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A bebida criada com o jatobá é tudo de bom para quem tem diabetes ou anemia

Lúcia Helena

17/09/2019 04h00

Crédito: iStock

A notícia saiu há pouco nos jornais da Bahia e, também, na programação local de uma das principais emissoras do país: Diogo Régis, um jovem de apenas 17 anos, desenvolveu uma bebida láctea à base de jatobá, fruta que dá aos montes onde ele vive, na cidade de Barreiras, no oeste do estado, a quase 900 quilômetros de distância da capital, Salvador. O rapaz é aluno do Centro Territorial de Educação Profissional da Bacia do Rio Grande (Cetep) e tudo o que queria fazer, sem tanta pretensão, era um trabalho de iniciação científica. Mas o estudante causou um belo alvoroço ao dar um jeito saboroso para finalmente cair no gosto do povo esse fruto que hoje cai mesmo é no chão, esborrachando-se ali, esquecido, até apodrecer. O desperdício de jatobás é próximo de 95% — ou seja, é fruta perdida até não poder mais. Ah, sim, porque o que não falta é jatobazeiro naquele pedaço do Brasil.

A dica do tema do trabalho foi de sua orientadora, engenheira agrônoma como ele próprio pretende ser um dia. A professora Wilka Miranda sugeriu que Diogo, já tomando a direção de sua futura carreira, fizesse algo para incentivar o consumo de algum fruto da região. O aluno achou uma boa e chegou a cogitar o jenipapo. Mas daí pensou que poderia ser muito mais desafiador inventar algo para aproveitar os jatobás tão desprezados pelos seus conterrâneos, frutos ilustres desconhecidos da maioria dos brasileiros.

Encasquetou de vez com o jatobá quando se debruçou sobre o que a literatura científica já sabia a seu respeito. Ele é cheio de cálcio, proteína, potássio. "Mas, principalmente, é um colosso em ferro e em magnésio, mineral que contribui para o organismo controlar sua glicemia.  E tudo isso com baixíssimos teores de açúcar", diz.  "Foi aí que vi que poderia se tornar uma fonte importante de nutrientes para diabéticos e, ainda, ajudar a debelar os casos de anemia na população", explicou o jovem pesquisador. Segundo a Embrapa Cerrados, a quantidade de ferro do jatobá empata com a do feijão: são 2 miligramas do mineral em cada 100 gramas.

Para quem não conhece, o fruto da Himenea stigonocarpa — o jatobazeiro-do-Cerrado, árvore que alcança uns 20 metros de altura, a metade da estutura do jatobazeiro amazônico  —  é mesmo pra lá de estranho. Para começo de conversa, é uma vagem, feito um feijão gigantesco. Ora, cada jatobá tem uns 11 centímetros em média de comprimento, mas pode chegar a uns 16 ou 17 centímetros, cobrindo com folga a palma da mão.

Uma vez aberta a casca duríssima, responsável por metade do seu peso,  encontra-se a polpa amarela  que esconde enterradas umas três sementes e  — aí é que está… — pode ser diferente de tudo o que você já provou. "O gosto, adocicado, é muito marcante, exótico", descreve Diogo Régis. Mas nem é o sabor intenso, que não lembra o de qualquer outra espécie, o que afasta os consumidores. "Já experimentou um jatobá?", me perguntou. "A polpa é uma espécie massinha farinhenta, com textura quase que de leite em pó.  Só que, uma vez que você come, parece agarrar nas gengivas e no céu da boca." É esse grude que desagrada muita gente.

Curioso, o jovem foi até perguntar para a bisavó de 77 anos, dona Aldenoura, se sempre foi assim. A senhora lhe garantiu que não — antes, as pessoas tinham maior paciência com a farinha amarela colando-se por toda a boca e não sobrava tanto jatobá perdido no solo. Hoje, não. Aliás, podemos falar em farinha mesmo — tem gente que rala a polpa para obter esse produto e, com ele, preparar até mesmo pães e bolos. Embora cheia de fibras, ela perde parte da riqueza nutricional original.

A receita que Diogo Régis apresentou, no entanto, foi outra: uma bebida funcional à base de leite, com pitadas de outros ingredientes que, até o momento, estão guardados a sete-chaves. "Eles foram usados para atenuar o gosto forte, que nem sempre agrada todo mundo, e ainda deixar a bebida mais cremosa", justificou. A mistura, que deve ser patenteada em breve, funcionou. Nos testes sensorias feitos com os alunos do Cetep, a bebida funcional, que tem um tom de doce de leite claro, foi aprovada com louvor.

Mas a maior proeza nem foi conquistar os elogios. A repercussão veio já que, por meio dessa formulação, foi possível manter todos os nutrientes do fruto, inclusive um bocado de vitamina C. Entenda: fora do pé, o jatobá se estraga do dia para a noite. E, dessa forma, dificilmente poderia chegar a outras regiões do país.

A possibilidade de acabar com o desperdício da fruta e de seus nutrientes  chamou a atenção até mesmo do governo baiano e de escolas de ensino superior, que devem seguir com os testes para resolver um monte de problemas no mesmo copo do shake funcional: combater a anemia que ainda grassa no Nordeste, oferecer uma opção interessante para suplementar a dieta de quem sofre de diabetes e criar uma fonte de renda para a população que, até o momento, deixa o jatobá cair de maduro. Mas, pessoalmente, acho que o mais saboroso dessa história é saber que a ciência, quando plantada nas escolas, dá sempre bons frutos.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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