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Síndrome da bexiga dolorosa: um desconforto forte que ninguém sabe explicar

Lúcia Helena

10/09/2019 04h00

Crédito: iStock

Um bocado de pessoas fica zanzando de consultório em consultório sem descobrir o que tem. Entre elas, a vontade de fazer xixi pode ser perturbadora, por aumentar um mal-estar que tende a crescer com o passar dos anos. A maioria vive com dor, desconfia de uma cistite infeciosa, mas então vai fazer o exame de urina e não encontra ali nem sequer uma bactéria para justificar o ardor constante. 

Há também quem não sinta essa dor o tempo inteiro, mas que vez ou outra salta de susto por causa de um espasmo no baixo ventre — e, de novo, parece não haver qualquer motivo físico para a fisgada sem aviso prévio. Tem gente, ainda, que só reclama de uma baita pressão, como se houvesse um peso comprimindo tudo na região pélvica e que é quase insuportável no ponto específico do púbis. 

Esses são sintomas clássicos de um problema de que pouco se fala e que deixa suas vítimas completamente perdidas: a síndrome da bexiga dolorosa. Segundo a American Urology Association, só se pode dizer que alguém tem isso se as sensações desagradáveis persistem por mais de seis semanas — um prazo que, cá entre nós, soa ingênuo. A realidade é bem mais dolorosa do que a própria síndrome. Muito paciente espera de três a oito anos até alguém levantar a bola desse diagnóstico e, no intervalo, incompreendido, se acha quase maluco porque não se flagra nada de errado por trás do desconforto, que por lógica poderia ser quase imaginário — mas, atenção, não é. De perto, as paredes da bexiga estão inflamadas, ardentes, cheias de vasos rubros.

Tudo bem que, para aumentar a confusão, essa encrenca andou mudando de nome. Ja foi mais conhecida nos meios médicos como cistite intersticial, uma inflamação na bexiga sem causa aparente. "Há várias teorias sobre como ela surgiria, mas, cá entre nós, nenhuma delas é muito convincente", disse o médico Victor José Gonçalves de Moura, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante sua aula no último Congresso Brasileiro de Urologia. 

Uma das teses é de que existiriam falhas nas camada mais interna da bexiga, a qual deveria ser uma espécie de revestimento protetor. Sem uma barreira íntegra, determinadas substâncias alcançariam a musculatura em camadas mais profundas, bem como as terminações nervosas desse órgão. "Mas isso por si só não justificaria", diz ele. "E, no final, se a gente revê a literatura científica, todos os autores acabam concordando que se trata de uma doença misteriosa", contou.

Misteriosa e, diga-se, debilitante. A síndrome da bexiga dolorosa é de cinco a nove vezes mais comum nas mulheres do que nos homens. Há relatos de pacientes que ficam mais de hora no vaso sanitário porque, nos casos graves, não suportam a sensação ruim, seja ela qual for, quando uma única gota de urina é derramada dentro da bexiga. "Em geral, os sintomas aliviam nos instantes seguintes à micção", afirma o professor Moura. Mas aí é que complica por um detalhe: não há trégua, uma vez que os rins em condições normais escoam esse líquido o tempo inteiro. Então, os portadores da síndrome visitam o banheiro de trinta a oitenta vezes por dia para calar seu sofrimento.

A doença costuma atanazar pessoas com mais de 40 anos e, com uma frequência absurda, que não deve ser mera coincidência, acomete quem já sofria de outras dores difíceis para a Medicina entender, duplicando o tormento sem dó nem piedade. Aparece, por exemplo, em vítimas de fibromialgia e da terrível síndrome do intestino irritável. "O desconforto na bexiga também costuma coexistir com a depressão", observa o professor Moura. "E, no caso, muitos estudos apontam que a pessoa não fica deprimida porque vive com dor, mas que, em um caminho inverso, a dor surge ao mesmo tempo ou logo depois de o quadro depressivo dar as caras", comenta.

É bem possível que exista um componente genético favorecendo esse padecer. Isso porque algumas pesquisas mostram que a probabilidade de um irmão de quem tem a doença desenvolvê-la é maior entre gêmeos idênticos, que compartilham a mesmíssima bagagem de genes. Mas essa seria apenas uma pecinha do quebra-cabeças que a Medicina não consegue montar.

Para piorar, não há teste de DNA nem de urina, exame de sangue nem de imagem — nada que possa cravar com segurança o veredicto de que alguém está com a tal síndrome. "O jeito é fazer esse diagnóstico por exclusão, tirando da frente todas as outras doenças que poderiam provocar sintomas semelhantes", diz o professor Moura. 

O primeiro passo você já deve imaginar: é aquele de afastar a hipótese de qualquer infecção. Na sequência,  descarta-se um câncer, na própria bexiga ou na uretra. Também vale fuçar cálculos renais, diabetes… É importante não achar anormalidades pélvicas no trato urinário, daquelas que dificultam o esvaziamento da bexiga, nem o chamado prolapso, quando, por efeito do tempo e da impiedosa força da gravidade, alguns órgãos despencam com todo o seu peso sobre a bexiga, como o útero nas mulheres. 

Nelas, vale notar, essa síndrome tão doída pode parecer mais forte ou mais fraca conforme a fase do ciclo menstrual — eis uma  bela pista. E, infelizmente, algumas portadoras reclamam de dor na hora de transar, o que atrapalha de vez a qualidade de vida e tira a investigação médica do rumo, porque aí todos desviam o olhar para o útero, quando é a bexiga que está padecendo de inflamação.

Durante um tempão, para dar o diagnóstico os médicos se apoiaram na visão de pequenas feridas pela bexiga — as lesões de Hunner —, para daí suspirarem equivocados:  "só dói por causa delas". Nada disso. Sinto dizer que dói também por causa delas. "Hoje se sabe que a gente só encontra essas úlceras em cerca de 10% de quem tem a síndrome. Portanto, elas não podem ser a causa", avisa o professor Mora. Pois é, episódios com lesões assim são minoria. Não que esses machucados não devam ser retirados ou tratados com injeções de corticoides. Eles devem. Mas,  já viu: o alívio completo não costuma surgir por causa disso.

O que suaviza o tormento pra valer pode ser algo mais simples e eficaz: a fisioterapia do assoalho pélvico, feita praticamente para ensinar a bexiga acometida a se esvaziar. Afinal, ela tende a ficar endurecida e, daí, qualquer distensão por causa da urina chegando já é motivo de "uis" e "ais". 

Alguns itens na dieta notoriamente aguçam o desconforto. Costumam fazer parte do rol dos problemáticos a cafeína, as frutas muito ácidas, a pimenta… "Antes, dávamos uma lista, mas ela era tão imensa que limitava bastante o dia a dia dos pacientes", conta o professor. "Na verdade, notamos que as bebidas e os alimentos que agravam o quadro variam bastante de pessoa para pessoa e o que mais vale é cada um notar o que deflagra os sintomas depois de ingerido."

Quando a fisioterapia aliada à dieta ajustada não dão conta sozinhas, a solução é apelar para medicamentos, que podem ir de certos antidepressivos — indicados em baixíssimas dosagens só para melhorar a situação da bexiga, se a pessoa não está deprimida — até alguns anti-histamínicos, que estancam a reação agressiva do sistema imune às paredes dessa bolsa. O importante para encontrar a saída do labirinto é acreditar nessa dor, apesar de ninguém enxergá-la. Porque, por uma química ainda inexplicável — envolvendo reações complexas entre substâncias dos alimentos, neurotransmissores e moléculas do sistema imune –, a bexiga costuma estar mesmo em chamas.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.