no interior do pênis. Apesar de existir um quê de genética por trás, ele não explica tudo. "A doença é mais comum em homens caucasianos e costuma surgir a partir dos 50 anos", conta o médico. Mas o pênis também pode encurvar antes dessa idade.

A direção da curva — lembre-se da bexiga com fita crepe — será para o  lado da placa. Onde ela vai parar? O final é imprevisível.  Como disse, paciência. Em um estudo conduzido pelo urologista John P. Mulhall, do mesmo Memorial onde Bruno Nascimento foi se especializar, foram reunidos pacientes com menos de seis meses do surgimento de placas no pênis que optaram por não tratar para ver no que dava. Passado um ano inteiro, a situação era a seguinte: 40% permaneciam estáveis, ou seja, neles a placa continuava na mesma e o pênis, tão torto quanto antes. Metade, piorou, aumentando alguns graus na curvatura. E 10%, mesmo sem fazer nada, viram a curva diminuir. 

A melhora espontânea dessa minoria não quer dizer que a doença abrandou.  Curiosamente, talvez tenha até piorado. "Às vezes, a placa cresce tanto que alcança o outro lado e, daí, puxa o pênis para o sentido oposto ao inicial. A  impressão é de que ele voltou a ficar reto", descreve o doutor Bruno. Daí por que muita gente dá crédito a tratamentos, como a suplementação com vitamina E, que na verdade não funcionam "Aqueles que se sentiram beneficiados provavelmente veriam a curvatura aliviar se tivessem apenas aguardado", garante o urologista. Aliás, o certo é esperar a fase aguda ir embora para iniciar qualquer tratamento, sem tentar enxugar chuva. Bom avisar que nenhuma medicação oral se mostra satisfatória. "É frustrante", admite o doutor Bruno.

Claro, existem casos em que a curvatura  fica tão discreta que não impede a penetração, melhor deixar para lá. Em outros, exige do casal criatividade, como se aquela posição predileta já não desse encaixe. Mas há homem que prefere ser tratado — ou porque o novo design  está complicando as coisas  ou porque se sente deformado. Pesquisas indicam que 48% dos pacientes com Peyronie desenvolvem depressão de moderada a grave. Não se pode culpar o pênis sozinho por tanta tristeza, mas claro que seu problema pode ser um gancho. A insatisfação elevada do paciente ou da parceira, talvez parceiro, é que conta na decisão de arriscar um tratamento.

Os melhores são os injetáveis, que devem ser aplicados algumas vezes no consultório, com várias picadas acertando em cheio a cicatriz. Nos Estados Unidos, surgiu colagenase, que quebra as fibras constituintes das placas. Mas, além de ainda não ter sido aprovada por aqui, ela está fora da nossa realidade: "Seu custo gira em torno de 25 mil dólares", avisa Bruno Nascimento. "E o investimento pesado pode não se traduzir em melhora o suficiente". Em média, a colagenase diminui 34% da curvatura, o que não resolve a vida de quem tem um pênis entortado a 60 ou 90 graus, concorda? No Brasil, as injeções mais usadas são de uma droga chamada verapamil, que ao menos reduz significativamente a probabilidade de a curvatura piorar.

Existem ainda aparelhos de tração, cuja lógica é forçar e esticar as placas. Além do risco de machucar ainda mais a tal da túnica e de serem dolorosamente presos na glande, esses equipamentos exigiam até nove horas de uso por dia por durante meses a fio. "Impraticáveis", opinou o doutor Bruno em sua aula no congresso. Ele apresentou como alternativa um novo dispositivo criado na Clínica Mayo. nos Estados Unidos, que basta ser usado por meia hora a 90 minutos diariamente, sem segurar com força  a pobre glande. A melhora esperada é de uns 11 graus e os pacientes que o testaram viram seu pênis crescer cerca de 1,5 centímetro — porque, óbvio, quando o membro entorta, ele perde comprimento.

Nos casos tortuosos pra valer, a saída é cirúrgica e a escolha da técnica não é das mais fáceis. Um caminho é compensar aparando o  lado oposto ao da placa, o que leva à perda de comprimento do pênis — como os rapazes têm ideia fixa no tamanho do dito-cujo…  Outro jeito é cortar e estirar na marra o lado do membro que, na curva, ficou mais curto, só que o defeito que se forma precisa ser recoberto e há o risco de atrapalhar as ereções depois. Terceira opção é implantar uma prótese. Tudo vai depender da cabeça do paciente e de como ele aceita cada ideia. Para saber das estratégias terapêuticas, já que o problema dificilmente será notado pelo médico — sua face torta só apareceria em uma ereção —, os homens com a doença precisam é da coragem de colocar o Peyronie na mesa para um papo direto e reto.

Aviso: em nome da transparência, conto viajei para acompanhar o Congresso Brasileiro de Urologia a convite da Bayer,  sem haver conflito de interesses ao cobrir este tema.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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